[Sermão] O pó que somos e o nosso tesouro

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Sermão para a Quarta-feira de Cinzas
Pe. Marcos Vinicius Mattke, IBP

Brasília-DF, 17 de fevereiro de 2026 A.D.
Capela Nossa Senhora das Dores

Caríssimos fiéis,

Há um gesto que nossa santa Madre Igreja repete hoje, há séculos, sobre a fronte de cada um dos seus filhos. Um gesto simples, quase rude na sua brevidade: o polegar do sacerdote traça uma cruz de cinzas e uma sentença é pronunciada, Memento, homo, quia pulvis es et in pulverem reverteris. Lembra-te, homem, que és pó, e ao pó hás de voltar.

Não há consolo prematuro nessas palavras. Não há suavização. A Igreja não diz: “és pó, mas não te preocupes.” Diz apenas: és pó. E deixa a verdade fazer o seu trabalho no silêncio do coração.

Mas precisamente aqui nasce a pergunta que este dia nos impõe: se somos pó, se este corpo que alimentamos, que vestimos, que tanto consideramos, é destinado à terra, onde depositamos o coração? Em que colocamos a nossa esperança? Onde está o nosso tesouro? É desta questão que a Santa Romana Igreja não nos deixa fugir. E é esta questão que abordaremos hoje.

I. O fundamento: a misericórdia de Deus

Meus caros, antes de olharmos para nós mesmos, para o que devemos fazer, para o que devemos corrigir, a liturgia nos obriga a olhar para Deus. E isto é já uma lição.

O profeta Joel não abre a sua exortação com uma lista de exigências. Abre-a com uma declaração: “Nunc ergo dicit Dominus.” Agora fala o Senhor. Não é o sacerdote que convoca, não é a tradição que pressiona, é o próprio Deus que se dirige ao seu povo. E o faz com palavras que não deixam dúvida sobre o seu caráter: “miserator et misericors, patiens et multae misericordiae.” Misericordioso, clemente, paciente, de grande benignidade.

Estes não são títulos meramente honoríficos. São atributos revelados. São o que Deus disse de Si mesmo a Moisés no Sinai, no momento em que Israel havia acabado de o trair com o bezerro de ouro. Deus não esperou que o povo se tornasse digno para se revelar como misericordioso. Revelou-se misericordioso precisamente diante da miséria. A condição humana não é, pois, um obstáculo à misericórdia divina; é, justamente, o seu terreno próprio. É onde ela atua com maior liberdade e maior clareza.

É sobre esta base que a Quaresma se constrói. Não sobre o medo, não sobre a coerção, não sobre a ameaça, nem mesmo sobre a vergonha. Mas sobre a esperança. “Quis scit si convertatur et ignoscat Deus?” Quem sabe se Deus não se voltará e perdoará? Esta frase do profeta não é uma dúvida sobre a bondade divina. É a postura humilde de quem sabe que não merece, mas confia. E é esta confiança que nossa santa Madre Igreja nos pede quando diz na Coleta: que percorramos a Quaresma com secúra devotione, com devoção segura, com a paz de quem caminha em direção a um Pai e não de quem foge de um juiz implacável.

Há ainda, meus caros conspícuos, uma imagem no profeta Joel que merece nossa atenção: “relinquet post se benedictionem.” Deus, ao voltar-se para o povo convertido, deixa atrás de Si uma bênção. Como alguém que parte, mas deixa um presente. E este presente não é apenas o perdão, mas a restauração. A graça divina não somente apaga a culpa: reconstrói o que o pecado destruiu. Deus não devolve apenas o que éramos antes da queda; devolve o trigo, o vinho e o azeite que a gafanhoto devorador do pecado havia consumido. Começamos a Quaresma, pois, não com mãos vazias estendidas para o nada, mas com mãos que já antecipam o que vão receber.

II.O perigo: a piedade desalmada

Se o profeta Joel nos dá o fundamento, o Evangelho nos dá o aviso. E é um aviso que nos toca de perto, porque fala de uma tentação especificamente religiosa: o pecado do devoto, não do ímpio.

Meus caros, Nosso Senhor não critica neste trecho os pecadores públicos, os indiferentes, os que vivem alheios a Deus. Critica aqueles que jejuam. Aqueles que praticam a piedade. E os critica por uma razão precisa: porque desfiguram os rostos “ut appareant hominibus jejunantes”, para que se veja que estão jejuando. A obra existe; mas a intenção a esvaziou por dentro.

O hipócrita do Evangelho, palavra grega que designa o ator de teatro, não é necessariamente um mentiroso consciente. Pode ser algo mais sutil e mais perigoso: alguém que cumpre o exterior com tal fidelidade que acaba por convencer-se de que cumpriu o interior também. Rasgamos as vestes, cumprimos o jejum, fizemos a abstinência, viemos à Missa, e confundimos esses gesto com a conversão.

O profeta Joel já havia advertido: “Scindite corda vestra et non vestimenta vestra.” Rasgai os corações, não as vestes. O rasgar das vestes era, no mundo hebraico, o sinal exterior da dor profunda. O profeta inverte a ordem habitual: não basta o sinal exterior, por mais tradicional que seja. É o coração que precisa ser rasgado, aberto, exposto, entregue.

A consequência da piedade farisaica é severa: “Receperunt mercedem suam.”Receberam o que buscavam, a consideração dos outros, a reputação de pessoas piedosas. A conta está encerrada. Não há mais nada a receber. Trocaram o eterno pelo imediato, o tesouro do céu pela moeda corrente da admiração humana.

Contra isto, Nosso Senhor propõe não a eliminação das obras, mas a sua purificação: “Tu autem cum jejunas, unge caput tuum et faciem tuam lava.” Não tristeza encenada, mas discrição e alegria interior. Os padres da Igreja ensinam que o verdadeiro jejum é triplo: do corpo, pela abstinência; da língua, pelo silêncio e pela verdade; das paixões, pela mortificação interior. O primeiro sem os outros dois é uma casca sem fruto, e é precisamente esta casca que Nosso Senhor recusa. Uma Quaresma de estômago vazio mas de língua desenfreada e de paixões desenfreadas não é ainda a Quaresma à qual a Igreja chama.

A Coleta sintetiza o que pedem os dois movimentos: que recebamos a Quaresma com cóngrua pietate, com uma piedade congruente, proporcional, interior, e que a percorramos com secúra devotione, com perseverança serena, sem o nervosismo do escrupuloso nem a frouxidão do tíbio.

III.A meta: onde está o tesouro

Chegamos, meus caros, à última palavra do Evangelho de hoje, que é também a mais profunda: “Ubi thesaurus tuus ibi et cor tuum erit.” Onde estiver o teu tesouro, aí estará também o teu coração.

Esta frase não é uma observação psicológica acidental. É uma lei espiritual. O coração humano não flutua livremente no ar, está sempre ancorado em algo. Sempre gravita em direção a um centro. A questão não é se temos um tesouro; a questão é qual é o nosso tesouro.

O jejum, a oração e a esmola não são fins em si mesmos. São instrumentos, e instrumentos poderosos, para deslocar o coração das coisas perecíveis para o Bem que não passa. Quando privamos nosso corpo dos confortos, ensinamos à carne que ela não depende dos prazeres para existir. Quando abrimos a mão na esmola, praticamos o desapego que a morte um dia tornará compulsório, mas que a graça pode tornar voluntário e meritório. Quando rezamos, reorientamos a atenção para o único Interlocutor que nos conhece inteiramente e nos ama sem fingimento.

Thesaurizate vobis thesauros in coelo”, acumulai tesouros no céu. A Quaresma é, no fundo, um exercício de eternidade. É aprender a viver já agora como se o único tesouro que importa fosse aquele que nem a traça corrói nem a ferrugem destrói.

Peroração

Meus caros, voltemos às cinzas que serão dispensadas em nossas frontes na Missa Solene desta manhã.

O pó que somos não é uma humilhação final, é um ponto de partida. O homem é feito de terra, é verdade. Mas é feito de terra que Deus modelou com as próprias mãos e a qual vivificou com seu sopro. É feito de terra que pode escolher onde repousar o seu coração. E onde o coração for, aí estará a sua eternidade.

Nossa Santa Romana Igreja pede hoje, na Coleta, uma graça dupla: que comecemos bem e que perseveremos até ao fim. Que os quarenta dias que se abrem não sejam uma performance de piedade para consumo externo, mas uma travessia interior, com o coração rasgado, os olhos fixos na misericórdia de Deus, e o tesouro depositado onde a morte não chega.

Deus nos convoca como convocou Israel: com paciência, com clemência, com a bondade que não desiste. Respondamos a Ele também com todo o coração, não com o que sobrar depois de entregarmos a maior parte dele ao mundo, não com o que estiver livre, não com os dias que sobram, não com a atenção que os outros assuntos dispensam.

Convertimini ad me in toto corde vestro. Voltai-vos para Mim com todo o vosso coração.

É a esta voz que hoje respondemos. Que Deus nos conceda a graça de ouvi-la com atenção, de a levar conosco para além desta Capela, e de não esquecer, quando as cinzas secarem na fronte, que elas continua a falar ao longo de cada um dos quarenta dias que se nos abrem.

Comentários

Uma resposta para “[Sermão] O pó que somos e o nosso tesouro”

  1. Sang Lee

    Muito bom!

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O Antoniano