Sermão para a Festa do Sacratíssimo Coração de Jesus
Pe. Marcos Vinicius Mattke, IBP
Brasília-DF, 27 de junho de 2025 A.D.
Caríssimos fiéis,
“Vinde a mim, todos vós que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei” – assim nos fala hoje Nosso Senhor Jesus Cristo pelas palavras do Evangelista São Mateus. Nesta festa do Sagrado Coração de Jesus, nossa Santa Romana Igreja nos leva a contemplar não apenas o amor misericordioso de nosso Redentor, mas o remédio divino para o caos doutrinal, moral e social que assola o mundo moderno.
Vivemos, meus caros, em tempos de grande tribulação espiritual. Por todos os lados vemos o desmoronamento das instituições cristãs, a corrosão dos costumes, a inversão dos valores mais sagrados. Diante de tal panorama desolador, muitos católicos sentem-se como Elias no deserto, pensando que são os únicos que restaram fiéis ao Deus verdadeiro.
Mas não desesperemos, caríssimos fiéis! O mesmo Deus que consolou o profeta nos oferece hoje, na festa de seu Sagrado Coração, a certeza de sua vitória final e os meios seguros para perseverar na fé.
Proponho, meus caros, meditemos sobre como o Sagrado Coração de Jesus, em seu reinado social, oferece a única resposta verdadeira ao espírito demoníaco de nossos tempos – um espírito que, paradoxalmente, prega tolerância mas persegue a verdade, que proclama liberdade mas escraviza as almas.
Meus caros, antes de compreendermos os males do século presente, devemos estabelecer com clareza a doutrina católica sobre o reinado de Cristo. Não se trata de mera piedade privada, mas de uma verdade fundamental que abrange toda a ordem social.
O Papa Pio XI ensinou-nos: “É necessário que Cristo reine não somente nos indivíduos, mas também na sociedade.” Esta não é opinião teológica, meus caros, mas dogma que decorre da própria divindade de Jesus Cristo. Ele é Rei do universo não por aclamação humana, mas por direito próprio, como Verbo Eterno do Pai.
O Sagrado Coração, revelado à Santa Margarida Maria Alacoque, manifestou esta realeza com palavras de majestade: “Eu reinarei, apesar de meus inimigos e de todos os que se quiserem opor.” Notemos bem, caríssimos: Cristo não pede licença para reinar – Ele afirma sua soberania absoluta sobre todas as criaturas, instituições e povos.
Esta promessa não é ameaça, mas consolação. Onde reina Cristo, aí há ordem, justiça, paz verdadeira. Onde Ele é excluído, aí reinam a confusão, a injustiça, a guerra das paixões desenfreadas.
São Pio X proclamou: “É necessário que tudo seja restaurado em Cristo.” Tudo, meus caros – não apenas as devoções particulares, mas toda a ordem temporal: as leis, as instituições, os costumes, a educação.
O mesmo Pio XI diagnosticou com precisão cirúrgica a raiz dos males contemporâneos: “O afastamento da vida pública dos princípios cristãos teve como consequência a apostasia das nações.” Eis aqui, caríssimos fiéis, a chave para compreender a decadência moral de nosso tempo.
Pois como ensina Leão XIII: “Toda a autoridade vem de Deus, e aqueles que exercem o poder na terra são ministros e representantes de Deus.” Quando a autoridade humana se desliga de sua fonte divina, torna-se tirania; quando a sociedade se autonomiza de Cristo, torna-se Babel.
Voltemos agora nosso olhar, meus caros, para o espírito que domina o mundo presente. É um espírito que o Santo Papa Pio IX denunciou com grande simplicidade e autoridade: “O liberalismo é pecado.” Nele temos o pecado por excelência, o pecado de Lúcifer, o pecado instado pela serpente a Adão e Eva. Afinal, não falava o Pontífice da liberdade verdadeira, que é dom de Deus, mas daquela falsa liberdade que se revolta contra toda ordem divina.
São Pio X identificou a essência desta rebelião: “O modernismo é a síntese de todas as heresias.” Porque o modernismo faz do homem a medida de todas as coisas, coloca a criatura no lugar do Criador, substitui a verdade objetiva pela opinião subjetiva.
Leão XIII penetrou no cerne da questão: “Não pode existir verdadeira liberdade quando a inteligência erra e quando a vontade escolhe o mal.” Eis aqui a grande mentira do liberalismo: prometendo liberdade, entrega escravidão; prometendo luz, mergulha nas trevas.
Contemplemos, caríssimos fiéis, a contradição monstruosa de nossos tempos: este mundo que se proclama tolerante revela-se impiedosamente intolerante para com todos aqueles que ousam contradizê-lo. Pregam o relativismo nos princípios – “não há verdade absoluta” – mas exercem um absolutismo feroz contra as pessoas que defendem a verdade católica.
Vejamos como operam: um professor que ensina que o casamento é entre homem e mulher é demitido por “intolerância”. Um médico que se recusa a participar de um aborto é perseguido pelos tribunais. É o cancelamento, a perseguição sutil mas implacável daqueles que não se curvam aos ídolos do século.
O mundo moderno diz: “Tudo é relativo” – mas ai daquele que relativizar essa mesma proclamação! Diz: “Não julgueis” – mas julga sem misericórdia quem ousa professar a fé católica!
Recordemos as palavras do Apóstolo Paulo: “Será que agora procuro agradar aos homens? Se ainda agradasse aos homens, não seria servo de Cristo.” Eis o dilema que se apresenta a todo católico consciente: servir a Cristo ou servir ao mundo.
Reconheçamos, meus caros, neste espírito mundano, o mesmo “non serviam”, “não servirei” que Lúcifer gritou diante do trono do Altíssimo. É a mesma soberba, a mesma rebelião, apenas revestida das roupagens sedutoras do progresso e da modernidade.
Mas qual é, meus caros, a resposta de nossa Santa Madre Igreja a este desafio? Negociação? Conciliação? Sujeição? É uma resposta que une, em um mesmo ação evangélica, a intransigência da verdade com a misericórdia do amor.
A Igreja, meus caros, é intransigente em seus princípios porque é fiel a Cristo. Como o Príncipe dos Apóstolos declarou diante do Sinédrio: “Importa obedecer antes a Deus que aos homens.” A verdade não muda conforme as épocas, não se adapta às modas passageiras, não se curva às pressões do mundo.
Esta intransigência não é dureza de coração, mas firmeza de amor. É porque ama verdadeiramente os homens que a Igreja não pode mentir-lhe sobre seu destino eterno. Imaginemos, meus caros, um médico que, por não querer “ofender” ou “inquietar” seu paciente, deixasse de diagnosticar uma doença grave. Seria isso caridade ou crueldade?
Mas esta mesma Igreja que é inflexível com o erro mostra-se maternalmente misericordiosa com o pecador, e isso por ter como seu coração o próprio Coração do Salvador. Escutemos as palavras que o próprio Cristo dirigiu à Santa Margarida Maria: “Eis aqui este Coração que tanto amou os homens, que nada poupou, até esgotar-se e consumir-se para lhes testemunhar seu amor.”
Vejamos como esta misericórdia se manifesta: a Igreja estabelece hospitais para curar os corpos, mesmo dos que a perseguem; abre escolas para iluminar as inteligências, mesmo dos que a combatem; envia missionários aos confins da terra para salvar almas.
Eis o coração da questão, caríssimos fiéis: Cristo ama os homens não aprovando seus erros, mas oferecendo-se em sacrifício para redimi-los. O mundo moderno pretende amar aprovando tudo, relativizando tudo – e assim não ama ninguém, pois quem ama de verdade corrige, orienta, ensina.
Como lamentou a Jesus a Santa Margarida Maria: “Eis o Coração que tanto amou os homens… e em reconhecimento, não recebo da maior parte senão ingratidões.”
Contemplemos, meus caros, o contraste sublime: o mundo é relativista nos princípios mas intolerante com as pessoas; a Igreja é intransigente nos princípios mas caridosa com as pessoas. O mundo diz: “Não há verdade absoluta, mas sereis cancelados se discordardes de nós.” Cristo diz: “Eu sou a Verdade absoluta, mas venho buscar e salvar o que estava perdido.”
Este é o modelo que o Sagrado Coração nos propõe: firmes como rochas na defesa da verdade, ternos como mães no cuidado das almas. Cristo não disse à mulher adúltera: “Não há pecado, continua em teu adultério.” Disse: “Nem eu te condeno; vai e não peques mais.”
E por isso o mesmo Coração que ama misericordiosamente exige de nós a reparação: “É preciso que faças tudo o que estiver ao teu alcance para reparar tantas ingratidões, injúrias e sacrilégios.” Amor e justiça, misericórdia e verdade se uniram no Coração de Jesus, e devem unir-se também em nossos corações.
Que devemos fazer então, meus caros, diante deste diagnóstico? Como defender o reinado de Cristo em tempos de apostasia generalizada?
Primeiro, em nossa vida pessoal: não nos conformemos com este século, como exorta São Paulo. Vivamos como súditos fiéis de Cristo Rei, submetendo-nos inteiramente à sua lei santa. Isto significa buscar a santidade em todos os momentos: na oração fervorosa, na frequência aos sacramentos, no cumprimento exato dos deveres de estado.
Não tenhamos medo do mundo, mas tenhamos dele compaixão. Quando formos ridicularizados por nossa fé, lembremo-nos que Cristo foi crucificado por amor a nós. Sejamos católicos integralmente, completamente: nossa profissão deve ser exercida segundo os princípios católicos, por amor a Deus; nossos negócios devem pautar-se pela honestidade; nossa vida social deve ser testemunho de virtude.
Segundo, em nossas famílias: façamos de nossos lares pequenos reinos cristãos. A família cristã é a célula básica da sociedade católica. Eduquemos nossos filhos na verdade e no amor, preparando-os para serem santos mesmo no meio de uma geração perversa. Resistamos com santa energia às pressões mundanas que querem nos corromper e corromper a inocência das crianças. Quanta vezes aparece para nós o pensamento que algumas concessões ao mundo necessariamente terão de ser feitas. O bem deve ser íntegro, bem o sabemos. Vigiemos sobre tudo que chega aos olhos e ouvidos das crianças, com verdadeiro espírito de sacrifício. Se necessário, sacrifiquemos o conforto material para dar-lhes educação verdadeiramente católica, e caso haja educação católica, que haja coerência entre o que os filhos aprendem e os pais praticam.
Terceiro, na sociedade: sejamos testemunhas corajosas da fé católica. Não nos envergonhemos do Evangelho. Quando a ocasião se apresentar, defendamos com serenidade mas firmeza os princípios católicos.
Exercitemos as obras de misericórdia como resposta prática ao ódio do mundo. Onde eles semeiam divisão, mantenhamos a caridade; onde eles espalham desespero, levemos esperança. Oremos pelas autoridades e pela conversão das nações.
E lembremo-nos, caríssimos fiéis: não estamos sozinhos nesta luta. Temos conosco a Santíssima Virgem, os santos do Céu intercedendo por nós, e a promessa do próprio Cristo de que as portas do inferno não prevalecerão contra sua Igreja.
Caríssimos fiéis, o Sagrado Coração nos oferece sua promessa consoladora pelas palavras de Santa Margarida Maria: “Abençoarei as casas onde a imagem de meu Coração for exposta e venerada.” Esta não é promessa vaga, mas compromisso divino.
Consagremo-nos, pois, todos – pessoas, famílias, nossa pátria – a este Coração Divino. Façamos de nossas casas pequenos santuários onde reina o Sagrado Coração, mas sobretudo gravemo-lo em nossos corações pela vida santa.
A vitória final já está assegurada, meus caros. Cristo não está lutando para vencer – Ele já venceu. Estamos vivendo os gemidos e a revolta de um mundo agonizante que se debate contra sua própria condenação.
A história de nossa Santa Igreja é uma sucessão de crises aparentemente insuperáveis seguidas de ressurreições gloriosas. E agora, quando o neo-paganismo moderno parece triunfar, Deus suscitará novos santos, novas famílias santas, neo-sacerdotes segundo o seu coração.
Não desanimemos diante da magnitude da tarefa. Lembremo-nos que São Francisco de Assis restaurou a Igreja começando pela pequena capela de São Damião.
Como São Paulo ao final de sua carreira, possamos dizer: “Combati o bom combate, conservei a fé.” A vitória já está assegurada, pois o próprio Cristo nos prometeu: “Eu venci o mundo.”
Que Maria Santíssima, Rainha do Sagrado Coração, interceda por nós e nos obtenha a graça de sermos fiéis súditos de seu Divino Filho, mesmo no meio das tribulações destes tempos.
E que o glorioso São José, terror dos demônios e consolação dos aflitos, proteja nossas famílias e nossa pátria. Que como ele foi o guardião fiel da Sagrada Família, sejamos nós guardiões fiéis da família católica e da sociedade cristã.
Sagrado Coração de Jesus, em Vós confio! Sagrado Coração de Jesus, fazei que Vos ame cada vez mais! Sagrado Coração de Jesus, reinai sobre nós, sobre nossas famílias, sobre nossa pátria! Sagrado Coração de Jesus, sede nosso Rei para sempre!


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