Sermão para o IV Domingo da Quaresma
Domingo Lætare
Pe. Marcos Vinicius Mattke, IBP
Brasília-DF, 15 de março de 2026 A.D.
Capela Nossa Senhora das Dores
Caríssimos fiéis,
Entre as centenas de orações do Missal Romano, poucas condensam com tanta precisão o drama inteiro da alma cristã como a Coleta que acabamos de rezar. Bastam duas orações coordenadas, uma subordinada e uma principal, para descrever o caminho completo: aflição e consolação, mérito nosso e graça de Deus, asfixia e respiro. “Concedei, nós vos suplicamos, ó Deus onipotente, que nós, que somos afligidos pelo merecimento de nossas ações, respiremos pela consolação da vossa graça.”
Observemos a estrutura: há dois polos, affligimur e respiremus. Entre eles, uma causa e um remédio. A causa da aflição somos nós mesmos: ex merito nostrae actionis. O remédio é Deus: tuae gratiae consolatione. E nossa Santa Romana Igreja coloca esta oração precisamente neste Domingo, o domingo Laetare, quando os paramentos se tornam róseos, o órgão volta a soar e as flores reaparecem no altar, sinais visíveis de que a penitência quaresmal já começa a dar frutos de esperança.
Meditemos, pois, meus caros, sobre estes dois pólos. E meditemos também sobre um perigo gravíssimo que se esconde entre eles: o de transformar o reconhecimento salutar da aflição numa fixação doentia no mal, que nos afasta de Deus mais do que o próprio pecado confessado.
I. A verdade amarga da aflição merecida
A Coleta nos faz dizer ex merito nostrae actionis, “pelo merecimento de nossas ações.” Não diz “pelas circunstâncias.” Não diz “pela maldade alheia.” Não diz “pelo acaso.” Diz: nós merecemos o que sofremos. É uma confissão duríssima, meus caros, que contraria toda a mentalidade do nosso tempo. A cultura contemporânea construiu um edifício inteiro sobre a recusa desta confissão. Tudo é culpa da sociedade, da estrutura, da infância, do temperamento, e nunca nossa. Mas a fé nos ensina que, sem negar a realidade destas causas segundas, existe uma causa primeira interior: o pecado, que é ato livre da vontade. Santo Agostinho nos adverte: o primeiro passo da cura é aceitar o diagnóstico; quem nega a doença expulsa o médico. Noli te excusare, et invenis gratiam, não te desculpes, e encontrarás a graça.
Mas notemos bem: este ex merito não significa que Deus nos castiga por vingança. Significa que o pecado traz em si mesmo a sua pena, como o fogo traz a queimadura. A aflição do iracundo não é um raio que Deus lhe envia, é a própria ira que o devora por dentro. A aflição do impuro é a inquietação perpétua do coração dividido. A aflição do soberbo é a solidão de quem não tolera ser pequeno. São Gregório Magno observa que os vícios são a própria punição de quem os comete. E São Tomás ensina que a pena do pecado é, em primeiro lugar, a desordem interior que ele produz na alma: perda da paz, obscurecimento da inteligência, enfraquecimento da vontade.
É precisamente isto que a Quaresma nos ensina a reconhecer. O jejum, a abstinência, a privação voluntária não são a causa do nosso sofrimento, são a revelação da nossa fraqueza. Quem jejua sente no corpo o que o pecado já fazia invisivelmente na alma: fome, dependência, fragilidade. São Leão Magno dizia que o jejum quaresmal nos mostra quanto dependemos de consolações que não são Deus.
Até aqui, meus caros, o caminho é reto. Reconhecer a aflição merecida é o primeiro passo indispensável para a cura. Mas é precisamente aqui que se esconde um perigo terrível.
II. O pessimismo: quando a aflição se torna fixação no mal
Há uma diferença abismal, meus caros, entre reconhecer a aflição merecida e fixar-se nela. A primeira é penitência; a segunda é doença, e doença tanto da inteligência quanto da vontade.
A sã filosofia que herdamos de Aristóteles e de São Tomás nos ensina que tudo o que conhecemos passa pelos sentidos, é unificado pelo senso comum, impresso na imaginação e associado pela cogitativa ao que já possuímos na memória. É a cogitativa que imprime uma perspectiva, boa ou má, sobre o objeto conhecido, e é esta perspectiva que desencadeia as paixões. Ora, quando nos habituamos voluntariamente a buscar apenas o que há de errado, de mal, de negativo em todas as coisas, a cogitativa vai ficando acostumada a imprimir a pior perspectiva possível. Os fantasmas na imaginação são deturpados; a memória se enche de imagens negativas; e as paixões desencadeadas são predominantemente paixões destrutivas: ira, temor, ódio, tristeza, desespero. Perde-se a conexão com a realidade. A coisa é o que ela é, como ensina São Tomás, nem mais nem menos. Mas o pessimista já não julga as coisas pelo que elas são, julga-as pelo pior cenário que a sua imaginação é capaz de fabricar. E as possibilidades da imaginação para criar cenários catastróficos são, meus caros, praticamente ilimitadas.
E há aqui um paradoxo que São Tomás explica com precisão: quando agimos de acordo com a disposição natural de nossas faculdades, experimentamos contentamento, ainda que o objeto cause dor. A tristeza diante do mal é natural e conforme à nossa natureza. Por isso, há um certo contentamento em entristecer-se, o que a própria neurociência moderna confirma pela ativação do sistema de recompensa na alimentação da tristeza. O problema não é a tristeza em si; ficar triste diante de um mal real não é pecado, é sinal de saúde da alma. O problema é o apego desordenado a remoer os males, a permanecer na lamentação, a tirar uma espécie de regozijo sombrio do sofrimento – como a pessoa que já está triste e fica rememorando a causa da tristeza, sozinha, com música e lembranças que só pioram seu estado. Cria-se um verdadeiro vício de lamentação, e há quem confunda este vício com penitência.
Mas aprofundemos, meus caros, porque na raiz deste pessimismo há quase sempre um orgulho que não suporta a própria imperfeição. A pessoa cria um ideal de perfeição, de si mesma, do próximo, da família, da Igreja, da sociedade, e, quando a realidade não corresponde a este ideal, mergulha na frustração e na ira. No que toca a si mesma: não suporta ter pecado, não suporta ser fraca. Remói as próprias faltas, repete na confissão pecados já absolvidos, não para receber a graça, mas porque não consegue conviver com a culpa. No fundo, quer pagar em estrita justiça o que só a misericórdia divina pode reparar. É, sem perceber, um pelagianismo disfarçado: quer chegar à santidade pelo próprio esforço, quer o crédito da própria santificação. Se Deus já perdoou, quem somos nós para duvidar do Seu perdão? Usurpamos o papel de Deus.
No Céu, meus caros, há muitos pecadores redimidos. São Pedro negou três vezes. São Mateus era publicano. São Paulo perseguiu a Igreja até o sangue. Mas receberam a graça e seguiram em frente. Se São Paulo tivesse ficado remoendo o sangue dos mártires que perseguiu, não teria se tornado coluna da Igreja.
E é aqui que se revela a estratégia mais sutil do demônio. Ele não precisa inventar pecados, basta pegar os que cometemos e jogá-los na nossa cara como um espantalho. Parece verdade, porque de fato pecamos. Mas a mentira está na conclusão: “Logo, não há nada de bom em ti. Logo, és um lixo.” Ora, não ver nada de bom em si mesmo é contrário à caridade, contrário à humildade e contrário à justiça, porque é negar a ação de Deus em nós. São Tomás ensina que Deus nos inclina naturalmente a reconhecermos o bem que há em nós, porque tudo o que Deus criou é bom, e só por existirmos já há uma bondade ontológica em nós. Julgar-se um lixo não é humildade: é mentira. E a humildade reside na verdade.
A grande jogada de mestre do demônio é fazer-nos pensar em tudo, nos males da sociedade, nos males da política, nos males do próximo, nos nossos próprios males, nos males da Igreja, menos em Deus. Tudo, menos Deus. É uma angústia que se assemelha à do inferno: as almas condenadas só enxergam o que não possuem e nunca poderão possuir.
III. A consolação que só a graça pode dar
Mas a Coleta, meus caros, não nos deixa nesta asfixia. Ela continua, tuae gratiae consolatione respiremus, e a continuação é tudo.
Notemos a palavra escolhida pela liturgia: respirare, respirar. Não diz alegrar-se, não diz ser libertado, não diz ser curado. Diz respirar. A imagem é de alguém que sufocava e enfim recebe ar. Quem sufoca não precisa de um palácio, precisa de ar. Assim a alma asfixiada pelo pecado e pelo pessimismo: não precisa de consolações mundanas, precisa da graça, que é o ar sobrenatural da alma. Santo Ambrósio compara a graça ao sopro de Deus sobre Adão: Inspiravit in faciem eius spiraculum vitae. O pecado é asfixia; a graça é novo sopro.
E a graça não suprime a aflição, transfigura-a. O respiremus da Coleta não pede a remoção do sofrimento, mas a capacidade de respirar dentro dele. É a diferença entre a cruz carregada com Cristo e a cruz arrastada contra Ele, por orgulho de querer carregá-la sozinho. São Tomás ensina que a consolação do Espírito Santo não elimina a tristeza da penitência, mas infunde, por sobre ela, um gaudium de spe, uma alegria de esperança que permite suportar o peso presente em vista do bem futuro.
O antídoto ao pessimismo, portanto, não é o otimismo ingênuo que ignora o mal. É o retorno à realidade. Considerar o mal na medida em que é necessário, conforme o nosso estado de vida, em sua devida proporção, nem aumentá-lo, nem diminuí-lo. E, sobretudo, focar não no pecado, mas na virtude; não no castigo, mas na graça; não em nós mesmos, mas em Deus. Não se avança na santidade olhando apenas para o mal. Não se vence um vício sem praticar a virtude oposta. Não se cura o pecado sem buscar a graça. Remoer o pecado é, como diz a Escritura, voltar para lamber o próprio vômito. O nosso foco não deve estar nos pecados passados, mas nos bens futuros, pela graça.
IV. A passagem ilustrada pela Epístola e pelo Evangelho
A Epístola de hoje nos confirma tudo isto. São Paulo nos apresenta Agar e Sara, a escrava e a livre, os dois filhos e as duas alianças. Agar é a Lei, a Jerusalém terrena, a escravidão. Sara é a promessa, a Jerusalém celeste, a liberdade. São João Crisóstomo comenta que a passagem de Agar a Sara não é mudança de lugar, mas de condição interior: o escravo e o filho habitam a mesma casa, mas um sufoca e o outro respira.
Meus caros, o pessimista espiritual vive como filho de Agar: cumpre a penitência por temor, remói os próprios pecados por orgulho, tenta santificar-se pelo próprio esforço. É a Quaresma vivida na escravidão. O filho de Sara reconhece a mesma miséria, mas confia na promessa do Pai; faz penitência por amor, não por desespero. É a Quaresma vivida na liberdade.
E o Evangelho completa o quadro com a multiplicação dos pães. A multidão está aflita, cansada, faminta, sem recursos. São Filipe calcula e conclui: impossível. Santo André apresenta cinco pães e dois peixes: Sed haec quid sunt inter tantos?, Mas que é isso para tantos? É a confissão de toda insuficiência humana, confissão que ecoa a Coleta: não temos com que nos alimentar por nós mesmos. É exatamente o que acontece com quem tenta curar-se pelo próprio esforço: olha para os seus recurso, a força de vontade, a autoflagelação, o propósito de emenda feito com os dentes cerrados, na marra, e constata: que são estes meios diante de tantos pecados? Nada. Mas Cristo não precisa dos nossos recursos, ele pede apenas que lhos ofereçamos para transformá-los. São Gregório Magno comenta: Deus pede pouco para dar muito; quer a nossa miséria oferecida, não a nossa suficiência ostentada.
Santo Agostinho vê nos cinco pães de cevada os cinco livros da Lei, duros como a casca que envolve o grão. Cristo parte a casca e revela o alimento interior. A letra aflige, affligimur; o espírito faz respirar, respiremus. E esta multiplicação é figura do Sacramento do Altar, onde Cristo opera diariamente esta mesma passagem. O sacramento da Penitência tira o peso; a Eucaristia dá o alimento. Juntos, realizam o que a Coleta pede. Quem confessou e comungou já recebeu o respiremus, remoer a culpa depois disso é recusar o pão que Cristo oferece.
V. Conclusão: respirar
Meus caros, estamos na metade da Quaresma. A Igreja nos diz Laetare, alegrai-vos. Não porque o sofrimento acabou, mas porque Deus está agindo. A alegria cristã não nasce da ausência do mal, mas da presença do Bem, e o Bem supremo não nos abandonou. Se até agora a penitência nos pareceu apenas peso; se nos flagelamos interiormente remoendo pecados que Deus já perdoou; se olhamos para a santa Igreja, para a família, para a sociedade e só enxergamos males; se pensamos em tudo menos em Deus, então o Laetare é o remédio providencial. Larguemos o espantalho. Olhemos para Cristo. Ofereçamos os nossos cinco pães miseráveis e deixemos que Ele os multiplique. Nós não somos os nossos pecados, meus caros. Somos criaturas de Deus, destinadas ao Céu, alimentadas pela graça. Busquemos a virtude, não a lamentação; a graça, não a autoculpabilização; Deus, não nós mesmos.
Que estas duas semanas restantes sejam vividas não como escravos que arrastam correntes, mas como filhos que correm ao encontro do Pai. E que a Santíssima Virgem, nossa boa mãe das dores, que ao pé da Cruz conheceu a aflição mais profunda e, em vez de mergulhar no desespero, permaneceu de pé, confiando na promessa, nos obtenha esta graça de respirar, enquanto caminhamos para a Páscoa.


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