[Sermão] O grande mal da murmuração e seus remédios

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Sermão para o Domingo da Septuagésima
Pe. Marcos Vinicius Mattke, IBP

Brasília-DF, 1º de fevereiro de 2026 A.D.
Capela Nossa Senhora das Dores

“Murmuraverunt adversus patremfamilias” (Mt. XX, 11)

Murmuraram contra o pai de família.

Caríssimos fiéis,

Nossa Santa Romana Igreja, com a sabedoria de mãe, começa hoje a nos preparar para a grande penitência quaresmal. Suprimiu o Alleluia, revestiu-se de roxo, e pôs nos nossos lábios uma oração de espantosa sinceridade: “Preces populi tui, quæsumus, Domine, clementer exaudi: ut, qui juste pro peccatis nostris affligimur, pro tui nominis gloria misericorditer liberemur.” Ouvi com clemência, Senhor, nós Vos suplicamos, as preces do Vosso povo: para que nós, que somos justamente afligidos por nossos pecados, sejamos misericordiosamente libertados para a glória do Vosso nome. Ouçamos bem o que acabamos de pedir: confessamos que somos justamente afligidos pelos nossos pecados, e suplicamos que sejamos misericordiosamente libertados, não para a nossa satisfação, mas para a glória do nome de Deus. Eis a atitude de uma alma reta diante da Providência: reconhece a justiça do castigo e implora a misericórdia do perdão.

Ora, meus caros, o Evangelho de hoje nos apresenta precisamente o contrário desta atitude. Apresenta-nos homens que receberam exatamente o que lhes fora prometido e que, todavia, murmuraram. E é justamente sobre este pecado, o murmúrio contra a Providência divina, que meditaremos nesta pregação, considerando a sua natureza, a sua raiz e o seu remédio.

I. A natureza do murmúrio

Recordemos a parábola. O pai de família sai de madrugada para contratar operários para a sua vinha e combina com eles o salário de um denário. Sai novamente à hora terceira, à sexta, à nona e, por fim, à undécima hora. Chegada a tarde, manda pagar a todos, começando pelos últimos, e dá a cada um o mesmo denário. Os primeiros, ao verem isso, esperavam receber mais; e, como receberam o mesmo, murmuraram: “Hi novissimi una hora fecerunt, et pares illos nobis fecisti, qui portavimus pondus diei et æstus.” Estes últimos trabalharam uma só hora, e os fizeste iguais a nós, que suportámos o peso do dia e o calor. Notemos bem: estes homens não foram defraudados. Receberam tudo o que lhes fora prometido. A sua queixa não é contra uma injustiça, mas contra uma generosidade, a generosidade do senhor para com os outros.

Aqui se revela a natureza própria do murmúrio: ele não nasce de uma privação real, mas de uma comparação. Não é a falta do próprio bem que aflige o murmurador; é a presença do bem alheio.

A Epístola confirma-o com um exemplo terrível. São Paulo recorda que os israelitas no deserto receberam tudo: a nuvem protetora, a travessia do mar, o maná, a água da rocha  e, contudo, “non in pluribus eorum beneplacitum est Deo”, Deus não Se agradou da maior parte deles. A Escritura, noutros lugares, emprega para eles o mesmo verbo que o Evangelho usa para os operários: murmuraverunt. Murmuraram contra Moisés, murmuraram contra Aarão, e, no fundo, murmuraram contra Deus. Quer no deserto, quer na vinha, o murmúrio é sempre o mesmo gesto: uma recusa de aceitar a disposição de Deus sobre nós, uma acusação velada contra a Providência.

Mas não pensemos, meus caros, que a murmuração se reduz a uma queixa formal e solene dirigida a Deus. Se assim fosse, seria fácil identificá-la e raro encontrá-la. O murmúrio, na vida concreta, toma formas muito mais ordinárias e, por isso mesmo, muito mais perigosas. É o descontentamento cultivado e alimentado diante das circunstâncias que a Providência dispôs. É a reclamação impulsiva que nos escapa a cada contrariedade, como um reflexo que já nem percebemos. São as interjeições amargas, as carrancas habituais, o espírito de queixa que tinge toda a nossa conversação. Nenhuma destas coisas se apresenta como revolta contra Deus, apresentam-se como reações naturais, desabafos legítimos, desagrados inocentes. Mas no fundo, todas elas procedem de um mesmo juízo tácito: as coisas não deveriam ser assim. E se não deveriam ser assim, é porque nós sabemos melhor do que Deus como ordená-las. Pela murmuração habitual, acabamos, sem o confessar, por nos erigir em juízes da Providência, persuadidos de que organizaríamos o universo melhor do que Aquele que o criou, e de que a nossa satisfação pessoal é critério mais seguro do que a glória de Deus.

II. A raiz do murmúrio

Se tal é a natureza do murmúrio, qual é a sua raiz? O Evangelho no-la mostra sem disfarce. Os operários da primeira hora dizem: “Portavimus pondus diei et æstus”, suportamos o peso do dia e o calor. A afirmação é verdadeira nos fatos. Mas é viciada na intenção: servem-se do próprio mérito como medida para julgar a generosidade do Senhor. Transformam a fidelidade em crédito, a obediência em título de propriedade, o serviço em dívida que Deus lhes deve saldar segundo a conta deles. Eis a raiz: o orgulho espiritual.

Santo Agostinho adverte que existe um orgulho que se veste com os trajes da humildade e uma soberba que se alimenta das próprias virtudes. E Santo Tomás define a soberba como o apetite desordenado da própria excelência. No murmúrio espiritual, esta desordem assume uma forma particularmente sutil: não desejamos abertamente a nossa excelência, mas nos ressentimos da excelência que Deus concede a outrem. É a soberba em veste de zelo.

Aqui, meus caros, permitam-me uma aplicação delicada, mas necessária. Os que professam a fé católica integral, os que frequentam os sacramentos no rito tradicional, os que suportam anos de marginalização e perseguição, tratados como rígidos, cismáticos,  radicais, correm um risco análogo ao dos operários da primeira hora: o de converter a fidelidade em pretensão, a ortodoxia em posse, a tradição em privilégio. Não que a fidelidade seja pouca coisa, afinal é uma graça insigne de Deus. Mas a graça, precisamente por ser graça, não nos autoriza a murmurar contra a generosidade de Deus para com os outros.

E agora precisamos com toda a severidade que este pecado exige. No fundo disso tudo, a murmuração contra a ordem estabelecida por Deus não é senão um eco, longínquo mas real, da revolta de Lúcifer. Pois que fez o anjo rebelde senão preferir o seu próprio bem natural, a sua inteligência, a sua excelência, a sua vontade, ao bem sobrenatural que Deus lhe oferecia e à ordem que Deus livremente dispôs? Non serviam: não me submeto a uma disposição que não procede de mim. Ora, quando nós murmuramos contra a generosidade de Deus, contra as cruzes que ele nos manda, contra as circunstâncias que a Sua sabedoria permite, fazemos, à nossa escala miserável, o mesmo gesto: preferimos a nossa satisfação natural à ordem sobrenatural querida por Deus; antepomos o nosso juízo finito à Sabedoria infinita; desprezamos o bem maior que não vemos em favor do bem menor que julgamos merecer. Não há murmuração inocente. Todo murmúrio, por pequeno que pareça, contém em germe a mesma desordem que precipitou os anjos rebeldes no abismo: a recusa de que Deus seja Deus e de que nós sejamos criaturas.

III. O remédio do murmúrio

Se a doença é séria, o remédio deve ser proporcionado. E a liturgia de hoje no-lo oferece com admirável clareza.

O primeiro remédio é a verdade sobre nós mesmos, tal como a Coleta no-la ensina. O murmúrio só é possível quando nos esquecemos de que somos devedores insolventes. A Coleta nos restitui à realidade: juste pro peccatis nostris affligimur. Quem reconhece que até as aflições que padece são merecidas não terá ânimo para reclamar da generosidade concedida aos outros. São Bernardo ensina que o primeiro grau da humildade é o conhecimento de si mesmo. Conhecer-se: eis o primeiro golpe contra o murmúrio.

O segundo remédio é a disciplina do combate espiritual, tal como a Epístola no-la propõe. São Paulo não perde tempo com comparações: “Sic currite ut comprehendatis.” Correi de tal modo que alcanceis. O atleta não olha para a raia do vizinho; olha para a meta. “Castigo corpus meum et in servitutem redigo”, subjugo o meu corpo e reduzo-o à servidão. A ascese pessoal, o jejum, a mortificação, o governo dos sentidos, é o antídoto contra a curiosidade espiritual que nos leva a medir o progresso alheio em vez de cuidar do nosso.

O terceiro remédio é a contemplação da bondade de Deus, tal como o Evangelho no-la revela. A resposta do pai de família é definitiva: “An non licet mihi quod volo facere? An oculus tuus nequam est, quia ego bonus sum?” Acaso não me é lícito fazer o que quero? Ou o teu olho é mau porque eu sou bom?. Questionemo-nos: caso nosso olho é mau porque Deus é bom? O remédio último contra o murmúrio é a admiração pela bondade divina. Deus não é um contador; é Pai. A Sua bondade para com os outros não diminui o que nos é devido; apenas revela que Ele é maior do que todas as nossas medidas. São João Crisóstomo nota com fineza que o Senhor não repreende com dureza, mas chama o murmurador de amice, amigo, porque mesmo a correcção divina é feita com misericórdia.

Mas importa prevenir um mal-entendido grave, meus caros. A confiança na Providência não é passividade, nem resignação inerte, nem pretexto para a negligência. Muito pelo contrário: pressupõe o trabalho e o esforço. Na parábola, todos os operários trabalham: os da primeira hora e os da última. Ninguém recebe o denário por estar ocioso. Na Epístola, São Paulo não diz: sentai-vos e esperai a coroa. Diz: currite, correi. A Providência de Deus opera ordinariamente através das causas segundas, isto é, através do nosso esforço, da nossa inteligência e da nossa diligência. O que a confiança na Providência exclui não é o esforço, mas o murmúrio no esforço; não é a luta, mas a amargura na luta; não é a busca de soluções, mas a pretensão de que as soluções devem ser as nossas e não as de Deus.

Meus caros, estamos às portas da Quaresma. Nossa santa Madre Igreja nos convida a entrar neste tempo santo não como os operários murmuradores, contando as horas, medindo os méritos, comparando os sacrifícios, mas como o Apóstolo: com os olhos na meta, o corpo disciplinado, e o coração livre de queixa. Trabalhemos sem murmúrio. Trabalhemos com alegria. Trabalhemos porque a confiança em Deus não dispensa a fadiga, mas a santifica.

E quando a tentação do murmúrio nos assaltar, quando nos parecer que Deus é generoso demais com os outros ou severo demais conosco, lembremo-nos da resposta do Senhor: “Amice, non facio tibi injuriam.” Amigo, não te faço injustiça. E depois, com uma ternura que deveria confundir toda a nossa soberba: “Ego bonus sum.”

Caríssimos, que a Santíssima Virgem Maria, que nunca murmurou, nem ao pé da Cruz, nos alcance a graça da humildade e da confiança na Providência divina.

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