[Sermão] O Filho que nos faz filhos

Aert de Gelder Het loflied van Simeon


Sermão para o Domingo dentro da Oitava de Natal
Pe. Marcos Vinicius Mattke, IBP

Brasília-DF, 28 de dezembro de 2025 A.D.
Capela Nossa Senhora das Dores

Caríssimos fiéis,

O ancião Simeão tomou nos braços o Menino Jesus e, movido pelo Espírito Santo, pronunciou palavras que nossa Santa Romana Igreja repete cada dia no canto de Completas: Nunc dimittis servum tuum, Domine, agora despedes o teu servo em paz, Senhor, porque meus olhos viram a tua salvação. Que cena admirável nos apresenta o Evangelho de hoje! Um velho que esperou a vida inteira segura enfim nos braços a Esperança de Israel. A promessa feita a Abraão, renovada a Davi, cantada pelos profetas, cumpre-se naquele momento discreto do Templo de Jerusalém.

Mas Simeão não se limita a cantar. Ele profetiza. Este ancião que vivera de esperança, que consumira seus dias aguardando o Consolador de Israel, agora fala não do passado, mas do futuro. E sua profecia contém luz e sombra, consolo e advertência. Diz do Menino que será lumen ad revelationem gentium, luz para iluminação das nações. E logo em seguida, no mesmo fôlego, anuncia: Ecce positus est hic in ruinam et in resurrectionem multorum in Israel, et in signum cui contradicetur, eis que este Menino está posto para ruína e ressurreição de muitos em Israel, e como sinal de contradição.

Meus caros, eis o paradoxo do Natal que hoje a sagrada liturgia nos faz contemplar. O mesmo Menino é luz e sinal. Luz que ilumina, sinal que divide. Consolo dos justos, escândalo dos soberbos. Não há neutralidade possível diante do presépio. Ou adoramos com os pastores, ou nos retiramos indiferentes como tantos habitantes de Belém que, naquela noite santa, rejeitaram a sagrada Família e dormiam enquanto o céu se abria para a vinda do Salvador.

I. Da servidão à filiação

Para compreendermos por que Cristo é sinal de contradição, devemos primeiro entender o que Ele veio realizar. E aqui nos socorre o Apóstolo em sua Epístola aos Gálatas.

São Paulo emprega uma comparação jurídica que seus fiéis compreendiam bem. O herdeiro, enquanto menor de idade, não difere em nada do escravo, ainda que seja senhor de tudo. Está submetido a tutores e curadores até o tempo determinado pelo pai. Assim também nós, diz o Apóstolo, quando éramos menores, estávamos escravizados sob os elementos e poderes do mundo.

Éramos escravos, meus caros. Esta era nossa condição. Eis a palavra que o mundo moderno não quer ouvir, mas que descreve com precisão o estado da humanidade antes de Cristo. Não escravos de um senhor terreno, mas escravos do pecado, escravos da Lei que nos mostrava o bem sem dar-nos a força para praticá-lo, escravos do temor da morte que pairava sobre toda a existência humana. Tínhamos a promessa da herança, mas não podíamos desfrutar dela. Éramos como aquele filho pródigo que, tendo direito aos bens do pai, vivia entre os porcos e desejava fartar-se das bolotas que eles comiam.

At ubi venit plenitudo temporis, mas eis que veio a plenitude dos tempos. Prestemos atenção nesta expressão magnífica. Não foi por acaso que Cristo nasceu sob César Augusto. Não foi coincidência que viesse quando o mundo romano impusera a paz, quando uma língua comum permitia a pregação do Evangelho, quando a filosofia grega esgotara suas forças e as almas sedentas buscavam uma verdade que os sábios não podiam dar. Era a plenitude dos tempos. O mundo estava maduro para o Redentor, ainda que não o soubesse.

E que fez Deus nessa plenitude? Misit Filium suum, factum ex muliere, factum sub lege, enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a Lei. O Eterno se fez temporal. O Infinito se recolheu no seio de uma Virgem. O Legislador se submeteu à Lei. E tudo isso, eis a finalidade, meus caros, ut eos qui sub lege erant redimeret, ut adoptionem filiorum reciperemus, para resgatar os que estavam sob a Lei, para que recebêssemos a adoção de filhos.

Nossa adoção como filhos, meus caros: eis o fruto do Natal. Não celebramos apenas que Deus Se fez homem; celebramos que, por isso mesmo, nós nos tornamos filhos de Deus. O Filho Unigênito fez-se primogênito entre muitos irmãos. Desceu até nossa miséria para elevar-nos à sua glória. A manjedoura é para nós a porta do palácio real.

Itaque iam non est servus, sed filius, portanto, já não és escravo, mas filho. E se filho, também herdeiro. A herança que Adão perdera, Cristo no-la restituiu. Não somos mais servos que tremem, mas filhos que amam. A Lei não mais está gravada em pedras, mas o Espírito é derramado nos corações, que clama: Abba, Pater, abba, Pai!

II. O sinal que divide

Contudo, meus caros, se a mensagem é tão luminosa, por que Simeão fala de contradição? Por que anuncia ruína juntamente com a ressurreição? Por que, no momento mesmo em que canta a luz das nações, profetiza a espada e a divisão?

Porque a filiação divina exige renúncia. Para tornar-nos filhos de Deus, devemos deixar de ser escravos do mundo. E o mundo não perdoa a deserção. Quem aceita a luz, condena ao mesmo tempo e implicitamente as trevas. Quem abraça a verdade, reprova a mentira. Quem segue a Cristo, afasta-se de tudo aquilo que Cristo rejeitou.

Eis por que o Divino Menino é sinal de contradição. Não porque Ele traz a divisão como fim, mas porque a sua presença revela o que está oculto no coração dos homens: ut revelentur ex multis cordibus cogitationes. Diante de Cristo, caríssimos, as máscaras caem. O orgulhoso não suporta um Deus que nasce numa gruta. O avarento não compreende um Deus que Se faz pobre. O mundano não tolera um Deus que prega a cruz.

E a espada? Et tuam ipsius animam pertransibit gladius, uma espada transpassará a tua alma. Simeão dirige-se à Santíssima Virgem Maria, mas suas palavras alcançam toda alma fiel. Quem escolhe a filiação divina escolhe também a compaixão, isto é, o padecer junto com Cristo, tomar sua cruz. A Mãe Dolorosa ao pé da cruz é o modelo de todo cristão que leva a sério sua adoção, tanto mais para nós que estamos sob seu patrocínio. Um católico que foge da cruz não pode ser levado a sério, não passa de um fanfarrão. Não há coroa sem cruz, não há Páscoa sem Sexta-feira Santa, não há plenitude sem esvaziamento.

III. Dirigir nossos atos como filhos

Resta-nos, meus caros, a questão prática: como viver essa filiação?

Nossa santa Madre Igreja coloca em nossos lábios a resposta. Na Coleta, pedimos: Omnipotens sempiterne Deus, dirige actus nostros in beneplacito tuo, Deus onipotente e eterno, dirigi nossos atos segundo o Vosso beneplácito.

Dirigi os nossos atos. A oração reconhece que não bastam as boas intenções. Não basta saber que somos filhos; é preciso agir como filhos. E como o filho não age por capricho próprio, mas segundo a vontade do pai, assim devemos nós subordinar nossos atos ao beneplácito divino.

Notemos ainda qual é a finalidade: ut in nomine dilecti Filii tui mereamur bonis operibus abundare, para que no nome do Vosso dileto Filho mereçamos abundar em boas obras. O escravo trabalha por temor do castigo; o filho trabalha por amor ao pai. O escravo faz o mínimo necessário para evitar a punição (a tentação do mínimo necessário para evitar o pecado grave, que nada mais é que o suficiente para abraçá-lo); já o filho, meus caros, o filho deseja abundar, transbordar, exceder-se no serviço. As boas obras não são o preço da filiação, afinal ela é gratuita, mas são o fruto natural de quem vive como filho.

Conclusão

Meus caros, o Menino que Simeão segurou nos braços é o mesmo que descerá sobre este altar dentro de poucos instantes. Aquele que foi apresentado no Templo de Jerusalém apresentar-se-á novamente ao Pai Eterno neste santo sacrifício da Missa. O mesmo Cristo, a mesma oferenda, o mesmo amor.

Simeão pôde dizer: Nunc dimittis, agora me despedes em paz, porque viram meus olhos a salvação. Nós também vimos. E mais que isso: recebemos a adoção, tornamo-nos filhos e herdeiros por pura graça, sem mérito nosso, por iniciativa do amor divino. Cabe-nos agora viver conforme essa dignidade.

Haverá contradição? Certamente. Se não sentimos a contradição dos inimigos da Cruz, algo há de muito errado. Afinal, o mundo não mudou desde os tempos de Simeão. Mas não temamos. A luz é mais forte que as trevas, e a filiação divina é mais preciosa que qualquer aprovação terrena, mais valiosa que todas as honras do mundo. Que a Virgem das Dores, cuja alma a espada transpassou, nos alcance a graça de permanecermos fiéis como filhos até o dia em que, como Simeão, contemplaremos sem véus Aquele que hoje adoramos no presépio.

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