[Sermão] O demônio que volta e a obscenidade que corrompe

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Sermão para o III Domingo da Quaresma
Pe. Marcos Vinicius Mattke, IBP

Brasília-DF, 08 de março de 2026 A.D.
Capela Nossa Senhora das Dores

“Fiunt novissima hominis illius pejora prioribus.”
“E o estado último daquele homem torna-se pior que o primeiro.”
(Lc. XI, 26)

Caríssimos fiéis,

O Evangelho de hoje nos apresenta uma das imagens mais terríveis de toda a Sagrada Escritura. Nosso Senhor conta-nos que, quando o espírito imundo sai de um homem, vagueia por lugares áridos sem encontrar repouso, e então diz a si mesmo: “Voltarei à minha casa, de onde saí.” E ao voltar, encontra-a varrida e ornada. Vai, então, e traz consigo outros sete espíritos piores do que ele, e entrando, ali habitam: e o estado último daquele homem torna-se pior que o primeiro.

Notemos bem, meus caros: o texto sagrado não diz que o homem pecou de novo. Não diz que ele se entregou a vícios escandalosos. Diz apenas que a casa estava varrida e ornada, limpa, em ordem, apresentável. Externamente, tudo parecia bem. E é precisamente isso que aterroriza. A casa estava limpa, sim, mas estava vazia. E uma casa vazia é um convite ao demônio.

Perguntemo-nos com toda a franqueza: quantos de nós fizemos exatamente isso? Varremos a casa na Quaresma passada, confessamo-nos, talvez até mesmo nos emendamos por algum tempo, e depois deixamos a alma vazia? Sem oração constante, sem mortificação, sem frequência devota aos sacramentos, sem vida interior? Se assim foi, meus caros, estamos em perigo. E é por isso que a Coleta de hoje nos faz pedir com urgência que Deus “estenda a destra da Sua majestade” em nossa defesa. Quem pede defesa é porque está ameaçado.

São Gregório Magno, nas suas Homilias sobre os Evangelhos, explica esta passagem com clareza: “varrer a casa” é purificar a consciência pelo arrependimento; mas “deixá-la vazia” é não cultivar as virtudes. A graça sacramental da confissão é um dom imenso, mas exige cooperação. Exige que plantemos onde arrancamos, que construamos onde demolimos, que enchamos de luz o que estava nas trevas. O penitente que se confessa e não muda de vida fez apenas a metade da obra, e a metade pior.

Cornélio a Lápide, comentando esta passagem, observa que o número sete, os sete demônios piores, indica plenitude. A recaída não é parcial: é total e agravada. O pecador reincidente peca com mais malícia, com menos desculpa e com maior endurecimento da consciência. Já não tem a ignorância do primeiro pecado; tem agora a experiência do perdão desprezado. Por isso diz São Pedro na sua segunda Epístola: “O estado último tornou-se pior que o primeiro”, porque é mais culpável quem conheceu o caminho da justiça e dele se afastou do que quem jamais o conheceu.

Eis, portanto, meus caros, o grande perigo desta metade de Quaresma. Talvez no início deste tempo santo tenhamos feito bons propósitos. Talvez tenhamos nos confessado, iniciado alguma penitência, assistido à Missa com mais fervor. Mas a Quaresma já vai longa. O fervor arrefece, a rotina se instala, e a tentação aparece: “Não acha que já está bom, será que já não fez o suficiente.” E assim, quase sem percebermos, a casa começa a esvaziar-se, e o demônio, que não dorme, prepara o seu retorno.

Aqui, caríssimos fiéis, devemos ter muita honestidade, vigilância e severidade: porque se trata de um mal que está entre nós, não fora de nós. Um dos sinais mais claros da casa varrida mas vazia é o católico que se diz convertido, que até frequenta a Santa Missa no rito tradicional, que considera que defende a sã doutrina com ardor, mas que normalizou a impureza de linguagem e de consumo.

Ouçamos o que nos diz São Paulo na Epístola de hoje, aos Efésios: “A fornicação e toda a imundície, ou a avareza, nem sequer se nomeiem entre vós, como convém a santos; nem torpeza, nem palavras tolas, nem chocarrices, que não convêm.” Notemos a força daquela expressão: nec nominetur, “nem sequer se nomeie.” O Apóstolo não diz “evitai quando possível.” Não diz “com moderação.” Não diz “só quando for necessário”. Diz que entre santos, e santos é o que devemos ser, estas coisas não devem sequer ser mencionadas.

E que coisas são estas? A turpitudo, a obscenidade. A stultiloquium, a conversa torpe, a piada suja. A scurrilitas, a bufonaria, o humor que degrada. São Tomás de Aquino, na Suma Teológica, distingue cuidadosamente a eutrapelia, o humor virtuoso, que alegra sem ofender a Deus, da scurrilitas, que faz rir pelo que deveria fazer chorar, o pecado. E o católico que se diverte com a representação do pecado já corrompeu o coração, ainda que as mãos estejam limpas. São Gregório Magno o afirma: a deleitação voluntária na representação do mal já é pecado interior. Não basta dizer: “Mas, Padre, é só ficção.” A imaginação não tem compartimento selado. O que entra pelos olhos alimenta a fantasia, e a fantasia alimenta a concupiscência. São Jerônimo, mesmo no deserto, era atormentado pelas imagens de Roma, e acaso nós vamos voluntariamente buscar imagens piores que as de Roma? Vamos, ainda pior, apresenta-las aos outros?

E o mesmo vale para as conversas. O ambiente de conversa entre católicos que se dizem tradicionais mas falam como pagãos: piadas de duplo sentido, comentários lascivos, narrativas de pecados alheios com deleite, tudo isso é a stultiloquium que São Paulo condena e que São João Crisóstomo, nas suas Homilias aos Efésios, identifica como aquela conversa que faz rir pelo que deveria fazer chorar.

Mas devo deter-me especialmente, meus caros, nos palavrões e na linguagem torpe, porque aqui o mal é mais profundo do que muitos pensam. O palavrão não é “apenas uma palavra”. A boca que recebe o Corpo sacratíssimo de Cristo na Sagrada Comunhão e depois profere obscenidades comete uma profanação prática. Diz o Apóstolo São Tiago: “Da mesma boca procede a bênção e a maldição. Não convém, irmãos meus, que assim se faça.”

Sei o que muitos pensam, e talvez alguns aqui pensem neste momento: “Padre, são só palavras. Há pecados mais graves. É brincadeira, sem malícia nenhuma.” Caríssimos, esse argumento não é novo. Já na época de Santo Afonso Maria de Ligório, Doutor da Igreja e farol da teologia moral católica, os penitentes usavam exatamente essa desculpa. O Santo trata dessa linguagem ruim no seu sermão para o XI Domingo depois de Pentecostes, sobre as conversas e palavras licenciosas, e diz que, quando o confessor os repreende, eles respondem que falam essas coisas somente por brincadeira e sem a menor malícia.

Ouçamos a resposta do Santo Doutor, e gravemo-la na memória: “Tenha em mente, pobre insensato que você é, que essas brincadeiras indecentes fazem rir hoje os demônios e que eles farão que você chore um dia no inferno.” Rir agora, chorar depois. Rir com os demônios agora, chorar com eles para sempre. É a lógica de toda diversão pecaminosa: um instante de riso por uma eternidade de pranto.

E continua Santo Afonso: não se diga que se agiu sem malícia, pois é quase impossível que não sejamos nos nossos atos o que somos nas nossas palavras. E confirma-o uma cadeia de Santos Padres e Doutores. São Jerônimo diz que não está longe dos atos aquele que se deleita nessas palavras, a palavra torpe é a antecâmara do ato torpe. São Sidônio Apolinário, Bispo de Auvergne no século V, afirma que é impossível, notemos bem, impossível, não improvável, encontrar um homem imoral na linguagem e puro nos costumes. E São Bernardo ensina que terminamos por praticar aquilo que gostamos de ouvir: e podemos muito bem acrescentar: aquilo que gostamos de falar.

Há ainda, meus caros, outra desculpa mais astuta e mais desonesta: a de que certas coisas merecem ser chamadas tal qual são, que certas podridões do mundo exigem uma linguagem podre para serem denunciadas, e que falar com palavras limpas seria suavizar a gravidade do mal. É uma falácia miserável. Se algo é podre, não vou colocar essa podridão para dentro da minha alma reproduzindo a sua imundície por obscenidades, nem obrigar os demais a imaginarem essa podridão. Podemos ser duros, podemos ser firmes, podemos até nos irar com santa ira, como o fez o próprio Cristo ao expulsar os vendilhões do Templo e ao lançar invectivas aos fariseus, sem jamais nos rebaixarmos à podridão do mundo, do pecado e do demônio, corrompendo a nossa mente e a mente dos que nos ouvem pelo linguajar baixo. Os Santos foram duríssimos: Nosso Senhor chamou os fariseus de “sepulcros caiados”; São João Batista chamou os fariseus de “raça de víboras”; São Paulo chamou de “cães” os falsos apóstolos; São Jerônimo fustigou os hereges com uma veemência que faz tremer. Nenhum deles precisou recorrer a uma só obscenidade para ser terrível. A firmeza de caráter não se mede pela sujeira da boca, mas pela retidão da alma. No fim, essa desculpa não passa do subterfúgio dos fracos: daqueles que querem continuar vivendo na imundície da mundanidade, mas querem disfarçar essa fraqueza com uma fantasia de virilidade e de firmeza que não possuem. Não nos enganemos: não é força, é frouxidão e escravidão. Nada manifesta mais um homem inseguro, pusilânime, fraco, frágil e emasculado que o linguajar podre e a obsessão em tentar justificá-lo.

Mas é o próprio Senhor quem sela este argumento de modo definitivo: “Ex abundantia cordis os loquitur”, “A boca fala daquilo de que o coração está cheio.” Eis aqui, meus caros, o princípio evangélico que destrói todas as desculpas. O que falamos expressa o nosso íntimo ou forma o nosso íntimo. A relação entre a boca e o coração não é de mão única. Quem fala impurezas, obscenidades e palavrões, ou já tem o coração cheio dessas coisas, ou está enchendo rapidamente o coração delas. Nos dois casos, o resultado é o mesmo: uma alma imunda que se ilude de estar limpa.

Portanto, caríssimos, não nos enganemos. Se a nossa linguagem quotidiana é indistinguível da linguagem de um pagão, se os nossos palavrões, as nossas piadas sujas, as nossas expressões obscenas são as mesmas que se ouvem em qualquer botequim, então de que serviu varrer a casa? O demônio mudo que Cristo expulsou no Evangelho de hoje voltou, e trouxe consigo o demônio da boca suja. E o estado último desse homem, diz o Senhor, é pior que o primeiro.

Mas a pregação católica, meus caros, não pode parar na condenação. É preciso indicar o remédio. E o remédio está na própria Epístola: “Outrora éreis trevas; agora sois luz no Senhor. Andai como filhos da luz.” O fruto da luz, diz São Paulo, é a bondade, a justiça e a verdade. Não basta parar de pecar; é preciso começar a ser virtuoso. Não basta varrer a casa; é preciso enchê-la. O demônio volta à casa vazia; não volta à casa onde Cristo habita.

Contra a obscenidade das mídias, pratiquemos a temperança dos olhos a custódia do olhar, a seleção rigorosa do que consumimos. Contra a torpeza das conversas, cultivemos a edificação fraterna, falemos das coisas de Deus, da vida dos Santos, dos bens naturais verdadeiros. Contra os palavrões, adquiramos o hábito das jaculatórias: a boca que se acostuma a dizer “Jesus, Maria e José” não se acostuma a proferir imundícies. E sobretudo, examinemos a consciência também sobre o que dizemos e o que consumimos, porque o demônio do Evangelho era mudo, e muitos católicos não confessam estes pecados de linguagem precisamente porque nem os reconhecem como pecados.

Voltemos, para concluir, ao Evangelho. Cristo é o fortior, o mais forte, que vence o demônio e toma os seus despojos. Mas Ele quer ser convidado a habitar a nossa casa. A Coleta de hoje diz: “Vota humilium respice”, “Atendei às preces dos humildes.” Deus ouve os humildes, meus caros, não os que se bastam a si mesmos. O primeiro passo é reconhecer, com humildade, que talvez a nossa conversão tenha sido, até agora, superficial. Que a nossa casa esteja varrida, sim, mas perigosamente vazia.

E o Evangelho termina com uma beatitude que é também um programa de vida: “Beati qui audiunt verbum Dei et custodiunt illud”, “Bem-aventurados os que ouvem a Palavra de Deus e a guardam.” Guardar não é apenas ouvir e esquecer. Guardar não é varrer e esvaziar. Guardar é habitar, é permanecer, é encher a casa com a presença viva de Deus.Nesta Quaresma, caríssimos, não nos contentemos com uma casa varrida. Convidemos o Senhor a entrar com toda a Sua luz, e fechemos a porta ao demônio, seja ele mudo, seja ele obsceno.

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O Antoniano