[Sermão] O culto do homem, ou por que o homem moderno se fez surdo para Deus

Ephphatha – be opened


Sermão para o XI Domingo depois de Pentecostes
Pe. Marcos Vinicius Mattke, IBP

Brasília-DF, 24 de agosto de 2025 A.D.

Caríssimos fiéis,

Pelo Santo Evangelho deste domingo nossa Santa Romana Igreja nos apresenta uma cena de profunda significação. Nosso Senhor Jesus Cristo, tomando à parte um homem surdo e mudo, coloca os dedos em seus ouvidos, toca sua língua com saliva e, suspirando aos céus, pronuncia esta palavra aramaica carregada de poder divino: “Ephpheta!”, que significa, “Abre-te!”. Imediatamente abriram-se os ouvidos do homem e soltou-se o nó de sua língua.

Este milagre, meus caros, não é apenas um prodígio físico entre tantos outros operados pelo Salvador. É um sinal visível de uma realidade invisível muito mais grave: a surdez espiritual que aflige a humanidade, especialmente em nossos tempos de apostasia generalizada. São João Crisóstomo, com sua costumeira clareza, nos ensina: “Não ouvir a palavra de Deus é pior que ser surdo corporalmente, porque a surdez do corpo é uma enfermidade da natureza, mas a surdez da alma é culpa da vontade”.

Perguntemo-nos: qual é a origem desta surdez espiritual que caracteriza nosso século? A resposta nos é dada por Santo Agostinho: “Initium omnis peccati superbia” – o princípio de todo pecado é a soberba. Foi o orgulho que fez Lúcifer proclamar seu “Non serviam” – não servirei. É o mesmo orgulho que faz o homem moderno repetir este grito de rebelião.

Contemplemos, meus caros, a marcha histórica desta rebelião. Começou no Renascimento, quando o homem passou a contemplar-se a si mesmo ao invés de contemplar a Deus. Agravou-se com o Protestantismo, que proclamou o livre exame, fazendo cada homem juiz da verdade revelada. Explodiu na Revolução Francesa, que pretendeu destronar Cristo para entronizar a deusa Razão. E chegamos ao século XX com o homem declarando-se definitivamente emancipado de Deus.

São Pio X, em sua primeira encíclica, denunciou com palavras proféticas esta usurpação sacrílega: “Com infinita temeridade, o homem pôs-se no lugar de Deus, elevando-se acima de tudo o que leva o nome de Deus”. Eis a característica própria do Anticristo! O homem moderno não apenas desobedece a Deus – ele pretende ser Deus.

Esta surdez espiritual manifesta-se através de erros específicos que a Santa Igreja não cessou de condenar. Permitam-me expor os principais, para que possamos reconhecê-los e rejeitá-los.

Primeiro, o racionalismo – esta soberba intelectual que pretende submeter até os mistérios divinos ao tribunal da razão humana. O Concílio Vaticano I fulminou este erro com anátema solene: “Se alguém disser que a razão humana é de tal modo independente, que a fé não lhe pode ser imposta por Deus: seja anátema”. Quantos hoje, meus caros, mesmo entre os que se dizem católicos, querem aceitar da Revelação apenas aquilo que sua pobre razão consegue compreender!

Segundo, o naturalismo – a negação prática do sobrenatural, reduzindo toda a realidade ao mundo material. O Papa Pio IX, em sua encíclica Quanta Cura, denunciou este erro pernicioso que pretende organizar a sociedade como se Deus não existisse. Os naturalistas admitem, quando muito, um vago deísmo, um Deus distante que não intervém no mundo. Negam os milagres, negam a graça, negam a própria possibilidade da Revelação.

Terceiro, a liberdade de consciência – este delírio moderno que faz cada homem árbitro supremo do bem e do mal. O Papa Gregório XVI não hesitou em chamar de “delírio” esta pretensão: “Dessa fonte lamacenta do indiferentismo promana aquela sentença absurda e errônea, ou antes, delírio, de que se deve procurar e garantir a cada um a liberdade de consciência”.

Quarto, a liberdade religiosa – como se o erro tivesse os mesmos direitos que a verdade! Como se Cristo e Belial pudessem receber igual honra! O Syllabus de Pio IX condenou expressamente a proposição de que “a liberdade civil de todos os cultos e o pleno poder concedido a todos de manifestar pública e abertamente quaisquer opiniões e pensamentos” seria benéfica para os povos.

Todos estes erros convergem, meus caros, para estabelecer o que podemos chamar de religião do homem. O homem moderno não é simplesmente ateu – ele é idólatra de si mesmo. Construiu uma nova religião onde ele próprio é o deus, o sacerdote e o fiel. Os direitos do homem substituíram os direitos de Deus. A vontade popular tornou-se a fonte da lei, substituindo a lei eterna.

O Papa Leão XIII, em sua encíclica Immortale Dei, traçou a genealogia desta apostasia: “A fatal e deplorável paixão pelas novidades que se despertou no século XVI, depois de ter perturbado a religião cristã, passou naturalmente, por uma consequência inevitável, à filosofia, e da filosofia a todos os graus da sociedade civil”.

Mas o que é mais grave, meus caros, e que deve fazer-nos tremer, é que este culto do homem não permaneceu fora dos muros sagrados. O modernismo, que São Pio X chamou de “síntese de todas as heresias”, infiltrou-se na própria teologia. Os modernistas pretenderam adaptar a doutrina eterna aos erros do século, fazendo da religião católica uma evolução do sentimento religioso humano. Quiseram reconciliar a Igreja com o mundo moderno, e por isso  acabaram por contaminar a hierarquia com os erros do mundo.

E eis que este humanismo antropocêntrico chegou a manifestar-se até mesmo em pronunciamentos da mais alta autoridade eclesiástica durante o último concílio. Pudemos ouvir, com estupor e dor, afirmações como estas: “A religião do Deus que se fez homem se encontrou com a religião, porque ela é tal, do homem que se faz Deus”. Que blasfêmia equiparar a Encarnação do Verbo com a pretensão luciferina do homem moderno! Ouvimos ainda: “A Igreja quase que se fez serva da humanidade” – quando a Igreja é serva de Cristo e mestra das nações! E o cúmulo: “Sabei reconhecer nosso novo humanismo: nós também, nós, mais que quem quer que seja, nós temos o culto do homem”. Culto do homem, meus caros! Como se não bastasse o culto que o mundo já presta a si mesmo, agora querem que a própria Igreja se una a este coro idolátrico!

Observemos as consequências práticas desta religião do homem. O homem que se fez surdo a Deus tornou-se escravo de três tiranos implacáveis: a carne, o mundo e o demônio.

Escravo da carne, entregou-se ao hedonismo mais degradante. O divórcio destruiu a família, a contracepção perverteu o matrimônio, o aborto transformou o ventre materno em câmara de execução. A impureza tornou-se virtude sob o nome de liberdade sexual.

Escravo do mundo, o homem moderno vive para o dinheiro, para o prazer, para a glória vã. O materialismo prático domina até aqueles que teoricamente professam uma religião. Vivemos como se esta vida fosse tudo, como se não houvesse eternidade.

Escravo do demônio – sim, meus caros, não tenhamos medo de dizê-lo -, o homem que rejeita o verdadeiro Deus inevitavelmente cai sob o domínio do príncipe deste mundo. A proliferação do ocultismo, do espiritismo, das falsas religiões orientais, não é acidental. Como denunciou Leão XIII sobre a maçonaria: “Seu fim é destruir até os fundamentos toda a ordem religiosa e civil estabelecida pelo Cristianismo, levantando a seu modo outra nova com fundamentos e leis tiradas das entranhas do naturalismo”.

Mas não nos deixemos abater pelo quadro sombrio, meus caros. Se o Evangelho de hoje nos mostra a doença, também nos revela o remédio. Cristo não abandonou a humanidade surda. Ele continua a pronunciar seu “Ephpheta” através de nossa Santa Madre Igreja.

Qual é o primeiro passo para a cura? A humildade. Santo Agostinho nos ensina: “Foi o orgulho que transformou anjos em demônios; é a humildade que faz dos homens anjos”. Precisamos reconhecer nossa radical incapacidade. O Concílio de Orange, já no século VI, definiu solenemente: “Se alguém afirma que pode, pela força da natureza, pensar como convém ou escolher algum bem que se refere à salvação sem a iluminação e inspiração do Espírito Santo, é enganado pelo espírito herético”.

Notemos bem, meus caros: não podemos sequer pensar um bom pensamento sem a graça de Deus! Que golpe mortal no orgulho racionalista! O Concílio de Trento reafirmou esta verdade contra os protestantes: “Se alguém disser que o homem pode ser justificado diante de Deus por suas obras sem a graça divina por Jesus Cristo: seja anátema”.

Observemos no Evangelho como Cristo leva o surdo-mudo “à parte”, afastando-o da multidão. Eis aqui uma lição preciosa. Para ouvir a voz de Deus, precisamos nos afastar do barulho do mundo. São Pio X, em sua encíclica Pascendi, identificou o orgulho como “o domicílio próprio do modernismo”. E acrescentou: “O primeiro estímulo do orgulho é a ignorância” – a ignorância das coisas de Deus, que vem de vivermos imersos no mundanismo.

Necessitamos do recolhimento, do silêncio, da oração. Santo Afonso de Ligório não hesitava em afirmar: “Quem reza se salva, quem não reza se condena”. E ainda: “Sem a oração é moralmente impossível guardar a lei de Deus e perseverar na graça”. São João Maria Vianney, o Santo Cura d’Ars, explicava a razão: “O demônio não se preocupa muito com aqueles que não rezam, pois já são seus; mas faz guerra terrível àqueles que rezam”.

No milagre evangélico, Cristo toca fisicamente o surdo: coloca os dedos em seus ouvidos, toca sua língua com saliva. Estes gestos significam o contato direto, pessoal, eficaz do Salvador com a alma necessitada. Hoje, meus caros, este toque salvador nos vem pelos Sacramentos.

Pela Confissão, nossos ouvidos espirituais são desobstruídos. O orgulho que nos fazia surdos é quebrado pelo ato de humildade de confessar nossos pecados. Pela Sagrada Comunhão, recebemos não apenas a saliva, mas o próprio Corpo e Sangue de Cristo, que nos dá força para proclamar as maravilhas de Deus.

Santa Teresa de Ávila nos ensina o caminho da verdadeira humildade: “A humildade é a verdade. Não é humildade pensar que não temos virtude alguma, se Deus no-la deu; mas reconhecer que ela vem de Deus”. Reconheçamos, pois, nossa total dependência da graça divina.

Meus caros, não basta curar os indivíduos. A sociedade mesma precisa ser curada de sua surdez. O Papa Pio XI, em sua encíclica Quas Primas, proclamou: “Se os homens, pública e privadamente, reconhecessem a autoridade real de Cristo, benefícios incríveis – justa liberdade, tranquilidade e paz – se difundiriam infalivelmente sobre a sociedade inteira”.

Eis o programa da verdadeira restauração: reconhecer a Realeza Social de Nosso Senhor Jesus Cristo. Não haverá paz verdadeira enquanto Cristo não reinar sobre as nações. Pio XI denunciou sem rodeios: “A peste de nossos tempos é o assim chamado laicismo, com seus erros e intentos criminosos”.

O Estado tem o dever de reconhecer a verdadeira religião. A separação entre Igreja e Estado é um erro moderno, filho do liberalismo. Cristo deve reinar não apenas nos corações, mas também nas leis, nas instituições, na vida pública.

Caríssimos fiéis, o mundo moderno escolheu fazer-se surdo à voz de Deus. Tapou os ouvidos para escutar apenas a própria voz. Mas Cristo não se cansa de clamar “Ephpheta!”. Através de sua Santa Igreja, através do sacerdócio católico, através dos Sacramentos, através das graças que ainda derrama sobre esta sociedade apóstata, ele continua a oferecer a cura.

São Luís Maria Grignon de Montfort nos faz uma advertência terrível: “O orgulho de todos os demônios juntos não iguala o orgulho de uma alma que diz: ‘Não servirei”. Que nunca, meus caros, esta palavra maldita saia de nossos lábios ou se anide em nossos corações!

Abramos nossos ouvidos à voz de Deus. Rejeitemos os erros modernos – o racionalismo, o naturalismo, o liberalismo, o indiferentismo, o modernismo, o laicismo. Fujamos da religião do homem que pretende destronar Deus. Reconheçamos humildemente nossa total dependência do Criador e Redentor.

A verdadeira liberdade não consiste em fazer o que queremos, mas em querer o que devemos. A liberdade dos filhos de Deus consiste em servir àquele para quem fomos criados, àquele que nos redimiu com seu Sangue preciosíssimo.

Que Nossa Senhora, Medianeira de todas as graças, aquela que proclamou “Eis a escrava do Senhor”, nos obtenha a graça da verdadeira humildade. Que ela esmague sob seus pés virginais a cabeça da serpente infernal do orgulho. Que por sua intercessão nossos ouvidos se abram definitivamente à Palavra de Deus, e nossas línguas se soltem para cantar eternamente os louvores divinos.

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