[Sermão] Nossa Senhora da Luz dos Pinhais: o milagre que libertou o escravo e pacificou os índios

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Sermão para o XIII Domingo depois de Pentecostes
Véspera da Festa de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais
Padroeira da cidade e da arquidiocese de Curitiba

Pe. Marcos Vinicius Mattke, IBP

Curitiba-PR, 07 de setembro de 2025 A.D.

Caríssimos fiéis,

Stabat juxta crucem Jesu mater ejus”, estava junto à cruz de Jesus sua Mãe. Com estas palavras do Evangelho de São João, contemplamos o mistério daquela que, associada aos sofrimentos de seu Divino Filho, tornou-se nossa mãe na graça e libertadora de todos os cativos dos grilhões do inferno.

Permitam-me, meus caros, nesta véspera da festa de nossa Padroeira, Nossa Senhora da Luz dos Pinhais, narrar-lhes os fatos históricos que bem ilustram o poder libertador de Maria Santíssima. Corria o ano de 1463 quando Pero Martins, humilde agricultor português da vila de Carnide, caiu prisioneiro dos mouros africanos. Reduzido à mais cruel escravidão, trabalhava sob sol causticante, privado de todo consolo humano e, o que é pior, sem a assistência de um sacerdote que pudesse administrar-lhe os sacramentos.

Consideremos, meus caros, que terrível situação. Os homens tentaram pagar seu resgate, mas todo esforço humano revelou-se inútil. Não é esta, porventura, perfeita imagem de nossa condição? Também nós jazemos cativos – não dos mouros, mas do pecado. Também nós experimentamos a impotência dos meios puramente humanos para nossa libertação. Mas eis que intervém aquela que a Igreja saúda como Auxilium Christianorum.

Nossa Senhora apareceu em sonhos a Pero Martins durante trinta noites consecutivas. Na última, prometeu-lhe que ao despertar estaria em sua terra natal. E assim aconteceu! O que os homens não puderam fazer com ouro e negociações, Maria Santíssima realizou com um simples ato de sua vontade maternal. Ela pediu-lhe apenas que encontrasse sua imagem, guiado por uma luz misteriosa, e que ali construísse uma ermida.

Meus caros, o Evangelho deste domingo apresenta-nos dez leprosos que clamam: “Jesus, Mestre, tende piedade de nós!” Todos foram curados, mas apenas um – note-se bem, um samaritano, um estrangeiro – voltou para agradecer. São Gregório Magno, Doutor da Igreja, ensina-nos que a lepra significa a variedade dos erros e pecados que mancham a alma. Quantas vezes não somos nós esses nove ingratos que, recebendo benefícios divinos, seguimos nosso caminho sem um ato de ação de graças?

Santo Afonso de Ligório nos adverte: “A ingratidão seca a fonte das graças divinas”. Contemplemos, em contraste, Maria Santíssima, modelo perfeito de gratidão. Seu Magnificat ressoa através dos séculos no Ofício Divino como o mais sublime cântico de ação de graças. “Magnificat anima mea Dominum”, Minha alma engrandece o Senhor. Não por acaso São Bernardo proclamou: “De Maria nunquam satis”, de Maria nunca é suficiente, nunca dizemos o bastante.

E aqui, meus caros, chegamos a um ponto crucial de nossa terra das araucárias. Por volta de 1650, existia uma capela dedicada a Nossa Senhora da Luz perto do rio Atuba. Os devotos notaram algo extraordinário: todas as manhãs, a sagrada imagem tinha os olhos voltados insistentemente para uma região selvagem, dominada pelos ferozes índios caingangues – os pinhais, Curitiba em idioma indígena. Era o olhar maternal que não desiste, que não abandona, que insiste em buscar os filhos perdidos.

A Epístola de hoje fala-nos das promessas feitas a Abraão e sua descendência. Santo Irineu, mártir do segundo século, ilumina-nos com esta verdade: “O nó da desobediência de Eva foi desatado pela obediência de Maria”. As promessas antigas cumprem-se no Fiat de Nossa Senhora. Por Ela veio ao mundo a Descendência prometida, o Cristo Senhor.

Mas vejamos como estas promessas se manifestam em nossa terra. Quando os habitantes, interpretando o insistente olhar da imagem, decidiram desbravar aquela região selvagem, prepararam-se para o combate. Armaram-se, esperando resistência feroz. Qual não foi seu espanto quando o cacique Gralha Branca, também chamado Araxó, recebeu-os pacificamente. Os índios, que poderiam ter massacrado os exploradores, cederam amigavelmente essas terras para aqueles que traziam o estandarte da Cruz de Cristo.

E aqui, meus caros, contemplamos um símbolo belíssimo. O cacique tomou sua vara, insígnia de seu poder, e enterrou-a no local que seria o centro de nossa cidade. Chegada a primavera, milagrosamente, aquela vara seca voltou a florescer, dando ramos e flores. Como não recordar a vara de Aarão que floresceu, sinal da eleição divina? Naquele exato local, hoje Praça Tiradentes, ergueu-se a primeira igreja em honra de Nossa Senhora da Luz.

São Luís Maria Grignion de Montfort proclama esta verdade verdadeiramente consoladora: Por Maria veio Jesus ao mundo, por Maria deve reinar no mundo”. Não foi por acaso que os pinhais bravios transformaram-se em cidade cristã. Foi o poder transformador da graça, mediado pelo olhar maternal de Maria.

Mas, é claro, meus caros, vivemos em tempos de densas trevas espirituais. O relativismo moral, o indiferentismo religioso, a apostasia patente da sociedade – eis as lepras modernas que corroem as almas. Mas temos um farol: Nossa Senhora da Luz.

Recordemos: em Carnide, uma luz misteriosa aparecia sobre a fonte do Machado. Até de Lisboa vinham curiosos ver o fenômeno. Aquela luz guiou Pero Martins até a imagem escondida. Em Curitiba, foram os olhos da imagem, insistentemente voltados para os pinhais, que guiaram os desbravadores portugueses. São João Damasceno, por isso mesmo, denomina Maria “a estrela que anuncia o Sol de Justiça”.

Consideremos a transformação operada: de terra de índios pagãos e canibais, Curitiba tornou-se cidade de Maria. Em 1993, Sua Santidade o Papa João Paulo II, atendendo aos pedidos das autoridades eclesiásticas e civis, proclamou Nossa Senhora da Luz dos Pinhais como Rainha de Curitiba, o que é uma honra e privilégio incomensurável para a nossa cidade. Santo Anselmo, Doutor da Igreja, exclamava em santa admiração: “Como Deus pôde fazer um mundo maior, assim pôde fazer uma Mãe melhor que Maria? Não pôde!”

Mas não basta, meus caros, admirar as glórias de Maria. É necessário aplicar os remédios espirituais que ela mesma nos indica. Permitam-me propor-lhes três práticas fundamentais, três colunas que devem sustentar nossa vida espiritual.

São Luís de Montfort, apóstolo da verdadeira devoção mariana, assegura-nos: “Esta devoção é o caminho mais perfeito para ir a Jesus”. Consagrar-se a Maria significa entregar-lhe tudo: corpo, alma, bens espirituais e temporais, méritos passados, presentes e futuros. É fazer-se escravo de amor – paradoxo sublime que nos garante a verdadeira liberdade!

Como Pero Martins confiou totalmente em Nossa Senhora para sua libertação, assim devemos nós confiar-lhe toda nossa existência. Não é devoção sentimental ou passageira; é entrega total, irrevogável, sem reservas.

O Papa Leão XIII, de venerável memória, não hesitou em afirmar: “O Rosário é a arma mais poderosa contra o inferno”. Após a vitória de Lepanto, São Pio V proclamou: “Foi Nossa Senhora das Vitórias que alcançou o triunfo”.

Meus caros, uma família que abandona o Rosário está destinada à ruína espiritual. Uma família que reza unida o terço todas as noites constrói muralhas inexpugnáveis contra os assaltos do demônio. Que não se afirme que não se acha tempo, muito menos que ninguém se resigne ao abandono do rosário. Temos tempo para tudo, menos para o essencial? Quinze minutos diários – eis o tributo mínimo que devemos à nossa Rainha!

Santo Afonso de Ligório afirma categoricamente: “Uma só Comunhão bem feita basta para fazer um santo”. Mas quantas comunhões sacrílegas não se fazem em nossos dias! Quantos se aproximam da Sagrada Mesa em pecado mortal!

São João Bosco, pai e mestre da juventude, indicava dois sustentáculos que mantêm a alma de pé: Confissão frequente e Comunhão fervorosa. A Confissão mensal, no mínimo, deveria ser norma para todo católico que leva a sério sua salvação. A Comunhão reparadora, especialmente nos primeiros sábados, como Nossa Senhora pediu em Fátima, repara os ultrajes cometidos contra seu Imaculado Coração.

Quantos vivem anos em pecado mortal, adiando sempre a Confissão! São como Pero Martins no cativeiro, mas recusam a libertação oferecida. São Bernardino de Sena proclama esta verdade consoladora: “Quando Maria protege um homem, ele não perecerá jamais”. Mas é preciso buscar esta proteção!

Meus caros, assim como o cacique Gralha Branca cedeu pacificamente o terreno aos bravos homens que trouxeram a verdade e civilização, cedamos nós nosso coração a Maria Santíssima. A vara que floresceu na atual Praça Tiradentes é símbolo eloquente: onde Maria reina, floresce a vida sobrenatural.

É lamentável que a imagem original de nossa Padroeira, aquela mesma que dirigia seu olhar aos pinhais, não esteja em nossa Catedral, mas relegada ao Museu Paranaense. Não é isto símbolo do que fazemos com aquilo que nos foi legado, como a fé e as santas tradições? Museificamos o sagrado, transformamos em peça histórica o que deveria ser objeto de veneração viva!

Mas não nos percamos nem percamos a esperança. Maria Santíssima continua sendo a Luz dos Pinhais, a Rainha de Curitiba. Ela continua olhando com insistência maternal para cada alma nesta cidade. Ela quer libertar-nos como libertou Pero Martins. Ela quer transformar nossos corações selvagens como transformou os índios caingangues.

Caríssimos fiéis, concluo com este apelo: retornemos à fé viva e às práticas sólidas de nossos antepassados. Consagremo-nos a Nossa Senhora, recitemos diariamente o Santo Rosário em família, frequentemos os sacramentos da Confissão e Comunhão.

Ó Senhora da Luz dos Pinhais, Rainha e Padroeira de Curitiba! Como libertastes Pero Martins do cativeiro dos mouros, libertai-nos do cativeiro do pecado. Como pacificastes os índios bravios com vosso olhar maternal, pacificai nossos corações rebeldes. Como fizestes florescer a vara do cacique, fazei florescer em nós a vida da graça.

Que pela confissão sincera, comunhão fervorosa e recitação diária do nosso Santo Rosário, sejamos dignos filhos vossos e verdadeiros católicos, para maior glória de Deus e salvação das almas.

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O Antoniano