[Sermão] Nossa Senhora: a Arca que aterroriza o demônio e nos liberta da nostalgia do pecado

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Sermão para a Festa da Assunção da Santíssima Virgem
Pe. Marcos Vinicius Mattke, IBP

Brasília-DF, 15 de agosto de 2025 A.D.

Caríssimos fiéis,

“Levanta-te, Senhor, para o teu repouso, tu e a arca da tua santificação.” Estas palavras do Salmista, que nossa Santa Romana Igreja aplica hoje à gloriosíssima Assunção de Maria Santíssima, revelam-nos um mistério admirável: assim como a antiga Arca da Aliança foi conduzida com grande solenidade ao Templo de Jerusalém, assim Maria Santíssima, verdadeira Arca da Nova Aliança, foi hoje elevada ao Templo eterno do Céu.

Meus caros, contemplemos neste dia santíssimo como Nossa Senhora, qual nova e mais perfeita Arca, não apenas guardou a Lei, mas carregou em seu puríssimo ventre o próprio Legislador divino. São João Damasceno, em sua homilia sobre a Dormição, ensina-nos: “A Arca da Aliança era figura de Maria Santíssima. Aquela Arca continha as tábuas da Lei; Maria conteve em seu seio o próprio Autor da Lei.”

Consideremos primeiro, meus caros, o que continha aquela antiga Arca, construída por Moisés segundo o mandato divino. Três eram seus tesouros: as tábuas da Lei, onde o dedo de Deus escrevera os mandamentos; o maná, aquele pão misterioso que alimentou Israel no deserto; e a vara de Aarão, que floresceu miraculosamente para confirmar o seu sacerdócio.

Ora, se aquela Arca era santa por conter estes sinais, quanto mais santa é Maria! Ela não guardou apenas tábuas de pedra, mas o Verbo Eterno, a Palavra viva de Deus que se fez carne. Não conservou o maná que perecia, mas gerou o Pão Vivo descido do Céu, que dá a vida ao mundo. Não portou a vara do sacerdócio de Aarão, mas trouxe em seu seio o Sumo e Eterno Sacerdote segundo a ordem de Melquisedeque.

Santo Ambrósio exclama: “Que coisa mais manifesta que Maria é a Arca em que estava o maná verdadeiro, isto é, o corpo de Cristo que dá a vida ao mundo?” E Santo Atanásio acrescenta: “Maria é a Arca feita não de madeira corruptível, mas revestida do ouro puríssimo da divindade.”

Compreendamos bem esta verdade: se Oza foi fulminado apenas por tocar inadvertidamente a antiga Arca, quão pura e imaculada deveria ser Aquela que haveria de portar não símbolos, mas a própria realidade divina!

Recordemos agora, caríssimos fiéis, como a Arca antiga era terrível aos inimigos de Israel. Quando os sacerdotes a carregaram até o rio Jordão, as águas se abriram. Quando a conduziram ao redor de Jericó, os muros inexpugnáveis ruíram. Quando os filisteus ousaram roubá-la, foram atormentados com pragas terríveis até que, atemorizados, a devolveram.

Assim também Maria – mas com poder infinitamente maior – é o terror dos demônios e a ruína das potestades infernais. São Boaventura nos ensina: “Como os filisteus foram atormentados quando roubaram a Arca, assim os demônios fogem aterrorizados diante de Maria.” E São Bernardo proclama: “Ao nome de Maria, todo joelho se dobra no céu, na terra e nos infernos.”

Meus caros, vivemos num mundo que nos seduz com mil enganos, que nos acena com prazeres que são como fumo que se dissipa. Os demônios, quais leões rugindo, buscam nos devorar. Mas temos uma defesa invencível: Maria Santíssima, a Arca que nos protege do dilúvio do pecado. Santo Alfonso de Ligório afirma com santa confiança: “Como um exército em ordem de batalha – assim é terrível Maria aos poderes infernais.”

Mas aqui, caríssimos fiéis, devemos examinar nossas consciências com santo temor. Quantas vezes, depois de libertados da escravidão do pecado, suspiramos pelas falsas consolações que deixamos! Como os hebreus ingratos que, no deserto, murmuravam contra Moisés dizendo: “Lembramo-nos dos peixes que comíamos de graça no Egito, dos pepinos, melões, alhos-porós, cebolas e alhos.”

Lamentavam as cebolas do Egito! Que loucura é essa, meus caros! Preferiam as cebolas fétidas do Egito ao maná celestial! Trocavam a liberdade dos filhos de Deus pela escravidão, apenas pela memória de prazeres vis! São Gregório Magno adverte-nos severamente: “Quantos, depois de libertados da escravidão do pecado, voltam como cães ao próprio vômito, preferindo as cebolas fétidas do Egito ao maná celestial!”

Esta é a sedução mais perigosa: a nostalgia do pecado. O demônio, astuto como é, não nos tenta sempre com pecados novos; muitas vezes basta fazer-nos recordar com saudade os antigos. Faz brilhar em nossa memória apenas o que havia de aparentemente doce no pecado, escondendo o fel amargo que sempre o acompanha. Como a mulher de Ló, que se perdeu por olhar para trás, para Sodoma em chamas, quantas almas se perdem por voltar os olhos e o coração para o Egito de sua antiga vida!

Qual é então nosso remédio, meus caros? É fixar constantemente nossos olhos em Maria, como os israelitas olhavam para a Arca. Quando a nuvem divina se levantava sobre a Arca, Israel marchava; quando pousava, Israel descansava. A Arca era seu guia infalível através do deserto imenso e desconhecido.

Nós também atravessamos o deserto desta vida, onde não há caminho seguro senão aquele que Maria nos mostra. São Bernardo nos exorta: “Nas tentações, nos perigos, nas dúvidas, pensa em Maria, invoca Maria. Não se aparte de tua boca, não se aparte de teu coração.”

Ela é a Estrela do Mar – Stella Maris – que brilha nas trevas da noite. Respice stellam, voca Mariam. Quando as ondas do mundo ameaçam submergir nossa frágil barca, quando os ventos das paixões querem nos arrastar ao naufrágio, levantemos os olhos para Maria! Santo Efrém proclama esta consoladora verdade: “Como a Arca preservou Noé do dilúvio, Maria preserva seus devotos do naufrágio eterno.”

É nesse espírito que nossa Santa Madre Igreja, meus caros, canta no intróito as palavras do Apocalipse: “Signum magnum appáruit in cælo: múlier amicta sole, et luna sub pédibus eius, et in cápite eius coróna stellárum duódecim” – Um grande sinal apareceu no céu: uma mulher vestida de sol, tendo a lua debaixo de seus pés e na cabeça uma coroa de doze estrelas. Eis Maria, a Arca gloriosa, não mais oculta no Santo dos Santos, mas resplandecente no Céu!

Contemplemos esta glória, caríssimos: ela está vestida de sol – revestida da própria glória divina que habitou em seu seio. A lua está sob seus pés – todas as coisas mutáveis e corruptíveis deste mundo estão submetidas àquela que é imutável em sua fidelidade. E a coroa de doze estrelas – os patriarcas e apóstolos, toda a Igreja triunfante a proclama sua Rainha. Como a antiga Arca era coberta de ouro puríssimo, Maria resplandece com luz mais brilhante que todos os astros do firmamento.

Mas notemos bem, meus caros: este mesmo capítulo do Apocalipse nos mostra o dragão infernal querendo devorar seu Filho. Eis a luta perpétua entre a Mulher e a serpente. Mas que nos diz a Santa Igreja no Ofício de Laudes? Canta as palavras que o povo de Israel dirigiu a Judite, aplicando-as com ainda mais razão a Maria: “Benedíxit te Dóminus in virtúte sua, quia per te ad níhilum redégit inimícos nostros” – O Senhor te abençoou com seu poder, porque por ti reduziu a nada nossos inimigos.

Judite, cortando a cabeça de Holofernes, foi apenas figura de Maria, que esmaga verdadeiramente a cabeça da serpente infernal. E se todo Israel proclamou Judite bendita entre as mulheres por libertar uma cidade, com quanto maior júbilo nós proclamamos: “Benedícta es tu, fília, a Dómino Deo excélso, præ ómnibus muliéribus super terram” – Bendita és tu, ó filha, pelo Senhor Deus altíssimo, sobre todas as mulheres da terra! Pois Maria não libertou apenas uma cidade, mas o gênero humano inteiro do império do demônio.

Meus caros, não somente liberta, como preserva seus devotos. E não digo que preserva alguns de seus devotos, mas seus devotos – todos aqueles que verdadeiramente a ela recorrem. Santo Anselmo confirma com autoridade: “Aquele que perseverar na devoção a Maria não perecerá eternamente.”

Hoje, na festa de sua Assunção gloriosa, Maria Santíssima nos mostra o fim de nossa peregrinação. Ela não apenas nos guia pelo deserto, mas já entrou na Terra Prometida. Não a Canaã terrestre, que os hebreus conquistaram e perderam, mas o Céu bem-aventurado, a verdadeira pátria, onde ela reina como Rainha dos Anjos e dos homens.

Como a antiga Arca foi finalmente colocada no Santo dos Santos, no lugar mais sagrado do Templo, assim Maria foi elevada ao mais alto trono do Céu, junto de seu Divino Filho. E de lá, meus caros, ela não nos esquece. Antes, como Mãe vigilante, estende seu manto sobre nós, intercede continuamente por nossas necessidades, alcança-nos as graças de que precisamos para perseverar.

Santo Alberto Magno aplica a Maria aquelas palavras da Sabedoria: “Quem me encontrar, encontrará a vida e alcançará o favor do Senhor.” Sim, meus caros, quem encontra Maria, encontra o caminho seguro para Jesus; quem segue Maria, jamais se perderá nas ilusões do mundo.

Caríssimos fiéis, neste dia santíssimo em que celebramos a entrada triunfal de Maria no Céu, façamos um propósito firme: jamais voltar os olhos com saudade para o Egito de nossos pecados passados. As cebolas do Egito podem parecer saborosas à nossa memória enganada, mas são veneno para a alma.

Sigamos sempre a Nossa Santíssima Rainha, verdadeira Arca da Aliança! Quando o mundo nos oferecer seus prazeres mentirosos, lembremo-nos do maná verdadeiro que ela nos dá através de seu Filho. Quando os demônios nos atacarem com tentações, invoquemos Aquela que é terrível como um exército em ordem de batalha. Quando a saudade do pecado quiser nos seduzir, corramos para os braços da Mãe que nunca abandona seus filhos.

Ó Maria, Arca da Nova e Eterna Aliança, vós que fostes hoje elevada sobre todos os coros dos anjos, não permitais que nos percamos no deserto deste mundo! Sede nossa guia, nossa defesa, nossa esperança! E quando chegar nossa hora derradeira, conduzi-nos à verdadeira Terra Prometida, onde vós reinais com vosso Divino Filho. Amém.

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