Sermão para o XXIII Domingo depois de Pentecostes
Pe. Marcos Vinicius Mattke, IBP
Brasília-DF, 16 de novembro de 2025 A.D.
Capela Nossa Senhora das Dores
Caríssimos fiéis,
Nossa santa Romana Igreja, em sua maternal solicitude, faz-nos suplicar hoje pela absolvição dos nossos delitos: “Absólve, quaesumus, Dómine, tuórum delícta populórum: ut a peccatórum néxibus, quæ pro nostra fragilitáte contráximus, tua benignitáte liberémur.” Dignai-Vos, Senhor, perdoar os delitos de vosso povo a fim de que por vossa benignidade, sejamos livres dos laços dos pecados que por nossa fraqueza contraímos. Reconhecemos nossa fragilidade, confessamos os laços do pecado que nos prendem, e imploramos a benignidade divina para nossa libertação. Esta oração, meus caros, sintetiza admiravelmente o drama que o Evangelho hoje nos apresenta: assim como a filha de Jairo jazia morta em seu leito, nossas almas jazem mortas pelo pecado mortal até que Cristo, em sua misericórdia, ressuscite-as com seu poder divino.
Ensina-nos São João Damasceno que “assim como no corpo, quando a alma se separa dele, segue-se imediatamente a morte, assim também na alma, quando a graça divina dela se afasta, produz-se a morte espiritual.” Eis a terrível realidade que devemos contemplar: existem mortos que caminham entre nós, mortos que parecem viver mas estão privados da vida verdadeira, a vida da graça.
A morte espiritual: mal maior que a morte corporal
Quando Cristo adentra a casa do príncipe da sinagoga e diz “Talitha cumi”, “Menina, levanta-te!”, opera-se um milagre que serve de figura para uma realidade ainda mais sublime. Santo Agostinho nos adverte: “Quantos há que parecem viver e estão mortos! Caminham pelas praças, tratam de negócios, e no entanto estão mortos. A alma que peca, essa morrerá.”
Contemplemos, meus caros, os sinais desta morte espiritual. Primeiro, a perda da graça santificante, a participação na própria vida divina que nos torna filhos de Deus e herdeiros do céu. Segundo, a completa incapacidade de merecer para a vida eterna, pois o morto nada pode operar. Terceiro, a escravidão ao demônio, que reina como senhor absoluto sobre a alma privada de Deus. São Bernardo expressa esta tragédia com precisão: “O pecador está morto: morto a Deus, vivo ao diabo; morto à graça, vivo ao pecado; morto aos merecimentos, vivo aos castigos.”
Mas, caríssimos, assim como Cristo ressuscitou a filha de Jairo, Ele instituiu o sacramento da Penitência para ressuscitar as almas mortas. São Gregório Magno ensina que “no sacramento da Penitência, realiza-se espiritualmente o que Cristo operou corporalmente na filha do príncipe da sinagoga.” Quantas vezes já experimentamos esta ressurreição? Quantas vezes já ouvimos, no segredo do confessionário, aquele “levanta-te” que nos devolveu à vida?
Nossa verdadeira pátria e o espírito do mundo
São Paulo, na epístola de hoje, proclama uma verdade que deveria guiar nossas vidas e nos fazer acordar para a realidade eterna: “Nostra conversatio in caelis est”, nossa cidadania, nossa pátria, está nos céus. Não somos deste mundo, meus caros. Somos peregrinos, estrangeiros, exilados que caminham para a pátria verdadeira. São Pedro Crisólogo confirma: “Somos peregrinos e estrangeiros neste mundo, e nossa verdadeira pátria é o céu.”
Mas quantos há que vivem como se este mundo fosse seu destino definitivo! O Apóstolo os descreve com três traços terríveis. Primeiro: “quorum Deus venter est”, fazem do ventre seu deus, vivem para os prazeres da carne, para as satisfações materiais. Segundo: “gloria in confusione ipsorum”, gloriam-se precisamente naquilo que deveria envergonhá-los, ostentam seus vícios como virtudes. Terceiro: “qui terrena sapiunt”, só pensam nas coisas terrenas, seu horizonte não ultrapassa este mundo que passa.
São Tomás de Aquino, caríssimos, identifica três categorias de inimigos da Cruz de Cristo: “os judeus que a blasfemam, os gentios que a escarnecem, os falsos cristãos que a desonram com sua vida.” É desta terceira categoria, meus caros, que devemos especialmente nos guardar. São aqueles que, levando o nome de cristãos, vivem como pagãos; que, professando crer em Cristo, seguem as máximas do mundo.
São João Crisóstomo é categórico: “Impossível é amar ao mesmo tempo o mundo e a Cristo. O amor do mundo expulsa o amor de Cristo, e o amor de Cristo expulsa o amor do mundo.” Não há meio termo, não há compromisso possível. Ou vivemos segundo o Evangelho, ou vivemos segundo o mundo. Ou somos cidadãos do céu, ou somos escravos da terra.
A tríplice vigilância contra os erros modernos
Três são os inimigos que, em nossos tempos, se levantam com particular violência contra a Cruz de Cristo e contra nossa cidadania celestial: o mundanismo, o liberalismo e o naturalismo.
O mundanismo é aquele espírito que procura conciliar o inconciliável, servir a Deus sem renunciar ao mundo. São Luís Maria Grignion de Montfort desmascara esta ilusão: “O espírito do mundo é diametralmente oposto ao Espírito de Jesus Cristo. O mundo canoniza o prazer, as riquezas e a soberba; Cristo canoniza a mortificação, a pobreza e a humildade.” Como podemos, meus caros, pretender seguir a Cristo enquanto abraçamos as máximas do mundo? Como podemos subir o Calvário enquanto buscamos as comodidades e honras terrenas?
O liberalismo, essa peste dos tempos modernos, pretende libertar o homem de toda autoridade divina, proclamando a autonomia absoluta da razão e da vontade humanas. Dom Félix Sardà y Salvany não hesita em afirmar: “O liberalismo é pecado, seja na ordem religiosa, seja na ordem política.” É a rebelião do homem contra Deus, é o grito de Lúcifer repetido através dos séculos: “Non serviam!” O Papa Leão XIII, de veneranda memória, advertia-nos: “A liberdade de perdição não é liberdade, é licença, e a licença do mal sempre redundou em servidão.”
O naturalismo, por fim, nega simplesmente a ordem sobrenatural, reduzindo toda a existência humana ao plano puramente natural. São Pio X, em sua encíclica Pascendi, denunciou-o como “a negação radical do Cristianismo.” O Cardeal Pie expõe a raiz deste erro: “Pretendem os naturalistas que a natureza humana pode, com suas próprias forças, alcançar toda verdade e todo bem… É a soberba de Lúcifer repetida.” Como se o homem, ferido pelo pecado original, pudesse prescindir da graça! Como se pudéssemos alcançar o céu por nossas próprias forças!
A única libertação possível
Retornemos, meus caros, à oração que a Igreja hoje põe em nossos lábios: “tua benignitate liberémur”, que sejamos libertos por vossa benignidade! Não por nossos méritos, não por nossas forças, não por nossa sabedoria, mas unicamente pela benignidade divina. Esta é a humildade católica, este é o realismo cristão.
Alguns dirão: “Mas não podemos adaptar-nos aos tempos? Não podemos ser cristãos modernos?” São Jerônimo responde com a Escritura: “Que pacto pode haver entre Cristo e Belial? Que sociedade entre a luz e as trevas?” E o Papa Pio IX, em sua encíclica Quanta Cura, recorda-nos o mandato apostólico: “Reformamini in novitate sensus vestri”, “não vos conformeis com este século, mas reformai-vos.”
Aplicação prática e resoluções
Façamos, pois, meus caros, um sério exame de consciência. Primeiro: estamos vivos ou mortos espiritualmente? Se descobrimos em nossa alma o pecado mortal, corramos ao tribunal da Penitência, onde Cristo nos espera para pronunciar seu “Talitha cumi” libertador.
Segundo: quais laços mundanos ainda nos prendem? Quais compromissos com o espírito do mundo ainda mantemos? São as amizades perigosas, as leituras ímpias, os divertimentos pecaminosos? Cortemos estes laços, meus caros, antes que se tornem cadeias eternas!
Terceiro: como combatemos os erros modernos? Não basta lamentarmos a apostasia dos tempos, é necessário sermos militantes da verdade. Pela oração, pelo exemplo, pela palavra oportuna, devemos defender a fé católica contra os assaltos do mundo, do demônio e da carne.
São Roberto Belarmino deixa-nos esta advertência: “Ou havemos de viver como cidadãos do céu, ou pereceremos como escravos do mundo. Não há meio termo.”
Peroração
Meus caros, aproximamo-nos do fim do ano litúrgico. Nossa santa Madre Igreja, como mãe prudente, prepara-nos para meditar sobre os novíssimos, morte, juízo, inferno e paraíso. O Evangelho de hoje, com a ressurreição da filha de Jairo, recorda-nos que há uma morte pior que a corporal e uma ressurreição mais necessária que a do corpo.
Peçamos à Santíssima Virgem Maria, terror dos demônios, vencedora de todas as heresias e medianeira de todas as graças que alcance para nós a graça da verdadeira ressurreição espiritual. Que Ela, a Imaculada, que jamais conheceu a morte do pecado, interceda por nós, pobres pecadores, para que, mortos definitivamente ao mundo e a suas máximas perversas, vivamos somente para Deus, caminhando como verdadeiros peregrinos rumo à pátria celestial, onde Cristo, ressuscitado e glorioso, nos espera para participarmos eternamente de sua vida divina.


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