[Sermão] Mais severo que Deus? Ou por que alimentar a ira quando o próprio Deus nos perdoa

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O sermão pregado não segue o texto abaixo ipsis litteris.

Sermão para o V Domingo depois de Pentecostes
Pe. Marcos Vinicius Mattke, IBP

Brasília-DF, 13 de julho de 2025 A.D.

Caríssimos fiéis,

“Nisi abundaverit justitia vestra plus quam scribarum et pharisaeorum, non intrabitis in regnum caelorum.” Se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, não entrareis no reino dos céus. Com estas palavras, Nosso Senhor Jesus Cristo estabelece hoje uma verdade fundamental: não basta parecer justo; é preciso sê-lo verdadeiramente.

Meus caros, quantas vezes não nos contentamos com uma religiosidade de aparências? Quantas vezes não nos satisfazemos com o cumprimento exterior dos preceitos, enquanto nosso coração permanece árido e distante de Deus? O Divino Mestre nos adverte hoje que tal justiça – a justiça dos fariseus – não apenas é insuficiente, mas constitui verdadeiro obstáculo para a salvação.

Para melhor compreendermos este ensinamento vital, consideremos três verdades fundamentais: primeiro, a insuficiência da justiça farisaica e a necessidade da justiça interior; segundo, a gravidade do pecado da ira e seus funestos graus; terceiro, a obrigação sagrada do perdão e da reconciliação fraterna.

Meus caros, quem eram estes fariseus cuja justiça devemos superar? Eram homens religiosos, observantes escrupulosos da Lei. Jejuavam duas vezes por semana, pagavam o dízimo de todas as suas posses, evitavam a impureza legal. Contudo, São João Crisóstomo nos adverte que “Tudo faziam para serem vistos pelos homens. Eis sua justiça: uma máscara que encobre a podridão.”

A justiça farisaica é aquela que se contenta com o exterior, que busca a aprovação humana mais que a divina. É a justiça daquele que vai à Missa dominical mas passa a semana como se Deus não existisse. É a justiça daquele que reza o terço mecanicamente enquanto o coração está cheio de ressentimentos. É a justiça daquele que jejua na Quaresma mas não mortifica a língua maledicente. É a justiça daquele que conhece as polêmicas teológicas, mas para se orgulhar e se irar com o próximo.

Como nos ensina Santo Agostinho: “Duas coisas são necessárias: fazer o bem e fazê-lo bem. Muitos fazem o bem, mas não o fazem bem, porque não o fazem com reta intenção.” E São Bernardo de Claraval acrescenta com precisão admirável: “Há quem pareça justo diante dos homens, mas diante de Deus é abominável. A justiça que não nasce da caridade é como o címbalo que retine.”

Meus caros, esta falsa justiça é mais perigosa que o pecado manifesto, pois o pecador reconhece sua miséria e pode converter-se, enquanto o falso justo, cego por sua suposta virtude, fecha-se à graça. Lembremo-nos da parábola do fariseu e do publicano: um saiu justificado do templo, o outro não. E qual dos dois? Precisamente aquele que reconheceu sua indignidade!

Quantos entre nós, caríssimos, não caímos na tentação do “cumprimento mínimo”? Quantos não nos perguntamos: “Qual é o mínimo que preciso fazer para evitar o pecado mortal?” Mas reflitamos: o mínimo para evitar o pecado mortal já é o suficiente para se jogar nele! Seria abominável tratar quem amamos com o mínimo necessário para mantê-lo vivo – um prato de comida, um copo d’água, nada mais. Por que faríamos isso com Deus, que é infinitamente digno de todo nosso amor?

São Gregório Magno penetra no âmago desta questão quando afirma: “A verdadeira justiça tem compaixão; a falsa justiça tem desdém. Os fariseus desprezavam os pecadores, julgando-se puros; mas quem se julga puro está mais manchado.” Eis o perigo terrível do farisaísmo: ele nos cega para nossa própria miséria enquanto nos torna juízes implacáveis dos outros.

Passemos agora, meus caros, ao segundo ponto de nossa meditação. Cristo não se contenta em condenar o homicídio físico; Ele vai à raiz do mal, ao homicídio espiritual que cometemos pela ira. “Ouvistes que foi dito aos antigos: Não matarás. Eu, porém, vos digo que todo aquele que se irar contra seu irmão será réu de juízo.”

Observemos a progressão terrível que o Senhor nos apresenta. Primeiro, “quem se irar” – eis o movimento interior desordenado, o fogo que começa a arder no coração. Depois, “quem disser raca” – o desprezo que transborda em palavras. Por fim, “quem disser louco” – a injúria que destrói a reputação do próximo. São João Crisóstomo comenta dizendo: “Vedes como Cristo equipara a ira ao homicídio? Porque aquele que se ira contra seu irmão, ainda que não o mate com a mão, já o matou com o coração.”

Meus caros, examinemos nossa consciência. Quantas vezes não alimentamos a ira em nosso íntimo? Quantas vezes não remoemos ofensas, reais ou imaginárias, deixando que o veneno do ressentimento corrompa nossa alma? Santo Agostinho nos adverte solenemente: “A ira, se alimentada, torna-se ódio; e o ódio torna o homem homicida, pois está escrito: Quem odeia seu irmão é homicida.”

Mas aqui, permitam-me destacar uma incoerência terrível de nossa parte. Nós, que somos tão prontos a nos irar contra o próximo, que tratamos nossos irmãos com severidade implacável – nós mesmos somos tratados por Deus com infinita paciência! Quantas vezes não pecamos? Quantas vezes não voltamos a cair nas mesmas faltas? E, contudo, Deus não nos fulmina, não nos rejeita, mas espera pacientemente nossa conversão. Como ousamos, então, tratar o próximo com mais severidade que Deus nos trata?

Consideremos ainda as consequências espirituais devastadoras da ira. São Gregório Magno nos ensina: “A ira cega a mente, de modo que não pode discernir o que é reto. Sob seu domínio, o homem perde a luz da razão e age como fera.” Quantas palavras imprudentes não pronunciamos no calor da ira! Quantas decisões desastrosas não tomamos quando dominados por este vício! A ira não apenas nos torna homicidas espirituais; ela destrói nossa paz interior, perturba nossa oração, e nos torna incapazes de perceber a presença de Deus.

A sabedoria dos Padres do Deserto nos adverte: “A ira é um veneno mortífero que, uma vez admitido no coração, corrompe todas as virtudes e transforma o homem em morada de demônios.” Reflitamos: que proveito há em jejuar se alimentamos a ira? Que valor tem nossa esmola se o coração está envenenado pelo rancor? A ira anula nossos méritos e torna vãs nossas boas obras.

São Basílio Magno não poderia ser mais claro: “Nada torna o homem tão semelhante aos demônios como deixar-se dominar pela ira. Pois assim como os demônios estão sempre inflamados de furor, assim o iracundo.” Quando nos deixamos dominar pela ira, meus caros, transformamo-nos em instrumentos do inferno, não do céu.

Chegamos ao terceiro ponto, que é como o coroamento dos anteriores. Cristo não apenas condena a ira; Ele nos mostra o remédio: a reconciliação. “Se estiveres apresentando tua oferta diante do altar e ali te lembrares de que teu irmão tem algo contra ti, deixa tua oferta diante do altar, vai primeiro reconciliar-te com teu irmão, e depois vem apresentar tua oferta.”

Notemos, meus caros conspícuos, a radicalidade desta exigência. Estamos no momento mais sagrado – oferecendo o sacrifício a Deus – e Cristo nos manda interromper tudo para buscar a reconciliação! Como explica Santo Ambrósio: “Se guardas rancor enquanto ofereces teu sacrifício, tua oferenda é rejeitada. Primeiro purifica teu coração, depois apresenta tua oblação.”

Mas aqui é necessário esclarecer um mal-entendido comum. O perdão cristão não é algo sentimental, não é dar as mãos e dançar a ciranda, cantando cantigas de roda, como se nada jamais tivesse acontecido. Não! O perdão cristão é algo muito mais profundo e exigente. É colocar-se diante de Deus como realmente somos – pecadores necessitados de misericórdia – e, desta consciência, nascer o desejo sincero do bem do próximo e a disposição para a caridade.

O verdadeiro perdão não significa fingir que a ofensa não existiu, nem exige que sintamos afeição natural por quem nos feriu. O perdão é um ato da vontade, iluminada pela graça, que escolhe não desejar o mal ao ofensor e, mais ainda, desejar-lhe o bem supremo: a salvação eterna. Podemos perdoar mesmo quando a ferida ainda dói, mesmo quando a memória ainda traz amargura. O perdão não é esquecimento – é transformação do veneno em remédio, da maldição em bênção.

São Vicente de Paulo, mestre da caridade, nos ensina: “A cólera jamais fez bem algum. É preciso conquistar os corações pela doçura e pela paciência, à imitação de Nosso Senhor.” O perdão cristão é, portanto, participação na própria natureza divina, é imitar Cristo que, pregado na cruz, exclamou: “Pai, perdoai-lhes, porque não sabem o que fazem.”

São João Crisóstomo nos exorta: “Não diz Cristo: ‘Se teu irmão tem algo contra ti sem razão’, mas simplesmente: ‘Se tem algo contra ti’. Ainda que seja ele o culpado, cabe a ti dar o primeiro passo.” Eis a nobreza do perdão cristão: não espera que o outro reconheça seu erro; toma a iniciativa da reconciliação.

Santo Agostinho coloca a questão em termos que não admitem evasivas: “Queres que Deus te perdoe? Perdoa tu primeiro. Queres receber misericórdia? Exercita-a com teu próximo. Como podes pedir a Deus o que negas ao teu irmão?” E São Leão Magno acrescenta: “Como ousamos dizer ‘perdoai-nos nossas dívidas’ se nosso coração está fechado ao perdão? Fazemo-nos mentirosos diante de Deus quando pedimos o que não queremos dar.” Ou, poderíamos dizer, consideramos dispensável o perdão de Deus, já que negamos o nosso ao próximo…

Caríssimos fiéis, eis as três lições que o Divino Mestre nos oferece hoje. Primeira: nossa justiça deve brotar do coração, não das aparências. Não basta cumprir exteriormente os preceitos; é preciso que o amor de Deus transforme nosso interior. Segunda: devemos vigiar constantemente contra o veneno da ira, lembrando-nos de que Deus nos trata com infinita paciência, e assim devemos tratar nossos irmãos. Terceira: o perdão não é opcional no cristianismo; é condição indispensável para que nossas orações sejam ouvidas.

Meus caros, quem dentre nós pode dizer que não tem alguma conta a ajustar? Quem pode afirmar que seu coração está completamente livre de ressentimentos? Não saiamos hoje desta capela sem o firme propósito de buscar a reconciliação. Talvez haja alguém a quem precisamos perdoar. Talvez haja alguém a quem precisamos pedir perdão. Não adiantemos desculpas. Não esperemos que o outro dê o primeiro passo.

Permitam-me ser ainda mais concreto. Naquela família onde reina a discórdia há anos, onde irmãos não se falam, onde pais e filhos se tratam como estranhos – ali Cristo está chamando à reconciliação. Naquele ambiente de trabalho envenenado por invejas e maledicências – ali Cristo pede que sejamos instrumentos de paz. Naquele coração que guarda mágoa de uma traição, de uma injustiça sofrida – ali Cristo quer fazer morada, mas só pode entrar se abrirmos-lhe a porta por meio perdão.

São Francisco de Sales, doutor da mansidão, nos exorta: “A mansidão para com o próximo e a humildade para com Deus são as verdadeiras irmãs da caridade; são como duas pérolas preciosas incomparáveis.” Não há caminho para a santidade que não passe pela mansidão e pelo perdão. Podemos praticar todas as devoções, podemos multiplicar nossas penitências, mas se nosso coração permanece duro para com o próximo, tudo é vão.

São Gregório de Nazianzo nos assegura: “Nada agrada tanto a Deus como o perdão das injúrias. É este o sacrifício mais aceito, o incenso mais suave que podemos oferecer ao Altíssimo.” Que doçura experimentaremos quando, libertos do peso do ressentimento, pudermos apresentar a Deus um coração purificado! Que paz inundará nossa alma quando, reconciliados com nossos irmãos, pudermos rezar com sinceridade: “Perdoai-nos assim como nós perdoamos!”

Santo Afonso de Ligório nos recorda uma verdade fundamental: “A medida do nosso amor a Deus é o amor que temos ao próximo. Quem diz amar a Deus e guarda ódio no coração é mentiroso.” Não nos enganemos, meus caros. Não é possível estar em paz com Deus enquanto estamos em guerra com o próximo.

Que a Santíssima Virgem, Mãe de Misericórdia, nos alcance a graça de imitar seu Divino Filho na mansidão e no perdão. Ela, a mãe das Dores, que ao pé da cruz perdoou os algozes de seu Filho, nos ensine a perdoar. Ela, que nunca conheceu a mancha do pecado, nos ajude a superar a falsa justiça dos fariseus. Ela, que é Sede da Sabedoria, nos mostre o caminho da verdadeira santidade.

O Antoniano