Sermão para o I Domingo do Advento
Pe. Marcos Vinicius Mattke, IBP
Saint Louis-MO, EUA
30 de novembro de 2025 A.D.
“Vox clamantis in deserto: Parate viam Domini” (Is. XL, 3; Mt. III, 3)
Caríssimos fiéis,
Nossa santa Romana Igreja dá início a um novo ano litúrgico com o primeiro Domingo do advento. O novo ano e o novo tempo litúrgico do advento do Senhor e com ele somos conduzidos a contemplar dois horizontes: o da primeira vinda de Cristo, na humildade da carne, e o da segunda, na majestade da glória. Para ambas as vindas, porém, uma coisa é absolutamente necessária: a preparação.
São Bernardo nos ensina que há na verdade três vindas do Senhor: “Duas são as vindas do Senhor: uma já realizada, outra ainda esperada. Na primeira, Ele veio em carne frágil; na segunda, virá em majestade. Mas há uma vinda intermediária, oculta, pela qual Ele vem aos eleitos e neles estabelece sua morada”. Eis, meus caros, o mistério do Advento: preparar-nos não apenas para celebrar uma memória do passado, nem somente para aguardar um evento futuro, mas para receber Cristo agora, hoje, em nossos corações.
E quem nos ensinará a fazer esta preparação? A Providência divina suscitou dois grandes mestres, dois arautos insignes que anunciam a Cristo: Isaías, o profeta que viu de longe, e São João Batista, o Precursor que viu de perto. Neles encontramos o modelo perfeito de como devemos dispor nossas almas para o Natal do Senhor.
I. Isaías: o profeta da esperança
Consideremos, meus caros, primeiramente a figura de Isaías. Este grande profeta exerceu seu ministério numa época de profunda crise espiritual. O povo de Israel havia abandonado o Senhor, os reis eram ímpios, o culto estava corrompido. Trevas densas cobriam a terra prometida. E, no entanto, foi precisamente neste contexto sombrio que Deus concedeu a Isaías contemplar, ainda que de longe, a aurora da Redenção.
São Jerônimo afirma com admiração: “Isaías não parece tanto um profeta que prediz o futuro, quanto um evangelista que narra o passado. Com tanta clareza descreveu os mistérios de Cristo e da Igreja, que diríeis não estar ele vaticinando coisas incertas, mas compondo a história de eventos já realizados”. Por isso a tradição o chama de “Evangelista do Antigo Testamento”. Isaías viu a Virgem que conceberia, o Emanuel que nasceria, o Servo sofredor que carregaria nossos pecados.
Mas notemos bem, meus caros, qual é o tom dominante da profecia de Isaías: “Consolai, consolai o meu povo” (Is. XL, 1). Eis a mensagem: consolação, esperança, confiança. Mesmo em meio às ruínas, mesmo cercado de pecados e infidelidades, o profeta anuncia que Deus virá salvar. Santo Agostinho compara Isaías a um sentinela colocado sobre alta torre: “O profeta, como sentinela posta sobre alta torre, contemplava já de longe Aquele que havia de vir. E quanto mais se aproximava a plenitude dos tempos, tanto mais clara se tornava sua visão”.
Que lição tiramos daqui? Também nós vivemos tempos difíceis. Também nós vemos a fé enfraquecer, a Igreja ser perseguida, os costumes se corromperem. A apostasia se espalha, o naturalismo domina as mentes, e muitos já nem sequer esperam coisa alguma do Céu. E, no entanto, meus caros, não devemos perder a esperança. Seria um erro gravíssimo. O Advento nos impele a erguer os olhos acima das misérias presentes e contemplar Aquele que vem. Isaías ensina que a escuridão mais densa precede a aurora mais luminosa. Se o profeta manteve acesa a chama da esperança em tempos de idolatria e ruína, quanto mais devemos nós, que já conhecemos o Redentor, confiar nas promessas divinas!
II. São João Batista: a voz que clama no deserto
Se Isaías viu de longe, São João Batista viu de perto. Ele é mais que profeta, como declarou o próprio Cristo (Mt. XI, 9). É a ponte viva entre o Antigo e o Novo Testamento, o amigo do Esposo, aquele que preparou imediatamente os caminhos do Senhor.
Santo Agostinho, com sua habitual profundidade, explica a diferença entre São João e Cristo: “João é a voz, mas o Senhor é o Verbo que no princípio já existia. João é a voz por um tempo; Cristo é o Verbo eterno desde o princípio. Tira a palavra, que é a voz? Um ruído vazio. A voz sem a palavra fere o ouvido, mas não edifica o coração”. São João, portanto, é voz que passa para dar lugar ao Verbo que permanece. Sua grandeza está precisamente em diminuir para que Cristo cresça.
Mas consideremos o programa de São João Batista: “Preparai os caminhos do Senhor, endireitai as suas veredas” (Mt III, 3). São Gregório Magno desenvolve esta imagem com clareza: “Que significa preparar o caminho do Senhor senão pregar a humildade e abater a soberba? Os montes e colinas são os soberbos; os vales, os humildes. Venha, pois, o Senhor, e aplaine os montes, encha os vales, para que o caminho se torne plano”.
Notemos ainda, meus caros, que São João Batista não pregava em palácios nem em sinagogas, mas no deserto. Santo Ambrósio comenta: “João pregava no deserto para nos ensinar que as vozes divinas só são ouvidas por aqueles que se afastam do tumulto do mundo. Deus fala na solidão do coração”. E sua própria vida era uma pregação silenciosa: vestido de peles de camelo, alimentado de mel silvestre e gafanhotos, austero e recolhido. Sua figura é uma censura viva contra a sensualidade, a moleza, o apego às comodidades que tanto nos escravizam.
Observemos o contraste, meus caros: o mundo prepara o Natal com luzes, banquetes, compras e agitação; São João Batista nos ensina a prepará-lo com silêncio, jejum, oração e penitência. Qual dos dois caminhos conduzirá a Cristo? A resposta é evidente. Não nos deixemos arrastar pela corrente do século. O espírito de São João Batista deve ser o nosso espírito neste tempo sagrado.
III. Nossa preparação para o Natal
Temos, portanto, dois mestres: Isaías nos ensina a esperança que aguarda com confiança; São João Batista nos ensina a penitência que remove os obstáculos. Ambas as atitudes são necessárias.
São Bernardo une estas duas dimensões numa exortação prática: “Não basta esperar a Cristo; é preciso preparar-lhe o caminho. E o caminho de Cristo é o coração do homem. Preparemos, pois, nossos corações pela humildade, limpemo-los pela confissão, adornemo-los pela caridade”.
E quais são, concretamente, os meios de que devemos lançar mão neste Advento?
Primeiro, a confissão sacramental. Não podemos receber dignamente o Rei se a casa está cheia de imundície. É preciso varrer os pecados, remover as pedras de tropeço, limpar a estrada do coração. Se ainda não fizemos uma boa confissão, este é o momento. O sacramento da Penitência é o grande instrumento para aplainar os caminhos do Senhor em nós.
Segundo, o recolhimento. Criar em nós aquele deserto interior onde a voz de Deus possa ser ouvida, especialmente neste tempo em que o mundo se entrega a festas ruidosas e distrações vãs. Mortificarmos nos prazeres lícitos, reduzindo as diversões, os entretenimentos, o uso excessivo das coisas que dispersam o espírito.
Terceiro, a mortificação. Pequenos sacrifícios que aplanam os montes da soberba e enchem os vales da pusilanimidade. Um jejum, uma privação aceita com amor, uma palavra áspera suportada em silêncio.
Quarto, a oração mais fervorosa, especialmente a meditação dos mistérios da Encarnação. Consideremos frequentemente o Verbo eterno que se faz carne, o Infinito que se encerra num presépio, o Todo-Poderoso que se faz menino. Tais considerações inflamam o coração e dispõem a alma para receber o Salvador.
Santo Afonso Maria de Ligório resume admiravelmente: “Se queres que Cristo venha a ti e permaneça contigo, prepara-lhe uma digna morada. Varre a casa de todo pecado, adorna-a com as flores das virtudes, perfuma-a com o incenso da oração.”
Peroração
Meus caros, Isaías contemplou de longe e esperou. São João Batista viu de perto e apontou: “Eis o Cordeiro de Deus.” Nós, porém, somos mais afortunados ainda: não apenas esperamos e vemos, mas recebemos o próprio Cristo na Sagrada Comunhão. Que preparação não deveríamos fazer!
Bossuet, o grande orador sagrado, deixou-nos esta reflexão impressionante: “Ó cristãos, considerai que aquela mesma carne que a Virgem deu à luz no presépio, vós a recebeis no altar. Não sejais, pois, menos preparados que a gruta de Belém, que ao menos estava limpa e silenciosa.”
Peçamos à Santíssima Virgem Maria, que melhor do que todos preparou a vinda do Salvador, pois preparou-lhe não apenas o caminho, mas o próprio corpo sacratíssimo , que nos alcance a graça de bem empregarmos este tempo santo. Que o Natal não seja para nós apenas uma festa exterior, mas um verdadeiro nascimento de Cristo em nossos corações. Que possamos cantar com a Igreja, cheios de esperança e de fervor: Rorate, caeli, desuper, et nubes pluant Justum, destilai, ó céus, lá do alto, e as nuvens chovam o Justo.


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