[Sermão] “E se não tenho nada para confessar?” ou o alerta da cegueira espiritual

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Sermão para o X Domingo depois de Pentecostes
Pe. Marcos Vinicius Mattke, IBP

Brasília-DF, 17 de agosto de 2025 A.D.

Caríssimos fiéis,

No Evangelho deste décimo Domingo depois de Pentecostes nossa Santa Romana Igreja coloca diante de nossos olhos um espelho divino. Nele contemplamos dois homens que sobem ao templo para fazer suas orações: um fariseu e um publicano. Dois homens, duas orações, dois destinos. Um desce justificado, o outro condenado por sua própria boca.

Como bem nos ensina São Gregório Magno, “a Sagrada Escritura é como um espelho posto diante dos olhos de nossa alma, para que nela vejamos nossa face interior”. Hoje, meus caros, este espelho nos mostra uma verdade incômoda: quantas vezes subimos ao templo como o fariseu, convencidos de nossa justiça, cegos para nossos pecados, surdos à voz da consciência que deveria nos acusar?

I. O fariseu: espelho da cegueira espiritual

Contemplemos primeiro o fariseu. Ele está de pé – e notemos bem esta postura, meus caros –, ereto em sua soberba, e começa sua oração: “Ó Deus, graças te dou porque não sou como os demais homens”. Que terrível começo de oração! Sobe ao templo não para pedir, mas para se vangloriar; não para confessar seus pecados, mas para enumerar suas supostas virtudes.

E aqui Santo Agostinho observa: “O fariseu subia para orar, mas não queria rogar a Deus, senão louvar-se a si mesmo. Pouco era não orar; ainda insultava ao que orava”. Eis aqui, meus caros, o primeiro sinal da cegueira espiritual: quando nossa oração se transforma em catálogo de méritos, quando diante do Altíssimo só sabemos falar de nós mesmos.

Mas notemos algo ainda mais grave. O fariseu não se contenta em enumerar suas obras – jejua duas vezes por semana, paga o dízimo de tudo –, mas necessita comparar-se: “não sou como os demais homens, ladrões, injustos, adúlteros, nem como este publicano”. São João Crisóstomo nos adverte: “Vês como o demônio o enganou? Fê-lo subir ao templo não para orar, mas para insultar ao que orava com ele”.

A comparação com os outros é sempre sinal de orgulho espiritual. Quando nos medimos pelos defeitos alheios e não pela santidade de Deus, já estamos perdidos. São Bernardo de Claraval sentencia com severidade: “Nada torna o homem tão abominável diante de Deus e dos homens como o amor da própria excelência”.

Esta é a tragédia do fariseu: sua religião tornou-se teatro, sua piedade transformou-se em espetáculo, sua oração converteu-se em monólogo narcisista. Santo Tomás de Aquino nos explica a raiz deste mal: “A soberba tem isto de próprio: não se submeter a nenhum superior e, consequentemente, nem a Deus e às suas leis”. O fariseu pratica atos religiosos, mas seu coração está fechado à graça. Cumpre preceitos, mas desconhece a misericórdia. Observa a lei, mas ignora o amor.

II. O publicano: modelo de verdadeiro conhecimento de si

Voltemos agora nosso olhar para o publicano. Que contraste, meus caros! “Conservando-se afastado, nem ainda ousava levantar os olhos ao céu, mas batia no peito”. Cada gesto fala de humildade: mantém-se à distância, reconhecendo sua indignidade; não levanta os olhos, consciente de sua culpa; bate no peito, em sinal de contrição.

E sua oração? Apenas algumas poucas palavras no original grego: ὁ θεός, ἱλάσθητί μοι τῶ ἁμαρτωλῶ, “Ó Deus, tende piedade de mim, pecador!” Nada de catálogos de virtudes, nada de comparações, nada de justificativas. Apenas o reconhecimento nu e cru de sua miséria e a súplica confiante na misericórdia divina.

São João Clímaco, grande mestre da vida espiritual, nos ensina: “A humildade é uma graça da alma que só tem nome conhecido daqueles que a experimentaram”. O publicano conhece esta graça. Ele sabe quem é diante de Deus: um pecador necessitado de perdão. E é precisamente este conhecimento que o salva.

Santa Teresa de Ávila, com sua costumeira clareza, define: “A humildade é andar em verdade, que é muito grande verdade não ter coisa boa de nós, senão a miséria e ser nada”. O publicano anda nesta verdade. Não se engana sobre si mesmo, não se ilude com falsas virtudes, não se cega com comparações vantajosas.

Meus caros, eis aqui a diferença fundamental: o fariseu olha para si e vê uma perfeição que não existe; o publicano olha para Deus e vê sua própria miséria. O fariseu mede-se pelos homens e julga-se superior; o publicano mede-se por Deus e reconhece-se pecador. O fariseu exige recompensa; o publicano implora misericórdia.

III. O exame de consciência: luz contra a cegueira

Mas como podemos nós, caríssimos fiéis, evitar a cegueira do fariseu e alcançar a lucidez do publicano? A resposta está numa prática fundamental da vida cristã, hoje tão esquecida: o exame de consciência diário.

Santo Inácio de Loyola, mestre incomparável da vida espiritual, afirmava: “O exame de consciência cotidiano é mais importante que a própria meditação, pois por ele conhecemos nossos defeitos e podemos emendá-los”. Notemos bem: mais importante que a própria meditação! Por quê? Porque sem o conhecimento de nossas misérias, toda nossa vida espiritual edifica-se sobre areia. Sem o exame de consciência não é possível haver uma verdadeira meditação. Cego para si, a meditação não passará de um exercício intelectual.

São Francisco de Sales usa uma imagem belíssima: “Assim como aqueles que caminham de noite levam luz para ver o caminho e evitar o perigo, assim o exame de consciência é a luz que nos mostra os perigos da alma”. Caminhamos, meus caros, em noite escura. O pecado original obscureceu nossa inteligência e debilitou nossa vontade. Sem a luz do exame de consciência, tropeçamos e caímos sem sequer perceber.

Mas aqui surge uma objeção que alguns podem eventualmente levantar: “Padre, examino minha consciência e não encontro nada para confessar”. Aí deve soar um alarme: ou se é um santo ou um cego. Ora, os santos sempre se consideraram grandes pecadores, pois quanto maior a santidade, maior a sensibilidade às menores imperfeições. Ou seja, meus caros, quando isso acontece, temos um sinal inequívoco de cegueira espiritual! A Escritura é clara: “O justo peca sete vezes ao dia”. Se o justo peca sete vezes, o que dizer de nós?

Cassiano nos oferece uma explicação luminosa: “Quanto mais alguém se aproxima da luz, tanto mais vê as manchas que antes não percebia. Assim, quanto mais perto está de Deus, mais pecador se reconhece”. É como entrar numa casa escura com uma vela: primeiro vemos apenas os móveis maiores; à medida que nossos olhos se acostumam e a luz aumenta, percebemos a poeira, as teias de aranha, a sujeira nos cantos.

São Gregório Magno confirma: “Quanto mais os santos progridem, mais se veem imperfeitos, porque à medida que se aproximam da luz, melhor veem as sombras que em si trazem”. Os santos, meus caros, não são aqueles que não pecam, mas aqueles que conhecem profundamente sua miséria e recorrem constantemente à misericórdia divina.

IV. Sinais de alarme

Quando alguém diz que não encontra o que confessar, reitero, deve soar o alarme da tibieza espiritual. São João da Cruz é categórico: “É impossível que uma alma, ainda que muito perfeita, deixe de ter em que se emendar e purificar”. E São Boaventura sentencia brevemente: “Aquele que diz não ter pecado é mentiroso ou está cego”.

Pensemos, meus caros, em nossos dias recentes. Quantas vezes faltamos à caridade em pensamento, palavra ou obra? Quantas vezes nossa oração foi distraída, mecânica, rotineira? Quantas vezes cedemos à impaciência, à ira, à murmuração? Quantas vezes julgamos o próximo? Quantas vezes fomos negligentes em nossos deveres de estado?

São Bernardo nos adverte: “Nada há mais perigoso que a segurança; nada mais seguro que o temor”. A falsa segurança do fariseu o perdeu; o santo temor do publicano o salvou. Quando nos sentimos seguros, quando achamos que estamos bem, quando não vemos nossos pecados – eis o momento de maior perigo!

São Luís Maria Grignion de Montfort sintetiza magistralmente: “A maior desgraça é não conhecer suas desgraças”. Vivemos, meus caros, numa época que perdeu o sentido do pecado. O mundo nos diz que tudo é relativo, que não há bem nem mal absolutos, que cada um tem sua verdade. Esta mentalidade infiltra-se sutilmente em nossa alma e adormece nossa consciência.

V. Remédios práticos

Mas não basta diagnosticar o mal; precisamos aplicar o remédio. Permitam-me, caríssimos fiéis, propor um método simples e eficaz, praticado pelos santos através dos séculos.

Primeiro, o exame particular. Pela manhã, ao despertar, façamos nossa meditação e firmemos um propósito específico: hoje, com a graça de Deus, evitarei tal defeito, praticarei tal virtude, as ocasiões prováveis serão tal e tal. Ao meio-dia, recolhemo-nos por dois minutos: como foi a manhã? Caí? Quantas vezes? Renovemos então o propósito para a tarde. À noite, antes de dormir, novo exame: como foi o dia? Perpassemos o decálogo, ao menos por cinco minutos, e façamos o ato de contrição. São Basílio Magno insiste: “Cada noite, antes de dormir, peçamos conta à nossa consciência das ações do dia”.

Segundo, a confissão frequente. São Carlos Borromeu ensinava: “A confissão frequente é o remédio mais eficaz contra a tibieza e a cegueira espiritual”. Não esperemos ter pecados mortais para nos confessar. São Felipe Neri aconselhava: “Quem quer fazer progresso na vida espiritual deve confessar-se com frequência e sempre dos mesmos pecados veniais”.

Sim, meus caros, dos mesmos pecados veniais! Porque é na luta constante contra as pequenas faltas que fortalecemos nossa alma contra as grandes quedas. É combatendo a impaciência cotidiana que nos prevenimos contra a ira grave. É vencendo as pequenas gulas que nos fortificamos contra a intemperança.

Conclusão

Caríssimos fiéis, a parábola de hoje termina com palavras severas: “Este desceu justificado para sua casa, e não o outro”. O publicano, pecador público, sai perdoado. O fariseu, religioso observante, sai condenado por sua própria soberba.

Santo Agostinho nos deixa uma advertência final: “Se dizes ‘sou justo’, és soberbo. Se dizes ‘sou pecador’ e não o crês, és mentiroso. Dize ‘sou pecador’ e crê-o, e serás verdadeiro”.

Meus caros, fujamos da sorte do fariseu. Quando nos ajoelharmos para rezar, quando nos aproximarmos do confessionário, quando assistirmos à Santa Missa, façamo-lo com o espírito do publicano. Reconheçamos nossa miséria, confessemos nossos pecados, imploremos a misericórdia divina.

Que Nossa Senhora, speculum justitiae, Espelho de Justiça, nos alcance a graça de ver-nos como Deus nos vê. Que possamos repetir cada dia, do fundo do coração, com sincera contrição: “Deus, tende piedade de mim, pecador!”

E para que estas palavras não fiquem apenas em piedosa intenção, assumamos hoje mesmo um compromisso concreto: antes de dormir, façamos cinco minutos de exame de consciência. Apenas cinco minutos, meus caros. E marquemos nossa próxima confissão. Não deixemos para depois o que pode ser o início de nossa verdadeira conversão.

Desçamos hoje desta capela justificados, não pela enumeração de nossas virtudes imaginárias, mas pelo reconhecimento humilde de nossa miséria e pela confiança ilimitada na misericórdia daquele que veio chamar não os justos, mas os pecadores ao arrependimento.

Comentários

Uma resposta para “[Sermão] “E se não tenho nada para confessar?” ou o alerta da cegueira espiritual”

  1. Maria Socorro

    Parabéns Padre, este Sermão é muito edificante! Grata.

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