Sermão para o IV Domingo depois de Pentecostes
Pe. Marcos Vinicius Mattke, IBP
Brasília-DF, 06 de julho de 2025 A.D.
Caríssimos fiéis,
Nossa santa Romana Igreja dirige a Deus neste quarto Domingo depois de Pentecostes uma oração de singular beleza e profundidade: “Da nobis, quæsumus, Dómine: ut et mundi cursus pacífice nobis tuo órdine dirigátur; et Ecclésia tua tranquílla devotióne lætétur.” Pedimos a Deus que o curso do mundo seja dirigido pacificamente segundo Sua ordem, e que a Igreja se alegre em tranquila devoção.
Esta oração, meus caros, contém em si toda a doutrina sobre a Divina Providência que hoje contemplaremos à luz dos textos sagrados. Como o navegante que fixa os olhos na estrela polar, fixemos nossa atenção nesta verdade fundamental: Deus governa todas as coisas com sabedoria infinita e amor paternal, sendo Ele o fundamento inabalável de nossa confiança.
O Evangelho de hoje apresenta-nos um episódio admirável e cheio de significado. Cristo sobe à barca de Pedro e, dali, ensina as multidões. Terminado o ensinamento, ordena ao Príncipe dos Apóstolos e primeiro papa: “Duc in altum”, “Faze-te ao largo e lançai as redes para a pesca.”
São Pedro, experiente pescador, responde com palavras que revelam ao mesmo tempo o fracasso humano e a confiança divina: “Mestre, trabalhamos toda a noite e nada apanhamos; mas, sobre tua palavra, lançarei as redes.”
Eis aqui, meus caros, o primeiro ensinamento sobre a Providência. A noite infrutífera representa nossos esforços meramente humanos, nossas tentativas de governar a vida segundo nossos próprios planos. Quantas vezes não trabalhamos arduamente, aplicamos toda nossa ciência e experiência, e contudo… nada apanhamos!
Mas quando obedecemos à palavra divina, quando reconhecemos a Sabedoria divina, infinitamente superior, governando todos os acontecimentos, então as redes se enchem miraculosamente. São João Crisóstomo assim comenta esta passagem: “Vede como o Senhor conduz todas as coisas! Pedro havia trabalhado toda a noite e nada apanhara; mas quando obedeceu à palavra do Senhor, encheu as redes. Assim é a Providência: quando parece abandonar-nos, está preparando maiores benefícios.”
A ordem do universo inteiro proclama esta verdade. O sol que nasce cada manhã, as estações que se sucedem, o grão que germina na terra – tudo obedece a uma ordem admirável. Se Deus cuida assim das criaturas inferiores, quanto mais não cuidará de nós, criados à Sua imagem e semelhança!
Meus caros, lembremos que Deus não nos arma ciladas. Esta verdade precisa estar inscrita em nossos corações, especialmente quando as aparências sugerem o contrário. O pescador que lança a rede não pretende mal aos peixes que alimentarão sua família; o jardineiro que poda a videira não deseja destruí-la, mas fazê-la frutificar mais abundantemente. Assim também nosso Pai celestial ordena todos os acontecimentos – prósperos ou adversos – para nosso verdadeiro bem.
Santo Agostinho, em sua obra monumental “A Cidade de Deus”, ensina-nos: “A Providência divina não somente se estende aos gêneros e às espécies, mas a cada um dos indivíduos.” Cada um de nós, meus caros, é objeto do cuidado particular de Deus. Não somos números numa multidão anônima, mas filhos conhecidos pelo nome, amados individualmente. Nosso Senhor não morreu por uma humanidade abstrata, mas pensou em cada um de nós, pessoalmente, do alto da cruz.
Mas eis que surge uma objeção em nossos corações. Se Deus nos ama e cuida de nós, por que permite o sofrimento? Por que a noite infrutífera precede a pesca milagrosa? Por que o grão deve morrer na terra antes de produzir fruto?
São Paulo, na Epístola de hoje, responde a estas angústias com palavras firmes e claras: “Existimo enim quod non sunt condignæ passiones hujus temporis ad futuram gloriam quæ revelabitur in nobis”, “Tenho para mim que os sofrimentos do tempo presente não têm proporção com a glória futura que se há de revelar em nós.”
Notemos bem, meus caros: o Apóstolo não nega a realidade do sofrimento. Não nos oferece um otimismo barato que fecha os olhos à dor. Pelo contrário, ele nos fala de “gemidos” e “dores de parto” que afligem toda a criação. Mas estes gemidos não são as agonias da morte, são as dores que anunciam um nascimento.
São Gregório Magno, contemplando este mistério, escreveu: “Os males temporais que sofremos nos reconduzem a Deus. A adversidade que exteriormente nos aflige, interiormente nos reforma.” Assim como o ourives purifica o ouro no fogo, assim como o escultor deve golpear o mármore para revelar a beleza oculta, assim a Providência permite certas tribulações para nossa santificação.
São Pedro e seus companheiros haviam pescado toda a noite sem resultado. Esta aparente derrota era parte do plano divino. Era necessário que experimentassem sua própria impotência para que pudessem reconhecer o poder de Deus. Era necessário que suas redes voltassem vazias para que pudessem admirar-se quando voltassem cheias.
São Leão Magno expressa esta verdade com clareza: “A Providência divina permite as tentações não para nossa ruína, mas para nossa coroa.” Cada prova superada, cada noite atravessada com paciência, cada lágrima derramada com fé, transforma-se em pérola para nossa coroa eterna.
Diante destas verdades, meus caros, qual deve ser nossa atitude? O Evangelho nos mostra em Pedro o modelo perfeito. “In verbo autem tuo laxabo rete”, “Mas sobre tua palavra lançarei a rede.”
Observemos a delicadeza desta resposta. São Pedro não esconde sua experiência de fracasso: “trabalhamos toda a noite e nada apanhamos.” Não finge um otimismo que não sente. Mas também não se fecha na amargura ou na desconfiança. Sua experiência humana inclina-o ao ceticismo, mas sua fé leva-o à obediência.
Meus caros, aqui tocamos num ponto crucial que muitas almas piedosas não compreendem. A confiança na Providência não é primariamente um sentimento, mas um ato da inteligência iluminada pela fé e da vontade conformada com a vontade divina. Não precisamos sentir esta confiança para que ela seja verdadeira e meritória. Se sentimos algo pode ser qualquer coisa, até dor de barriga, o que importa é o que nossa inteligência indica e o que nós queremos de forma inteligente. O que precisamos é saber – com a certeza que nos dá a fé – que Deus é infinitamente bom, que é onipotente, e que governa todas as coisas para nosso bem. E, sabendo isto, precisamos querer o que Ele quer para nós.
Não nos iludamos: continuaremos muitas vezes a sentir temor diante do futuro incerto, a experimentar a angústia do desamparo quando as provações nos visitam. São Pedro certamente sentiu o peso da noite infrutífera, a fadiga do trabalho vão. Mas a verdadeira confiança não consiste em não sentir estas coisas – consiste em, apesar de senti-las, saber que não estamos desamparados e querer sinceramente o que Deus dispõe para nós. A confiança autêntica está fundada na inteligência que conhece a verdade sobre Deus e na vontade que adere a esta verdade, não nas flutuações de nossa sensibilidade.
Esta é a verdadeira confiança na Providência: não uma expectativa ingênua de que tudo será fácil, mas uma certeza serena de que Deus sabe o que faz, mesmo quando nós não compreendemos. São João Damasceno define com precisão: “A Providência é a vontade de Deus pela qual todas as coisas existentes recebem sua direção conveniente.”
Nossa confiança apoia-se em três colunas inabaláveis:
Primeiro, a onipotência divina. Aquele que disse “lançai as redes” é o mesmo que criou os mares e os peixes. Nada escapa ao Seu poder, nada pode frustrar Seus desígnios. Se Ele quer nosso bem – e sabemos que quer – nada poderá impedi-lo de realizá-lo.
Segundo, a sabedoria infinita. Deus vê o fim desde o princípio. Conhece todas as consequências de cada acontecimento. O que para nós parece desordem e acaso, para Ele é ordem perfeitíssima. Como a tapeçaria vista pelo avesso mostra apenas fios emaranhados, mas vista pelo direito revela um desenho magnífico, assim os acontecimentos de nossa vida, vistos do lado da eternidade, revelam um plano admirável.
Terceiro, o amor paternal. Esta é talvez a verdade mais consoladora. Deus não nos governa como um monarca distante governa seus súditos, mas como um pai governa sua casa. São Bernardo de Claraval expressa isto com ternura incomparável: “Aquele que se entrega totalmente à Providência divina é como a criança nos braços da mãe: dorme tranquila porque sabe que é amada.”
Meus caros conspícuos, ao contemplarmos hoje o mistério da Divina Providência, levemos conosco estas verdades como um tesouro.
Quando a noite parecer longa e infrutífera, lembremos que Deus prepara auroras de abundância. Quando as redes voltarem vazias, confiemos que Ele sabe a hora certa de enchê-las. Quando a cruz pesar sobre nossos ombros, recordemos que os sofrimentos presentes não têm proporção com a glória futura. E mais ainda, meus caros: lembremos que no caminho do Calvário, foi Cristo quem carregou o peso da cruz durante a maior parte do trajeto. Ao Cirineu – e nele estamos representados todos nós – coube apenas um pequeno trecho. Não porque o Senhor necessitasse de ajuda, mas para que pudéssemos ter parte na glória que Ele conquistava. Como ensina São Leão Magno: “O Redentor quis associar-nos à sua paixão para que fôssemos também associados à sua glória. Carregou Ele o peso maior para que o nosso jugo fosse suave e o nosso fardo leve.”
São Cipriano, bispo e mártir, deixou-nos esta sentença lapidar: “Nada acontece sem Deus, porque Ele está em todo lugar e tudo vê e tudo governa, mesmo os mínimos acontecimentos.” Até o número de nossos cabelos está contado. Até o pardal que cai não escapa ao olhar providente de nosso Pai.
Façamos nossa, portanto, a oração da Igreja: que Deus dirija o curso de nossas vidas segundo Sua ordem sapientíssima. Abandonemo-nos em Suas mãos como Pedro abandonou suas redes vazias à palavra de Cristo. E então experimentaremos também nós a abundância da pesca milagrosa, não apenas em bens temporais, mas sobretudo em graças espirituais.
Que Nossa Senhora, a Virgem Santíssima que disse “Faça-se em mim segundo a Vossa palavra”, nos ensine esta confiança filial. Que São José, o justo que obedeceu sem questionar aos desígnios divinos, interceda por nós. E que todos os santos, que navegaram seguros pelo mar tempestuoso desta vida fiados na Providência, sejam nossos guias e protetores.
“Todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus”, prometeu-nos o Apóstolo. Amemos, pois, confiemos e esperemos. A Providência que hoje guia nossos passos é a mesma que um dia nos acolherá na pátria celeste, onde compreenderemos plenamente o que agora vemos como em espelho.


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