[Sermão] Da indiferença à salvação: como aproveitar bem a confissão

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Sermão para o XIX Domingo depois de Pentecostes
Pe. Marcos Vinicius Mattke, IBP

Brasília-DF, 19 de outubro de 2025 A.D.
Capela Nossa Senhora das Dores

Caríssimos fiéis,

Amice, quómodo huc intrásti non habens vestem nuptiálem?”, “amigo, como entraste aqui sem a veste nupcial?” Esta pergunta terrível, que o Rei dirige ao infeliz convidado na parábola que nossa Santa Romana Igreja nos apresenta no evangelho deste domingo, deveria ecoar constantemente em nossos ouvidos. Não é uma pergunta retórica, meus caros. É o questionamento que cada um de nós enfrentará no momento derradeiro, quando formos apresentados diante do trono do Juiz Eterno.

São João Crisóstomo nos ensina que “a veste nupcial é a graça do Espírito Santo e o esplendor que vem do alto”. Não se trata, portanto, de mero ornamento exterior, mas da própria vida divina que deve revestir nossa alma. Hoje, através desta parábola do banquete nupcial, Cristo nos convida a examinar se portamos dignamente esta veste, ou se, como tantos de nossos contemporâneos, caminhamos despidos espiritualmente, iludidos pela aparência de estarmos dentro da Igreja.

A terrível realidade da eternidade

Meus caros, vivemos em tempos de deturpação açucarada da verdade. Deturpa-se o amor de Deus, como se fosse ele um hippie que permite tudo, enquanto silencia-se sobre sua justiça (a não ser que você seja considerado um rígido, claro, aí esta seria implacável). Contudo, a parábola de hoje não nos permite tal ilusão. O banquete celestial não é uma metáfora poética inventada para consolar crianças; é realidade mais concreta que este púlpito, mais certa que a morte que nos aguarda.

Santo Agostinho adverte com severidade: “É coisa horrível cair nas mãos do Deus vivo. Quem não teme cair, não pode evitar a queda”. Observemos bem o que acontece na parábola: o Rei entra para inspecionar os convivas. São Gregório Magno nos explica esta cena: “O Rei entra para ver os convivas, porque no dia do juízo examinará os corações de todos os que agora estão na Igreja”.

E qual foi o destino do homem sem a veste nupcial? Não recebeu uma advertência. Não lhe foi oferecida segunda chance. Emudeceu diante do Rei (pois que desculpa poderia apresentar?) e foi lançado nas trevas exteriores, onde há choro e ranger de dentes. Eis a sorte eterna dos réprobos. “Multi sunt vocáti, pauci vero elécti”, muitos são os chamados, poucos os escolhidos.

Santo Afonso de Ligório não hesita em afirmar: “Aquele que não está preparado para morrer hoje, corre grande risco de fazer má morte”. Quantos de nós, meus caros, estamos verdadeiramente preparados? Quantos podem dizer com sinceridade que, se a morte viesse buscá-los ao sair desta igreja, estariam revestidos da veste nupcial? Devemos considerar com sinceridade e de forma conseqüente essa realidade.

O veneno da indiferença

Mas examinemos mais de perto os primeiros convidados da parábola. O texto sagrado diz simplesmente: “Illi autem neglexérunt”, eles, porém, não fizeram caso. Não disseram que odiavam o rei. Não se revoltaram abertamente. Simplesmente… não fizeram caso. Um tinha negócios a tratar, outro seu campo a cultivar, outro seu comércio. Coisas lícitas, necessárias até. Mas que se tornaram desculpas para recusar o convite divino.

São Bernardo de Claraval considera esta questão: “Muitos se perdem não por fazer o mal, mas por negligenciar o bem”. Eis o grande mal de nosso tempo, caríssimos: não o ateísmo declarado, mas a indiferença prática. Quantos católicos vivem como se Deus fosse uma formalidade dominical! São João Crisóstomo repreende esta atitude: “Quando Deus chama, todas as ocupações terrenas devem ceder lugar”.

Consideremos nossa própria vida. Acaso assistimos à Missa aos domingos, contanto que não haja impedimento supostamente “importante”? Acaso uma visita, uma festa de aniversário, um passeio há muito planejado, até mesmo o cansaço da semana, tornam-se razões suficientes para faltar ao preceito dominical. Rezamos nossas orações, mas quando quando sobra tempo. O terço prometido a Nossa Senhora fica para depois, sempre para depois, até que o dia termina e dormimos sem ter dedicado quinze minutos àquela que é nossa Mãe. Confessamo-nos só de vez em quando como quem paga um imposto desagradável? Fazemos planos de estudar o catecismo, ler algum livro de piedade, praticar a meditação, mas nunca colocamos em prática? Acaso nossa confissão é só um pedágio para garantir a comunhão dominical, para durante a semana calcarmos ao pé a graça com o pecado mortal?

E o pior, meus caros, é que nos julgamos bons católicos! Comparamo-nos com os que nunca vão à igreja, que estão escravos da abominação do mundo, e nos damos por satisfeitos. São Leonardo de Porto Maurício não hesita em dizer palavras que deveriam fazer-nos tremer: “De cem mil pessoas, apenas uma se salva das que vivem tibiamente”. Santa Teresa de Ávila tem palavras severas para as almas tíbias: “Entendei que vos faz mais guerra o demônio que a muitas que já se determinaram a ser de Deus”.

As desculpas que apresentamos são sempre as mesmas. “Não tenho pecados graves”, dizemos, enquanto nossa alma está carcomida de pequenas infidelidades. A maledicência habitual, as pequenas desonestidades no trabalho, as omissões no dever de estado, tudo isso não nos parece grave. São Luís Maria Grignion de Montfort desvela este engano: “O maior castigo de Deus é deixar o pecador em paz com seus pecados”. O fato é que essas inúmeras infidelidades supostamente leves anestesiam nossa alma para nos acostumarmos com as graves.

Ou então dizemos: “Deus é misericordioso, compreende minhas fraquezas”. Sim, Deus é misericordioso, mas Santo Agostinho nos lembra a outra metade desta verdade: “Deus que te criou sem ti, não te salvará sem ti”. A misericórdia divina não é desculpa para a negligência, mas convite à conversão. Quantos presumem da bondade de Deus para perseverar no mal! É como o filho que, sabendo que o pai é bondoso, o ofende continuamente. Não é isto abusar da misericórdia? Não é transformar em veneno o que deveria ser remédio?

A veste nupcial e o sacramento da confissão

Mas o que é, afinal, esta veste nupcial? Santo Tomás de Aquino nos ensina: “A graça santificante é uma certa participação da natureza divina”. Não é mero perdão jurídico; é uma transformação ontológica. É Deus habitando realmente em nossa alma. São Jerônimo acrescenta que “a veste nupcial é a caridade que vem de um coração puro”.

Ora, meus caros, esta veste perde-se pelo pecado mortal. Um único pecado mortal, conscientemente cometido e não confessado, basta para comparecer ao banquete sem a veste nupcial. E quantos há que comungam em pecado mortal, acumulando sacrilégio sobre sacrilégio!

Mas Deus, em sua infinita misericórdia, providenciou o remédio. O Santo Cura d’Ars exclamava: “A confissão não foi instituída só para perdoar pecados, mas sobretudo para nos levantar e fortalecer”. É o sacramento da ressurreição espiritual, onde, como diz Santo Ambrósio, “as lágrimas lavam a culpa que é vergonha pronunciar com palavras”.

Contudo, quantos fazem da confissão mero pedágio para comungar! Confessam-se sem verdadeira contrição, sem propósito firme de emenda, voltando aos mesmos pecados mal saem do confessionário. Há quem sequer faça um exame de consciência adequado, chegando ao confessionário com uma vaga lista de imperfeições genéricas: “pequei contra a caridade, tive impaciências”. Isso pode significar desde pequenas imperfeições até atos abomináveis. Quais pecados especificamente? Quantas vezes? Em que circunstâncias? O confessor não é adivinho, meus caros, e a confissão requer acusação íntegra dos pecados mortais em espécie ínfima, circunstâncias e número.

São Francisco de Sales usa uma imagem eloquente: “Como o jardineiro que quer ter um belo jardim, arranca primeiro as ervas daninhas, assim devemos arrancar os pecados pela confissão”. Mas de que adianta arrancar as ervas se logo em seguida plantamos as mesmas sementes? Se a acusação e absolvição não se traduzem em atos concretos de combate ao pecado e assim a graça é simplesmente desperdiçada, aumentando ainda mais a culpa. De que serve confessar o pecado de impureza no sábado se logo voltamos a assistir aos mesmos entretenimentos imorais, tratar com as mesmas pessoas de conversa imoral, a cultivar as mesmas imaginações desonestas?

São Carlos Borromeu prescrevia: “Todos os que desejam fazer progresso na vida espiritual devem confessar-se ao menos uma vez por mês”. Não por escrúpulo, mas por amor à pureza da alma. São Felipe Neri é ainda mais incisivo: “Sem confissão frequente, é quase impossível perseverar e fazer progressos na vida espiritual”.

A necessária mudança de vida

A Epístola de hoje, tirada da carta aos Efésios, exorta-nos: “Renovámini spíritu mentis vestræ”, renovai-vos no espírito de vossa mente. Não basta confessar os pecados; é preciso mudar de vida. São Gregório de Nissa ensina claramente: “A mudança de costumes deve seguir a mudança de coração”.

Como dissemos, quantos há que se confessam e continuam a frequentar as mesmas ocasiões de pecado! Confessam a impureza e voltam às mesmas amizades perigosas, aos mesmos entretenimentos mundanos, às mesmas leituras perniciosas. São Pedro Damião usa imagem forte mas verdadeira: “Aquele que volta ao pecado confessado é como o cão que volta ao seu vômito”.

A conversão, meus caros, deve manifestar-se em obras concretas. São João Crisóstomo não aceita meias medidas: “Não me digais: dei esmola, jejuei, rezei. Mostrai-me se vos emendaste, se arrancastes a ira, se vos tornastes misericordioso”. Quantos há que cumprem práticas exteriores de piedade mas conservam o coração apegado ao pecado! Rezam o terço mas não perdoam as ofensas. Jejuam na sexta-feira mas não refreiam a língua maledicente. Dão esmola mas tratam com dureza os próprios familiares.

A prova do amor, como ensina Santa Catarina de Sena, está nas obras. E que obras são estas? Não somente as extraordinárias, mas principalmente as ordinárias feitas com amor extraordinário. O pai de família que se levanta cedo para prover o sustento dos seus, a mãe que educa os filhos na fé com paciência incansável, o empregado que trabalha com honestidade mesmo quando ninguém o vigia, o estudante que se aplica aos estudos como dever de estado, eis obras que agradam a Deus. São Vicente de Paulo expressa isto com admirável simplicidade: “Amemos a Deus, mas que seja à custa de nossos braços, que seja com o suor de nosso rosto”.

A perseverança é o grande desafio. São Bernardo diz com realismo: “Começar é de muitos, perseverar é de poucos”. Quantas conversões sinceras naufragam por falta de perseverança! Quantas almas, tocadas pela graça, voltam à tibieza após algumas semanas! São João Clímaco consola mas também adverte: “Cair não é o pior; o pior é permanecer caído”.

A aplicação à nossa vida

Caríssimos fiéis, apliquemos estas verdades à nossa vida concreta. Santo Afonso nos dá o método: “Quem não medita, não se conhece; quem não se conhece, não se emenda”. É necessário o exame diário de consciência. Santo Inácio de Loyola afirma categoricamente: “O exame de consciência é mais útil que muitas orações vocais”. Cinco minutos cada noite, meus caros, apenas cinco minutos para revisar o dia diante de Deus. Que pecados cometi? Que graças desperdicei? Que bem deixei de fazer?

Perguntemo-nos com sinceridade brutal: quando foi nossa última confissão bem feita? Não digo apenas válida, mas bem feita, com verdadeiro exame de consciência, contrição sincera, propósito firme, acusação completa e satisfação cumprida. E depois da confissão, mudamos algo em nossa vida, ou continuamos no mesmo caminho? Removemos as ocasiões de pecado ou ainda as conservamos “por precaução”? Rompemos as amizades perigosas ou ainda as cultivamos “por educação”?

Pensemos ainda: se morrêssemos hoje, neste momento, em que estado encontrar-se-ia nossa alma? Esta não é pergunta mórbida, mas salutar. Os santos meditavam diariamente sobre a morte. Nós, ao contrário, vivemos como se fôssemos imortais, adiando sempre a conversão para um amanhã que talvez não venha.

A coleta de hoje, que nossa Santa Madre Igreja nos faz rezar, contém um programa completo de vida espiritual: “Omnípotens et miséricors Deus, univérsa nobis adversántia propitiátus exclúde: ut mente et córpore páriter expedíti, quæ tua sunt, líberis méntibus exsequámur”. Pedimos a Deus que remova todos os obstáculos, para que, livres no corpo e na alma, possamos cumprir sua vontade com mentes livres.

São Leão Magno explica: “Deus remove os obstáculos quando nós removemos os pecados”. Não esperemos milagres sem conversão. São Gregório Magno acrescenta essa verdade: “Servir a Deus com mente livre é já começar a gozar da liberdade celeste”. A verdadeira liberdade, meus caros, não está em fazer o que queremos, mas em querer o que Deus quer.

Peroração

Caríssimos fiéis, ao contemplar o destino terrível do homem sem veste nupcial, não nos deixemos tomar pelo desespero, mas pela santa compunção. A porta da misericórdia ainda está aberta. O confessionário nos aguarda. A graça divina não nos falta.

São Bernardo nos indica o caminho seguro: “Em Maria nunca houve mancha de pecado, por isso é ela o refúgio seguro dos pecadores”. Recorramos à Santíssima Virgem, Mãe de Misericórdia. São Luís de Montfort assegura-nos: “É por Maria que a salvação do mundo começou, e é por Maria que deve ser consumada”.

Que cada um de nós, concluída esta prédica, faça este firme propósito: confessar-se bem e logo, o confessionário com o padre estão a poucos passos de distância, mudar de vida verdadeiramente, perseverar no bem começado. Não deixemos para amanhã, pois o amanhã pode não vir. O convite para o banquete já foi feito. A veste nupcial nos é oferecida gratuitamente no sacramento da penitência.

Resta-nos apenas uma coisa: querê-la verdadeiramente e conservá-la até o fim. Para que, quando o Rei vier inspecionar os convivas, não sejamos encontrados nus de graça, mas revestidos do esplendor sobrenatural que nos fará dignos do banquete eterno.

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O Antoniano