[Sermão] Da ansiedade à paz pela oração e pela presença de Deus

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Sermão para o III Domingo do Advento
Domingo Gaudete
Pe. Marcos Vinicius Mattke, IBP

Brasília-DF, 14 de dezembro de 2025 A.D.
Capela Nossa Senhora das Dores

“Gaudete in Domino semper: iterum dico, gaudete. Modestia vestra nota sit omnibus hominibus: Dominus enim prope est. Nihil solliciti sitis.”

Alegrai-vos sempre no Senhor: outra vez digo, alegrai-vos. Seja a vossa mansidão conhecida de todos os homens: o Senhor está perto. Não estejais ansiosos por coisa alguma.”

(Fil. IV, 4-6)

Caríssimos fiéis,

Nossa Santa Romana Igreja no meio do tempo penitencial do Advento, nos concede hoje um respiro de alegria. Deixa de lado os paramentos roxos da penitência e se veste de rosa. Canta com São Paulo no introito Gaudete in Domino semper, alegrai-vos sempre no Senhor. E nos convida, a nós seus filhos, a rejubilar mesmo antes de chegar a festa do Natal.

Mas que alegria é esta, meus caros, que pode florescer no meio da penitência? Que gozo é este, que não depende das circunstâncias exteriores, mas que permanece firme mesmo quando tudo ao redor parece desmoronar? Eis a pergunta que devemos responder hoje.

São Paulo, ao escrever estas palavras aos filipenses, não as escrevia de um palácio, nem de uma situação de conforto. Escrevia-as do cárcere, com cadeias nos pulsos, sem saber se o dia seguinte lhe traria a liberdade ou a morte. E contudo, não exorta à alegria apesar de suas cadeias, mas precisamente por causa daquilo que suas cadeias não podem tirar: a proximidade do Senhor.

Dominus enim prope est: o Senhor está perto.

Eis, meus caros, o fundamento inabalável da alegria cristã. Não as circunstâncias favoráveis, não a ausência de tribulações, não o sucesso mundano, mas sim a certeza de que Deus está perto, de que Ele governa todas as coisas pela sua Providência, de que nada escapa ao seu cuidado amoroso.

Consideremos, pois, neste dia como esta certeza da presença e proximidade de Deus é a fonte de nossa confiança, de nossa mansidão, e de uma alegria que o mundo não pode dar nem tirar.

I. A proximidade de Deus pela Providência

Quando o Apóstolo afirma que o Senhor está perto, não fala apenas da vinda futura de Cristo, seja no Natal que se aproxima, seja no fim dos tempos. Fala de uma presença atual, operante, contínua. Deus não é como um relojoeiro que, tendo construído o mecanismo do mundo, o abandonou para funcionar por si mesmo. Ele está perto, não apenas pela imensidade de sua essência que tudo penetra, mas pelo cuidado amoroso de sua Providência que tudo governa.

Santo Tomás de Aquino nos ensina que a Providência divina é a razão da ordenação de todas as coisas ao seu fim. Nada acontece por acaso. Nada escapa ao governo de Deus. Até os cabelos de nossa cabeça estão contados, como nos assegura o próprio Cristo.

Esta proximidade providente se manifesta de três modos, meus caros. Primeiro, pela onipotência: nada escapa ao poder de Deus, nenhuma criatura pode agir fora do âmbito de seu domínio, nenhum acontecimento pode frustrar seus desígnios. Segundo, pela bondade: Deus quer o nosso bem, quer a nossa salvação, e ordena todas as coisas para este fim. Terceiro, pela sabedoria: mesmo aquilo que nos parece mal, mesmo aquilo que não compreendemos, Ele o permite para um bem maior que muitas vezes ultrapassa nossa limitada inteligência.

Santo Agostinho nos consola com estas palavras: Deus, que permite o mal, não o permitiria se não fosse ao mesmo tempo onipotente e bom, capaz de tirar o bem do próprio mal. Eis uma verdade que devemos gravar profundamente em nossos corações. Deus não é impotente diante do mal; Ele o permite porque sabe extrair dele um bem maior.

Por isso São Paulo afirma aos Romanos: Diligentibus Deum omnia cooperantur in bonum, para os que amam a Deus, todas as coisas concorrem para o bem. Notemos bem: não algumas coisas, mas todas. As consolações e as tribulações, os sucessos e os fracassos, a saúde e a doença, a vida e a morte. Tudo, absolutamente tudo, nas mãos da Providência, se torna instrumento de nossa santificação.

II. A mansidão como fruto da confiança

Se Deus está perto, se Ele governa todas as coisas, se nada pode acontecer sem sua permissão ou contra sua vontade, então podemos ser mansos. Eis o que o Apóstolo nos ensina: Modestia vestra nota sit omnibus hominibus, seja a vossa mansidão conhecida de todos os homens.

Por que o homem se agita, meus caros? Por que se irrita, se desespera, se consome em preocupações? Porque teme. Teme perder o que possui, teme não obter o que deseja, teme o futuro incerto, teme os homens e suas maquinações. Mas aquele que sabe que o Senhor está perto, aquele que possui a certeza inabalável do governo divino, esse homem pode ser verdadeiramente manso.

A modestia de que fala São Paulo não é mera polidez exterior, não é aquela cortesia superficial que o mundo conhece e pratica por interesse. É algo muito mais profundo: é aquela serenidade de quem não precisa defender-se, porque sabe que Deus o defende; de quem não precisa garantir o próprio futuro, porque sabe que Deus o guarda; de quem não precisa vencer todas as batalhas, porque sabe que a vitória final já está assegurada.

São Francisco de Sales nos ensina que devemos cultivar uma tríplice mansidão: mansidão para com os outros, mansidão para conosco mesmos, mansidão para com os acontecimentos. E esta tríplice mansidão só é possível quando temos os olhos fixos na Providência.

Diante das injúrias dos homens, sabemos que nada nos atinge sem permissão divina, e que Deus pode converter o mal em bem. Diante de nossas próprias faltas e misérias, não nos desesperamos, mas confiamos na misericórdia que sempre nos levanta. Diante dos acontecimentos adversos, a doença, a perda, o fracasso, cremos firmemente que todas as coisas concorrem para o nosso bem.

III. O combate à ansiedade pela oração

Nihil solliciti sitis, não estejais ansiosos por coisa alguma. Eis a exortação do Apóstolo. Mas como podemos não estar ansiosos, nós que vivemos cercados de perigos, de incertezas, de ameaças? Aqui devemos fazer uma distinção importante.

A ansiedade, meus caros, em sua raiz não é um mal. Deus a inscreveu em nossa natureza como um instrumento ordenado à nossa preservação. Diante de um perigo real e iminente, é justo e necessário que o corpo se prepare para a ação, que o coração acelere, que os sentidos se agucem, que as forças se mobilizem. O homem que não sentisse ansiedade alguma diante de um leão que avança não seria um santo, seria um tolo.

Porém, e aqui está o ponto crucial, como todo dom natural, especialmente após a queda original, a ansiedade deve ser governada pela razão iluminada pela fé. Ela é boa serva, mas péssima senhora. Quando permanece sob o controle da razão, ela nos dispõe à ação prudente e proporcionada. Quando escapa a este controle, ela nos arrasta à desordem e ao desespero. É a chamada solicitude excessiva.

Que acontece quando a ansiedade se solta do governo da razão? A neurociência descreve o fenômeno. A parte inferior da alma, que a neurociência chama de sistema límbico, onde se encontra a amígdala cerebral, sentinela que dispara as respostas de luta ou fuga, assume o comando. Diante de uma ameaça percebida, real ou imaginária, a amígdala desencadeia uma cascata de reações: o eixo HPA, hipotálamo, pituitária, adrenal é ativado, o corpo é inundado de adrenalina e cortisol, o coração acelera, os músculos se tensionam, a respiração se torna superficial. Simultaneamente, o córtex pré-frontal, sede do raciocínio lógico, do juízo ponderado, da capacidade de avaliar consequências, é inibido, praticamente desligado. O homem, feito para ser governado pela razão, passa a ser governado pelo instinto. Criado para agir segundo a verdade, passa a reagir segundo a imaginação.

E que imaginação! Não a imaginação criadora e ordenada, mas a imaginação fantasiosa que pinta os piores cenários possíveis como se fossem certos e iminentes. A pessoa dominada pela ansiedade não vive na realidade, mas numa catástrofe imaginária. Ela não pensa, ela sente. Ela não julga, ela reage. Ela não age com prudência proporcionada ao perigo real, mas com violência proporcionada ao perigo imaginado.

É como o homem que, sentindo uma folha seca cair-lhe na orelha, desfere um tapa violento como se fosse uma aranha gigante a atacá-lo. A resposta é real, o perigo é fictício. A ação é intensa, a causa é irrisória. Eis o retrato da ansiedade desgovernada: uma mobilização total das forças contra um inimigo que frequentemente não existe senão na fantasia.

Consideremos agora, meus caros, aonde conduz esta desordem. A pessoa dominada pela ansiedade vive como se a catástrofe fosse iminente e inevitável, como se tudo estivesse perdido ou prestes a perder-se, como se toda a responsabilidade de evitar o desastre recaísse exclusivamente sobre seus ombros e dependesse de uma ação intensa e imediata de sua parte.

Notemos bem: ela vive como se não houvesse Providência, como se Deus não governasse o mundo, como se todas as coisas não concorressem para o bem dos que amam a Deus. Ela esquece a realidade sobrenatural, a graça, os sacramentos, a oração, o auxílio divino, e age como se só existisse a realidade natural. E mesmo esta realidade natural ela a vê deformada pelo prisma do medo.

Eis o triste paradoxo: a ansiedade desgovernada conduz a um ateísmo prático, pois vive como se Deus não existisse ou não se importasse; a um naturalismo prático, pois esquece a ordem sobrenatural e age como se só houvesse as forças da natureza; e, suprema ironia, a um racionalismo irracional, pois pretende desvendar, prever e resolver tudo pelo próprio esforço enquanto abandona precisamente o uso da razão.

Contra esta desordem, o Apóstolo nos oferece o remédio: In omni oratione et obsecratione, cum gratiarum actione, petitiones vestrae innotescant apud Deum: em toda oração e súplica, com ação de graças, sejam as vossas petições conhecidas diante de Deus.

A oração não é uma fuga da realidade, meus caros. É um retorno a ela. É na oração que a alma recupera a justa perspectiva: vê Deus como Deus, vê-se a si mesma como criatura, vê os problemas em sua verdadeira proporção. Aquele que ora recupera a razão porque recupera a fé; e recuperando a fé, recupera também a esperança e a caridade.

Se a oração é o remédio para a crise aguda, o exercício da presença de Deus é a medicina preventiva que fortalece a alma contra os assaltos da ansiedade. Trata-se de, ao longo do dia, por breves elevações da mente e do coração, recordar que Deus está presente, que Ele nos vê, que Ele nos ama, que Ele governa todas as circunstâncias de nossa vida. Este exercício, praticado com fidelidade, transforma gradualmente nossa visão: onde antes víamos ameaças, passamos a ver ocasiões de confiança; onde antes a imaginação pintava catástrofes, a fé iluminada pela razão discerne a vontade de Deus.

IV. O exemplo de São João Batista

O Evangelho de hoje nos apresenta São João Batista interrogado pelas autoridades de Jerusalém. Enviaram-lhe sacerdotes e levitas para perguntar: Tu, quem és? És o Cristo? És Elias? És o Profeta?

Que serenidade a do Precursor! Que desapego! Que humildade! Non sum ego Christus… Non sum… Non — responde com simplicidade, sem buscar para si honra alguma. São João Crisóstomo observa: vede a sabedoria do Batista, que não disse mais do que lhe perguntaram, nem menos. Esta é a simplicidade dos santos: não há nada a esconder, nada a ostentar, nada a defender.

De onde vinha tamanha serenidade? De seu radical desapego do mundo e de seu total apego a Cristo. Aquele que se contentava com vestes de pêlo de camelo e gafanhotos do deserto, aquele que vivia no ermo longe das comodidades humanas, esse era verdadeiramente livre. São Gregório Magno comenta: João pôde ser voz porque primeiro se fez vazio. Esvaziou-se de si para encher-se de Cristo.

O próprio Batista definiu sua alegria: Amicus sponsi, qui stat et audit eum, gaudio gaudet propter vocem sponsi, o amigo do esposo, que está presente e o ouve, alegra-se grandemente por causa da voz do esposo. Sua alegria não estava em si, mas em Cristo. E por isso nada nem ninguém podia tirá-la: nem o deserto, nem a prisão, nem a própria morte.

Meus caros, eis o convite que nossa Santa Madre Igreja nos faz neste Domingo Gaudete: não uma alegria superficial que ignora as dificuldades, mas uma alegria profunda que as atravessa; não um otimismo natural que logo se desfaz, mas uma esperança sobrenatural fundada na rocha da Providência divina.

Dominus enim prope est, o Senhor está perto. Esta muito perto de nós, ali no sacrário! Estará em nós em breve pela santa Comunhão! Está perto pela sua Providência que tudo governa. Está perto nos sacramentos que nos comunicam sua graça. Está perto na oração que nos une a Ele. E em breve contemplaremos de modo especial esta proximidade: o Deus infinito feito menino, o Eterno entrando no tempo, o Altíssimo descendo até nós.

Pratiquemos o exercício da presença de Deus. Lancemos sobre Ele toda a nossa ansiedade. Cultivemos a mansidão que nasce da confiança. E assim, à imitação de São João Batista, poderemos ser testemunhas da verdadeira alegria cristã, aquela alegria que o mundo não compreende, mas que secretamente inveja; aquela paz que excede todo entendimento e que guarda nossos corações e nossas mentes em Cristo Jesus. Et pax Dei, quae exsuperat omnem sensum, custodiat corda vestra et intelligentias vestras in Christo Iesu. Amém.

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O Antoniano