[Sermão] Cristo Rei ou caos total: não há terceira via

Christus met zingende en musicerende engelen, hans memling, (1483 1494), koninklijk museum voor schone kunsten antwerpen, 778

Sermão para a Festa de Cristo Rei
Pe. Marcos Vinicius Mattke, IBP

Santa Maria de Belém do Grão-Pará, 26 de outubro de 2025 A.D.

Caríssimos fiéis,

Celebramos hoje a importantísima festa de Cristo Rei, instituída pelo Papa Pio XI em 1925, como baluarte contra os erros pestilenciais do nosso tempo. Não é festa de devoção apenas, meus caros, mas proclamação de uma guerra santa contra o império das trevas que pretende usurpar o trono legítimo de Nosso Senhor Jesus Cristo.

“É necessário que Ele reine”, proclama o Apóstolo. Necessário, notemos bem. Não opcional, não conveniente apenas: necessário. Cristo deve reinar sobre tudo e sobre todos, primeiramente em nossas almas pelo estado de graça; depois sobre todas as nações, governos e instituições; e finalmente através da Santa Igreja Católica, único reino visível de Cristo sobre a terra.

I. O Reinado de Cristo na alma

Meus caros, toda restauração social cristã deve começar pela restauração interior. Como ensina Leão XIII na encíclica Annum Sacrum: “É necessário que Cristo reine primeiro no indivíduo, para que possa reinar na sociedade”. Impossível construir a Cristandade com almas paganizadas.

O Fundamento: estado de graça

São João Crisóstomo proclama uma verdade terrível: “Ubi peccatum regnat, ibi Christus exulat”, onde reina o pecado, Cristo está exilado. Quantos de nós, meus caros, mantemos Cristo no exílio pela queda reiterada no pecado mortal ou pela longa permanência nesse lastimável estado? Quantos proclamamos “Viva Cristo Rei” com os lábios, enquanto o coração jura vassalagem a Satanás?

O pecado mortal é o grande destronamento. É a revolução primordial, da qual todas as revoluções sociais são mero reflexo. Quando a alma escolhe o pecado grave, realiza em si mesma aquele grito diabólico: “Non serviam!”, não servirei. E assim, a alma que deveria ser templo torna-se covil; o trono preparado para Cristo é usurpado pelo demônio.

A submissão total da vontade

Mas não basta evitar o pecado mortal. Cristo exige mais. Santo Agostinho adverte: quando cooperamos com a graça, “Christus totus in capite et in corpore regnat”, Cristo reina totalmente na cabeça e nos membros. A submissão deve ser integral: inteligência, vontade, memória, imaginação, sentidos, tudo deve curvar-se ao doce jugo de nosso Divino Redentor.

São Gregório Magno ensina que “o Reino de Cristo em nós começa quando nossa vontade morre para si mesma”. Morte dolorosa mas necessária! Morte do próprio juízo, das preferências desordenadas, dos caprichos que nos afastam da lei divina. Cada ato de obediência aos mandamentos é um ato de vassalagem a Cristo Rei; por outro lado, cada resistência, uma pequena revolução.

O combate ao indiferentismo prático

Terrível, porém, é o indiferentismo prático que corroeu até mesmo as almas piedosas. Quantos vivemos como se Cristo reinasse apenas aos domingos? Como se sua majestade se limitasse ao espaço do templo e aos limites da sagrada liturgia? Quantos são os que defendem a dignidade do culto exterior mas no trabalho, nas diversões, na imaginação e nas conversas ignoram a divina majestade. São Cipriano troveja: “Qui cum diabolo facit, adversus Christum militat”, quem age com o diabo, milita contra Cristo.

Gregório XVI, na Mirari Vos, denuncia este mal chamando o indiferentismo de “fonte fétida” da qual brota aquela “sentença absurda e errônea, ou melhor, delírio, de que se deve afirmar e reivindicar para qualquer um a liberdade de consciência”. O indiferentista prático, mesmo se não crê nesta insanidade, vive como se todas as religiões fossem igualmente válidas, como se a verdade e o erro tivessem os mesmos direitos. É o liberalismo infiltrado na alma, corroendo por dentro a fortaleza da fé.

II. O Reinado Social de Cristo

Estabelecido o reino interior, meus caros, devemos proclamar sem temor: Cristo é Rei também da ordem temporal! Não há dois mundos, um para Deus, outro para César. Há um só mundo, uma só realidade, e sobre ela Cristo exerce direitos soberanos.

Cristo, Supremo Legislador e Juiz Universal

Santo Tomás de Aquino ensina claramente: “Christus est caput omnium hominum”, Cristo é a cabeça de todos os homens. Não apenas dos batizados, não apenas dos que creem: de todos. Por direito de criação, pois “todas as coisas foram feitas por Ele”; por direito de redenção, pois derramou Seu sangue por todos; por direito de delegação divina, pois o Pai “tudo pôs debaixo de seus pés”.

São Roberto Belarmino dissipa toda dúvida: “A potestade de Cristo não é somente espiritual, mas também temporal”. Os reis da terra, os parlamentos, os governos, os tribunais, todos devem reconhecer em Cristo o supremo legislador. Toda lei humana que contradiga a lei de Cristo é tirania e deve ser ignorada; toda sentença que despreze Sua justiça é iníqua e deve dever ser denunciada e desprezada.

Leão XIII, na encíclica Immortale Dei, proclama: “É necessário que a sociedade civil, pelo próprio fato de ser sociedade, reconheça a Deus como pai e autor, e reverencie e adore o seu poder e domínio”. Notemos: pelo próprio fato de ser sociedade! A dimensão religiosa não é acréscimo opcional à vida social; é sua própria essência e fundamento.

A insanidade da “sã laicidade”

Aqui devemos denunciar com toda força, meus caros, a mentira da suposta “sã laicidade”, absurdo insano. Não existe laicidade sã! Toda laicidade é doença, toda separação entre Igreja e Estado é amputação mortífera. São Pio X, na Vehementer Nos, não deixa margem para equívocos: “Que é preciso separar o Estado da Igreja, isso é uma tese absolutamente falsa, um erro perniciosíssimo”.

A pretensa neutralidade religiosa do Estado é impossível e diabólica. Impossível, porque como ensina Leão XIII na Libertas: “É contrário à razão que o Estado seja ateu, ou que trate com igual benevolência todas as religiões”. Diabólica, porque sob o manto da neutralidade, o Estado moderno persegue sistematicamente a verdadeira religião.

Gregório XVI já advertia na Mirari Vos: “Não se pode separar os deveres do cidadão dos deveres do cristão”. O homem é um só; sua alma é uma só. Pretender que aja como cristão na igreja e como pagão na sociedade é esquizofrenia espiritual, é aquele morno que Cristo vomitará de Sua boca. 

A realeza universal de Cristo

O Papa Gelásio I estabeleceu há quinze séculos: “Há dois poderes pelos quais este mundo é principalmente governado: a autoridade sagrada dos pontífices e o poder real”. Dois poderes, sim, mas não independentes! O poder temporal deve submeter-se ao espiritual como o corpo à alma.

Bonifácio VIII, na bula Unam Sanctam, definiu solenemente: “Declaramos que submeter-se ao Romano Pontífice é, para toda criatura humana, absolutamente necessário para a salvação”. Por que? Porque o Papa é o vigário de Cristo Rei. Rejeitar sua autoridade é rejeitar a Cristo; combater a Igreja é combater o Reino.

Pio IX, na Quanta Cura, exorta: “Devem os príncipes católicos defender a Igreja como filhos amantíssimos”. Não tolerá-la apenas, não protegê-la por conveniência política: defendê-la como filhos! Eis o ideal da Cristandade que os revolucionários destruíram e que devemos restaurar.

III. O combate aos erros modernos

Meus caros, identificado o ideal, devemos reconhecer os inimigos. A batalha é real, os adversários são ferozes, e a neutralidade é traição.

O liberalismo: orgulho luciferino

O liberalismo é a grande heresia dos tempos modernos. É o “non serviam” de Lúcifer traduzido em sistema político e social. São Pio X, na Notre charge apostolique, corta pela raiz toda ilusão: “A civilização não está mais para inventar… ela existe: é a civilização cristã, é a cidade católica”.

Não há progresso fora de Cristo! Não há liberdade verdadeira senão na submissão à verdade! O liberalismo promete libertação e entrega escravidão; promete progresso e produz barbárie; promete fraternidade e gera o ódio de classes.

Pio IX, no Syllabus, condena expressamente a proposição de que “o Romano Pontífice pode e deve reconciliar-se com o progresso, com o liberalismo e com a civilização moderna”. Impossível reconciliação entre Cristo e Belial! Impossível acordo entre a Igreja e a Revolução!

O erro da liberdade religiosa

Ora, meus caros, denunciemos agora, com santa indignação, o erro monstruoso da liberdade religiosa. Gregório XVI, na Mirari Vos, chama-a com precisão: “delírio”. Sim, delírio afirmar que o erro tem os mesmos direitos que a verdade, que Cristo e Lúcifer devem ser igualmente honrados pela sociedade!

Pio VI, no breve Quod aliquantum, denuncia esta “liberdade tão contrária à religião católica” como “monstruoso direito”. Monstruoso, de fato, meus caros! Pois que maior monstruosidade que equiparar o Criador às criaturas, o Redentor aos ídolos, a Igreja às seitas?

Leão XIII, em sua encíclica Libertas, adverte solenemente: “Se se concede ao homem licença absoluta de professar qualquer religião… não haverá nada tão sagrado que não possa ser violado”. E não é exatamente isto que vemos? A profanação sistemática de tudo quanto é santo, a inversão de todos os valores, o triunfo aparente das trevas?

A Santa Romana Igreja, Reino Visível de Cristo

Contra todos estes erros, meus caros, ergue-se majestosa nossa Santa Romana Igreja. Santo Inácio de Antioquia proclama: “Ubi Christus, ibi Ecclesia”, onde está Cristo, aí está a Igreja. Ela é o Reino de Cristo tornado visível, Seu corpo místico continuando através dos séculos.

São Cipriano estabelece o axioma fundamental: “Não pode ter a Deus por Pai quem não tem a Igreja por Mãe”. Extra Ecclesiam, nulla salus. Fora da Igreja não há salvação! Fora da Igreja, Cristo não reina! Toda alma que se separa de nossa Santa Madre Igreja, separa-se de Cristo; toda nação que rejeita a Igreja, rejeita seu Rei legítimo.

Por isso mesmo o papa Pio XI, na Quas Primas, identifica claramente o inimigo principal: “A peste do nosso tempo é o assim chamado laicismo com seus erros e ímpios incentivos”. O laicismo que expulsou Cristo das escolas, dos tribunais, dos parlamentos. O laicismo que pretende relegar o Rei dos reis à sacristia.

Mais terrível ainda, meus caros, é que do afastamento de nossa Santa Madre Igreja do âmbito social nasceu uma nova religião: a religião do homem. O humanismo antropocêntrico, fruto podre do Renascimento e da Revolução, não apenas atacou a Igreja desde fora, mas infiltrou-se em suas próprias fileiras. Chegou-se ao cúmulo de proclamar-se, em plena assembleia supostamente católica: “Nós, mais do que ninguém, temos o culto do homem!” Eis a apostasia mascarada de caridade, a idolatria travestida de pastoral! A religião do homem que se fez Deus pretende destruir a religião do Deus que se fez homem. Querem substituir o Calvário pelo Capitólio, a Cruz pelo compasso maçônico, o altar pelo trono da deusa razão. Mas consolemo-nos com as palavras do Salvador: “O príncipe deste mundo já foi julgado”. Por mais que prosperem temporalmente os arquitetos desta nova Torre de Babel, por mais que pareçam triunfar os adoradores do homem divinizado, seu edifício está construído sobre areia. Cristo, o único Rei verdadeiro, já venceu o mundo.

Peroração

Caríssimos fiéis, se Cristo Rei já é vitorioso, a guerra declarada está em curso e a batalha não é opcional. Cristo mesmo advertiu: “Qui non est mecum, contra me est”, quem não está comigo, está contra mim. Não há neutralidade possível nesta guerra santa.

No nosso coração, que Cristo reine pelo estado de graça. Combatamos sem trégua todo pecado mortal, toda tibieza, todo compromisso com o mundo. Que cada batida do nosso coração seja um ato de amor ao Rei divino.

Na nossa vida diária, que cada ação proclame Sua realeza. No trabalho, na família, na sociedade, em tudo reconheçamos Seus direitos soberanos. Não nos envergonhemos de confessar publicamente nossa fé. Não temamos o escárnio do mundo.

Na sociedade, lutemos sem descanso pela restauração da Cristandade. Combatamos os erros modernos com a verdade eterna. Denunciemos o liberalismo, o laicismo, o indiferentismo. Proclamemos que fora da Igreja Católica, como ensina Pio IX, “ninguém pode salvar-se”.

São Luís Maria Grignion de Montfort nos ensina o caminho seguro: “Para que venha o teu reino, venha o reino de Maria!” Pela Santíssima Virgem, Rainha do Céu e da Terra, alcançaremos o triunfo de seu Filho divino.

Meus caros, o mundo moderno construiu sua civilização sobre a negação de Cristo Rei. Vemos os frutos: guerras, revoluções, genocídios, perversões, injustiças, apostasia, desespero. Mas nós temos a promessa divina: “As portas do inferno não prevalecerão!”

Leão XIII, na Annum Sacrum, recorda-nos que o império de Cristo “não se exerce somente sobre os povos católicos… estende-se também sobre todos aqueles que estão fora da fé cristã”. Todos os homens, todas as nações, queiram ou não, devem submeter-se a Cristo. É questão de tempo. É questão de nossa fidelidade e militância.

Que a Santíssima Virgem, Rainha do Céu e da Terra, nos alcance a graça de sermos soldados fiéis de Cristo Rei até a morte, para reinarmos com Ele eternamente nos céus.

“Oportet illum regnare!” É necessário que Ele reine! E ele reinará, meus caros, reinará! Apesar de todos os inimigos, apesar de todas as traições, apesar de nossa própria miséria. Cristo vence, Cristo reina, Cristo impera!

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O Antoniano