Sermão para o XVI Domingo depois de Pentecostes
Pe. Marcos Vinicius Mattke, IBP
Brasília-DF, 28 de setembro de 2025 A.D.
Capela Nossa Senhora das Dores
Caríssimos fiéis,
No Evangelho deste domingo, Nosso Senhor nos apresenta duas lições fundamentais: cura um hidrópico no sábado, diante dos fariseus escandalizados, e ensina sobre a humildade através da parábola dos primeiros lugares. Mas é na Epístola que São Paulo nos revela o segredo do verdadeiro crescimento espiritual: “que Cristo habite pela fé em vossos corações”.
Permitam-me, meus caros, unir estas duas lições numa advertência que toca diretamente nossa vida espiritual. Pois existe uma tentação sutil, um perigo particular que ameaça precisamente aqueles que, como nós, receberam a graça de conhecer e praticar a fé em sua integridade tradicional. Santo Agostinho nos adverte: “Foi o orgulho que transformou anjos em demônios; é a humildade que faz de homens anjos.”
O fariseu em nós
Consideremos primeiramente o fariseu do Templo, aquele que subiu para orar e voltou condenado. Notemos bem: ele jejuava duas vezes por semana, pagava o dízimo de tudo que possuía. Suas práticas eram corretas, sua observância, impecável. Onde estava então sua perdição? São João Crisóstomo responde: “Nada é tão contrário à religião como a soberba. O fariseu conhecia a Lei, praticava-a, mas perdeu tudo por orgulho”.
Meus caros, não nos percamos: podemos facilmente transformar-nos em fariseus. Quantas vezes não repetimos, talvez não com os lábios mas com o coração: “Ó Deus, eu Vos agradeço porque não sou como esses modernos, para quem não existe pecado, que perderam o sentido do sagrado, que não respeitam o templo santo, que se comportam de forma indigna diante do Santíssimo Sacramento, que praticamente inventam uma nova religião”? Tudo isso verdadeiramente abominável, claro. Mas nessa exaltação de si, o que temos? A ortodoxia sem caridade, eis a tentação luciferina que nos espreita.
São Gregório Magno penetra ainda mais fundo nesta ferida: “Quando o espírito se eleva pela consciência das próprias virtudes, frequentemente cai em soberba, e aquilo que parece virtude diante dos homens torna-se vício diante de Deus.” Tremamos, pois nossa própria fidelidade à integridade da fé que recebemos pela santa Tradição pode tornar-se ocasião de queda se não for temperada pela humildade.
Os sinais do mal
Como reconhecer em nós este mal sutil? São Doroteu nos oferece um espelho implacável: “Cada um de nós justifica seus próprios pecados e condena os do próximo. Vemos o cisco no olho alheio, especialmente quando pensamos ter removido a trave do nosso.”
Examinemos nossa consciência: sentimo-nos superiores aos católicos que são vítimas da crise de fé dos tempos atuais? Temos prazer em corrigir o próximo? Temos uma maior preocupação em parecer do que ser realmente católico? Distribuímos rótulos, catalogando o nosso próximo, ao invés de ver antes de tudo nosso próximo como um pecador redimido como nós? Criamos bolhas estéreis, só tendo contato com nosso exército de clones na aparência exterior da prática de piedade? Fazemos da busca de tretas teológicas praticamente um hobby? Usamos nosso conhecimento da fé como arma para ferir, não como bálsamo para curar?
Se respondemos afirmativamente a qualquer destas perguntas, meus caros, estamos doentes do mesmo mal que condenou o fariseu. Possuímos a verdade, sim, mas a verdade sem caridade é címbalo que retine, faz barulho mas está vazio por dentro.
O exemplo dos santos
Contemplemos, em contraste, a humildade dos verdadeiros defensores da fé. São Pio X, o Papa que combateu o modernismo com vigor incomparável, era de uma simplicidade que comovia até seus adversários. Dom Marcel Lefebvre, mesmo em sua firmeza inabalável, sempre distinguiu os erros das pessoas que erravam, e tendo sua obra como objetivo ser efetivamente um meio de socorrer que está em erro. Os mártires cristeros morreram cantando “Viva Cristo Rei” sem desprezar os fracos que capitulavam, mas sim, morrendo para que eles pudessem viver uma vez a Igreja tendo novamente sua devida liberdade.
São Francisco de Sales, doutor da Igreja, ensina-nos: “O verdadeiro servo de Deus despreza os pecados, mas nunca os pecadores. Tem horror ao erro, mas compaixão pelos que erram.” E Santa Teresa de Ávila acrescenta com sua sabedoria: “Uma alma verdadeiramente humilde duvida de suas próprias virtudes e vê as dos outros como maiores.”
A ciência que incha
Mas voltemos à epístola. São Paulo pede que sejamos fortalecidos “no homem interior”. Mas atenção: este fortalecimento vem pela habitação de Cristo em nossos corações, não pelo acúmulo de conhecimento teológico. Santo Isidoro de Sevilha é categórico: “A ciência sem humildade não edifica, mas destrói; não ilumina, mas cega.”
Meus caros, simplesmente saber latim não salva. Conhecer todos os erros do magistério pós-conciliar não santifica. Poder citar o Denzinger de memória não nos torna agradáveis a Deus. São Bernardo de Claraval disseca com precisão nossas motivações: “Há muitos que buscam o conhecimento pelo conhecimento: é curiosidade. Outros buscam conhecer para serem conhecidos: é vaidade.”
E o Doutor Angélico, São Tomás de Aquino, vai à raiz: “A soberba é o princípio de todo pecado porque é o primeiro afastamento de Deus. Por ela, até o bem se converte em mal.” Meditemos: por ela, até o bem, até nossa fidelidade à tradição, pode converter-se em mal.
Os remédios divinos
Mas Deus não nos deixa sem remédio. São João Cassiano nos alerta: “O demônio não tenta com vícios grosseiros aqueles que já progrediram na vida espiritual, mas os faz cair pelo orgulho de suas próprias virtudes.” Sabendo disto, podemos defender-nos.
Primeiro remédio: rezar por quem está no erro em vez de condená-los. Não somos promotores de justiça, mas réus como eles. Também necessitamos da misericórdia pela nossa própria miséria. Quando percebermos uma prática errada, um erro afirmado rezemos: “Senhor, tende piedade dele e de mim, pecadores.”
Segundo: façamos um exame particular diário sobre nossos juízos temerários. São João Clímaco adverte: “Vi demônios louvar os jejuadores para enchê-los de vanglória.” Se o demônio louva nossas práticas, desconfiemos.
Terceiro: façamos a confissão frequente deste orgulho sutil. São Felipe Néri resumia em três palavras a receita da santidade: “Desconfia de ti mesmo, confia em Deus, e não julgues ninguém.”
Lembremos que Judas Iscariotes recebeu a Sagrada Comunhão das próprias mãos de Cristo e se perdeu. É nossa disposição interior de corresponder à graça que vai nos salvar.
A verdadeira eleição
Meus caros, somos de fato um “pequeno rebanho”, um resto fiel ao que nos foi legado pela Igreja diante de uma crise sem precedentes. Mas São Luís Maria Grignion de Montfort nos previne: “Há cristãos que se orgulham de suas devoções como os pérfidos judeus se orgulhavam do Templo, e por isso mesmo se perdem.”
Essa graça traz responsabilidade, não privilégio. Somos sal da terra, mas se o sal se gloriar de ser sal, perde o sabor. São Francisco de Assis, o Poverello, ensina: “Bem-aventurado o servo que não se tem em melhor conta quando é engrandecido pelos homens do que quando é tido por vil e desprezível.”
A vitória pela humildade
Santo Antão, o pai do monaquismo, teve uma visão que deveria estar sempre diante de nossos olhos: “Vi todas as armadilhas do inimigo estendidas sobre a terra e disse gemendo: ‘Quem poderá escapar?’ E ouvi uma voz que me dizia: ‘A humildade.”
A humildade, somente a humildade, pode preservar-nos. Santo Inácio de Loyola, que viveu tempos de grande crise na Igreja, deixou-nos uma pérola: “Em tempo de desolação da Igreja, o demônio tenta os bons sob aparência de bem, fazendo-os zelosos sem discrição e duros sem caridade.”
Peroração
Caríssimos fiéis, façamos nosso exame de consciência com três perguntas simples mas decisivas:
Nossa prática nos torna mais caridosos ou mais críticos? Rezamos mais pelos pecadores ou contra eles? Se Cristo voltasse hoje, encontrar-nos-ia humildes como o publicano ou orgulhosos como o fariseu?
A Imitação de Cristo nos oferece o critério definitivo: “Grande sabedoria é não ser precipitado em suas ações, nem aferrado obstinadamente às próprias opiniões; não acreditar em tudo que se ouve, nem logo espalhar o que se ouviu.”
Sim, meus caros, temos a graça imensa da fidelidade à fé íntegra legada pela Santa Tradição. Mas ao invés de nos gloriar disso, tremamos. Tremamos pois enorme é a resposabilidade. Pois Lúcifer também conhecia toda a verdade, era o mais brilhante dos anjos, o portador da luz, e por orgulho transformou-se no príncipe das trevas. De que nos aproveitaria conhecer todos os mistérios da Fé, celebrar a Missa de sempre, manter todas a tradição, se não tivermos caridade?
Que Nossa Senhora, Sede da Sabedoria mas também modelo perfeitíssimo de humildade, aquela que se proclamou escrava quando era escolhida para ser Mãe de Deus, nos preserve desta cilada diabólica. Que possamos dizer com ela: “Eis aqui o servo do Senhor”, não “eis aqui o tradicional que é melhor que os outros”.
A graça que devemos pedir não é mais conhecimento, não é mais certeza de estarmos certos, mas sim a humildade que nos permita ser verdadeiros filhos de nossa Santa Madre Igreja, amando nossos irmãos extraviados como Cristo amou a ovelha perdida, a ponto de deixar as noventa e nove para buscá-la e carregá-la nos ombros.


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