[Sermão] Amar sem gostar: a sabedoria que o mundo perdeu

Chatgpt image 5 de out. de 2025, 10 53 22


Sermão para o XVII Domingo depois de Pentecostes
Pe. Marcos Vinicius Mattke, IBP

Brasília-DF, 05 de outubro de 2025 A.D.
Capela Nossa Senhora das Dores

Caríssimos fiéis, 

As palavras do Evangelho deste domingo se sobrepõem às confusões de nosso tempo: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento”, e logo em seguida: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo”. São Paulo Apóstolo, na Epístola aos Efésios, completa este ensinamento com uma exortação que talvez cause estranheza aos ouvidos modernos: “Suportando-vos uns aos outros com caridade”.

Suportar. Não diz o Apóstolo “gostai”, nem “reconhecei o lado bom”, nem “alegrai-vos sempre uns com os outros”. Diz: suportai-vos. Aqui está contida uma verdade profunda que o sentimentalismo de nossa época procura obscurecer: o amor cristão não é primariamente um sentimento, mas um ato da vontade ordenada pela graça.

A natureza verdadeira da caridade

Meus caros, vivemos em tempos de grande confusão sobre o que seja o amor. Os filmes, as novelas, as canções populares, todos proclamam que o amor é um sentimento que nos invade, uma emoção sobre a qual não temos controle. “Apaixonamo-nos”, dizem, como quem cai num buraco. E quando o sentimento se esvai, quando a emoção arrefece, declaram com a mesma facilidade: “o amor acabou”.

Mas não é isto que nos ensina nossa Santa Madre Igreja. O Doutor Angélico, Santo Tomás de Aquino, define: “Amare est velle alicui bonum”, amar é querer o bem a alguém. Notemos bem: querer o bem. Não sentir ternura, não experimentar doçura, não ter afeição sensível. Querer. E o querer é ato da vontade, não do sentimento.

São João da Cruz, nos adverte: “O amor não consiste em sentir grandes coisas, mas em ter grande desprendimento e em padecer pelo Amado”. Se o amor fosse sentimento, Nosso Senhor não poderia comandá-lo. Não se comanda o que não depende da vontade. Posso ordenar que levantemos a mão, mas não que sintamos frio ou calor. Cristo, porém, ordena: “Amarás”. Logo, o amor é ato da vontade, e por ser ato da vontade, é meritório.

Esta caridade de que falamos não é uma virtude natural. Não nasce de nossa pobre natureza decaída. É virtude teologal, infundida por Deus em nossa alma no santo Batismo, aumentada pelos Sacramentos, exercitada pela vontade auxiliada pela graça. Sem Deus, podemos ter afetos naturais, simpatias humanas, atração instintiva. Com Deus, temos a caridade sobrenatural que nos faz amar até os inimigos.

A ordem inviolável do amor

Nosso Senhor estabelece uma hierarquia que não podemos inverter sem cair em desordem moral. Primeiro: amar a Deus de todo o coração, de toda a alma, de todo o entendimento. Depois, e somente depois: amar o próximo como a nós mesmos.

São Bernardo de Claraval nos ensina: “a razão de amar a Deus é o próprio Deus; a medida de amá-lo é amá-lo sem medida”. Deus deve ser amado por si mesmo, porque ele é o Sumo Bem, a Beleza Infinita, a Verdade Absoluta. O próximo, por sua vez, não é amado primariamente por suas qualidades, que podem ser poucas ou até mesmo nenhuma, mas por amor a Deus.

Santo Agostinho esclarece este ponto para nós: “Ama verdadeiramente o próximo aquele que ama a Deus no próximo”. Eis aqui o segredo! Não amamos o próximo porque ele é simpático, inteligente, virtuoso ou agradável. Amamos o próximo porque nele resplandece, ainda que eventualmente obscurecida pelo pecado, a imagem de Deus. Amamos o próximo porque Cristo morreu por ele, porque é chamado à mesma bem-aventurança eterna que nós.

Quantos erros derivam da inversão desta ordem! O humanismo ateu pretende amar o homem sem Deus. Resultado: os maiores genocídios da história foram cometidos em nome do “bem da humanidade”. O sentimentalismo religioso pretende amar Deus sem amar concretamente este próximo específico, difícil, antipático, que Deus colocou em nosso caminho. Resultado: uma piedade estéril, um misticismo falsificado.

O realismo cristão: suportar com paciência

Meus caros, nossa Santa Romana Igreja é uma mãe realista. Ela conhece a natureza humana ferida pelo pecado original. Por isso, São Paulo não escreve aos Efésios: “Gostai uns dos outros”, mas sim: “Suportai-vos uns aos outros com caridade”.

Suportar. Que palavra dura para nossos ouvidos delicados! Suportar implica peso, implica esforço, implica algo que naturalmente preferiríamos evitar. E, no entanto, é precisamente este o caminho ordinário da santidade: suportar com paciência os defeitos alheios.

Santo Agostinho, com sua experiência pastoral, exorta-nos: “Suporta o mau para que ele se torne bom. Quem não suporta o irmão enfermo, abandona-o no caminho”. Cada um de nós é, em alguma medida, peso para os demais. Nossos defeitos, nossas manias, nossos maus humores, nossas limitações, tudo isso pesa sobre aqueles que conosco convivem. E os defeitos alheios pesam sobre nós. Se convivêssemos com um clone nosso não haveria nenhum deleite. Muito pelo contrário, veríamos como nós podemos ser insuportáveis.

São Bento, o Patriarca dos monges do Ocidente, conhecia bem esta realidade. Por isso escreveu em sua Santa Regra: “Suportem com suma paciência as enfermidades uns dos outros, tanto do corpo como do caráter”. Notemos: enfermidades do caráter. Os defeitos morais, as fraquezas psicológicas, os temperamentos difíceis, tudo isto deve ser suportado com paciência, como suportamos as doenças físicas.

A distinção capital: amar sem gostar

Aqui chegamos a um ponto que causa escândalo ao homem moderno, mas que é de importância capital para a vida espiritual: podemos e devemos amar mesmo sem gostar. Mais ainda: o mérito do amor cristão está precisamente em amar quando não gostamos.

São Francisco de Sales, o Doutor da mansidão, estabelece esta distinção com clareza: “Não podemos ter sempre ternura na caridade, mas devemos ter sempre caridade na vontade”. Gostar é questão de temperamento, de afinidade natural, de compatibilidade psicológica. Amar é questão de vontade auxiliada pela graça.

Nosso Senhor Jesus Cristo deu-nos o exemplo supremo. Amou Judas até o fim. Lavou os pés do traidor. Chamou-o de amigo no momento mesmo da traição. Pensamos nós que Cristo sentia ternura natural por Judas naquele momento? Que experimentava doçura afetiva ao ver a perfídia do apóstolo infiel? Certamente não. Mas amava-o com a vontade, queria seu bem, oferecia-lhe até o último instante a possibilidade do arrependimento.

São João Crisóstomo, com sua eloquência incomparável, desafia-nos: “Que mérito há em amar os que nos amam? Até os publicanos fazem isso. O cristão mostra sua nobreza amando os que o odeiam”. E ainda acrescenta em outra homilia: “Nada torna um homem tão semelhante a Cristo como o cuidado do próximo, ainda que seja ingrato, ainda que seja hostil”.

As diferentes obrigações da caridade

Meus caros, se é verdade que devemos amar a todos, também é verdade que nem com todos temos as mesmas obrigações. Com os estranhos, com os conhecidos ocasionais, com os colegas de trabalho, basta que queiramos sinceramente seu bem, que não lhes façamos mal, que os ajudemos em suas necessidades quando possível.

Mas com aqueles que Deus colocou mais próximos de nós, pais, filhos, irmãos, cônjuges, aqui a obrigação é maior. Não basta suportar; devemos esforçar-nos para cultivar também o afeto. O matrimônio, particularmente, exige este duplo esforço: manter sempre a caridade da vontade e trabalhar para conservar ou recuperar o amor sensível.

Santa Teresa de Ávila adverte-nos: “O amor não está no maior gosto, mas na maior determinação de desejar contentar a Deus em tudo”. Quantos matrimônios naufragam porque os esposos, não encontrando mais o “gosto” dos primeiros tempos, julgam que o amor acabou! Não compreendem que o amor-sentimento é como a flor: bela mas efêmera. O amor-virtude é como a árvore: talvez menos vistoso, mas sólido e frutífero.

As virtudes auxiliares

Para suportar o próximo com caridade, necessitamos de três virtudes auxiliares que São Paulo menciona na Epístola: humildade, mansidão e paciência.

A humildade nos faz reconhecer que também nós somos peso para os outros. Quantas vezes, meus caros, queixamo-nos dos defeitos alheios sem perceber que nossos próprios defeitos são igualmente, senão ainda mais, insuportáveis! A humildade nos faz ver a trave em nosso olho antes do cisco no olho alheio.

A mansidão domina a ira quando o próximo nos irrita. São João Clímaco ensina: “A mansidão é o sustentáculo da paciência, a porta, ou melhor, a mãe da caridade”. Sem mansidão, respondemos ao mal com o mal, à ofensa com a ofensa, perpetuando o ciclo de ressentimento e vingança.

A paciência, enfim, é a longanimidade, a capacidade de suportar os defeitos alheios não apenas uma vez, mas setenta vezes sete vezes. São Vicente de Paulo resume magnificamente: “A caridade é paciente: suporta os defeitos do próximo; é benigna: desculpa-os; não se irrita: perdoa-os”.

Aplicações práticas

Desçamos agora do geral ao particular. Como aplicar estas verdades em nossa vida quotidiana?

Primeiro, façamos um sincero exame de consciência. Santa Catarina de Sena nos transmite estas palavras do Senhor: “Eu te peço que ames aqueles que não te dão senão dor e sofrimento, porque nisto conhecerás se me amas em verdade”. Perguntemo-nos: negamos o bem ao próximo porque não gostamos dele? Confundimos antipatia natural com juízo moral? Usamos a desculpa “não consigo gostar” para não cumprir o dever tão primordial de amar?

Segundo, usemos os meios sobrenaturais. A oração pelo próximo antipático é um remédio eficacíssimo. Quando rezamos por alguém, nossa vontade vai se conformando à vontade divina. A comunhão frequente nos une Àquele que amou até os que O crucificavam. A mortificação voluntária nos fortalece para aceitar a mortificação involuntária que é o convívio com pessoas difíceis.

Terceiro, pratiquemos atos concretos de caridade, especialmente àqueles de quem não gostamos. Um cumprimento cordial, um pequeno favor, uma palavra amável, são pequenos atos que vão educando nossa vontade no amor sobrenatural e que dão uma grande glória a Deus e fazem bem para nossa alma, para a alma do próximo e granjeiam graças para toda a Igreja.

Peroração

Caríssimos fiéis, o mundo moderno construiu uma religião do homem, fundada no sentimento. Tudo vale se há sentimento, nada vale se o sentimento está ausente. Por isso temos divórcios em massa, famílias destroçadas, amizades que se rompem ao primeiro desentendimento, filhos que abandonam os pais idosos. Por isso uma liturgia fabricada para o homem se cultuar pelo sentimento e não para cultuar a Deus pela virtude da religião.

Nossa Santa Madre Igreja oferece-nos caminho diferente: o caminho do amor-virtude, da caridade sobrenatural, do querer o bem independentemente do sentir. Este amor tem sua fonte em Deus e retorna a Deus através do próximo. Este amor suporta, padece, persevera. Este amor vê em cada pessoa, seja ela simpática ou antipática, seja ela interessante ou estúpida, seja um santo ou um pecador, uma alma remida pelo Sangue de Cristo.

Recordemos sempre as palavras de Santo Agostinho que resumem todo nosso sermão: “Dilige et fac quod vis”, “Ama e faze o que quiseres. Se calas, cala por amor; se gritas, grita por amor; se corriges, corrige por amor; se perdoas, perdoa por amor. Que a raiz do amor esteja em teu interior, pois dessa raiz só pode brotar o bem”.

Que Nossa Senhora, Mãe da Divina Caridade, que permaneceu de pé junto à Cruz enquanto os apóstolos fugiam, que amou quando humanamente não havia mais razões para amar, nos alcance esta graça: amar com a vontade quando o sentimento falha, suportar com paciência os defeitos do próximo, ver em cada pessoa difícil uma oportunidade de mérito eterno.

Comentários

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

O Antoniano