[Sermão] A verdadeira romanidade, ou o necessário sacrifício para a salvação

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O sermão pregado não segue o texto abaixo ipsis litteris.

Sermão para a Festa dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo
Domingo na Oitava do Sagrado Coração de Jesus
III Domingo depois de Pentecostes
Pe. Marcos Vinicius Mattke, IBP

Brasília-DF, 29 de junho de 2025 A.D.

Caríssimos fiéis,

Eis que nossa Santa Romana Igreja celebra hoje a festa dos santos Apóstolos Pedro e Paulo. Uma festa que é particularmente consoladora para o mundo católico, porque se é verdade que vivemos tempos de confusão e trevas, também é verdade que a luz da fé católica jamais se extingue para aqueles que a ela se apegam com firmeza e amor filial.

Consideremos, meus caros, uma virtude esquecida pelos homens modernos, mas que permanece como rocha inabalável nos corações verdadeiramente católicos: a romanidade. E junto a ela, aquela disposição heróica que deve animar todo soldado de Cristo – o espírito de sacrifício, sem o qual não se pode combater o bom combate, guardar a fé e alcançar a salvação eterna.

Ouçamos bem, meus caros: “Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja” – no singular, uma só Igreja. Não disse Nosso Senhor “as minhas igrejas”, como querem os protestantes; não disse “a minha comunidade invisível”, como sonham os liberais. Uma só Igreja, visível, hierárquica, fundada sobre a rocha que é Pedro.

Mas notemos bem: se Pedro é a pedra visível, Cristo permanece o fundamento invisível. Aqui reside o primeiro mistério da romanidade: ela não é servilismo humano, mas reverência ao que é divino através do que é humano. As chaves do Reino não foram dadas a Pedro para que inventasse novidades, mas para que guardasse, transmitisse e defendesse o tesouro da fé.

E foi em Roma – sede do império que dominava o mundo conhecido – que a Providência quis estabelecer a cátedra de Pedro. Roma, que era mestra da mentira pagã, tornou-se discípula da Verdade, que é Cristo. Não por acaso, meus caros, mas por desígnio divino: onde reinava a soberba humana, deveria reinar a humildade cristã; onde dominava a força bruta, deveria imperar a caridade.

Vivemos, sem dúvida, uma época de paixão da Igreja. Como Cristo sofreu em sua humanidade permanecendo Deus, assim a Igreja sofre em seus membros humanos permanecendo divina em sua essência, em seus sacramentos, em seu magistério infalível.

Meus caros, não nos escandalizemos com as eventuais fraquezas humanas que possamos observar, mesmo nos níveis mais altos da hierarquia eclesiástica. Dois erros opostos ameaçam os fiéis nestes tempos difíceis: uns, vendo os defeitos humanos, negam a divindade da Igreja e afirmam que ela perdeu sua autoridade; outros, querendo preservar a dignidade da Igreja, negam que existam problemas reais em sua parte humana, e se deixam conduzir servilmente ao erro.

Ambos os erros destroem a verdadeira compreensão do mistério da Igreja. Se negarmos sua divindade, cairemos no desespero e na rebeldia; se negarmos sua humanidade, cairemos na ilusão do erro e na falsa segurança fundada no humano e não no divino.

A romanidade, meus caros, não é servilismo cego, nem desobediência orgulhosa. É a virtude do filho que ama profundamente seu pai, mesmo quando este não exerce perfeitamente sua função paterna. É rezar pelo Santo Padre como por um pai, respeitá-lo e venerá-lo. Mantendo-se fiel a Deus quando o homem falha, por piedade e caridade à própria autoridade; portanto sem obedecer a ordens ilegítimas, que vão contra a revelação e o magistério de sempre, e isso por obediência ao próprio Deus, pois como ensina são Pedro, é necessário obedecer antes a Deus que aos homens; assim como sem jamais desobedecer a ordens legítimas, e mantendo toda piedade filial.

Esta romanidade exige de nós uma genuína maturidade espiritual que poucos possuem hoje em dia. Afinal é mais fácil e cômodo seguir os extremos: ou a adulação servil ou a rebelião presunçosa. Mas o católico verdadeiro caminha pelo meio termo da caridade, que sabe distinguir entre a pessoa e o cargo, entre o homem e a autoridade que representa.

Meus caros, a romanidade verdadeira não pode existir sem espírito de sacrifício. Porque é sacrifício amar quando é difícil amar; é sacrifício obedecer quando a obediência custa; é sacrifício permanecer fiel quando outros abandonam a fé. Nossa romanidade está fundada no sangue dos apóstolos que regou a nossa fé e consagrou Roma como o bastião de nossa  santa Religião.

São Paulo exclama: “Combati o bom combate, terminei a carreira, guardei a fé.” Notemos bem: não disse “o combate fácil” ou “o combate popular”, mas “o bom combate” – aquele que se trava contra as potências das trevas, contra o mundo, a carne e o demônio.

Este combate exige de nós três disposições fundamentais:

Primeiro, a disposição à verdade. Num mundo de mentiras, o católico deve ser testemunha da verdade, mesmo quando esta verdade é incômoda, mesmo quando lhe custa caro confessá-la. Repito, a nossa fé é a fé dos mártires, a fé da cruz de Cristo.

Segundo, a disposição à pureza. Numa sociedade corrompida, o católico deve manter-se puro de coração, de pensamento e de ação, visando antes de tudo a glória de Deus, o estado de graça e o bem das almas. Como São Pedro e São Paulo não tinham outro interesse senão a glória de Deus, a pregação do Evangelho e a salvação de todos os homens.

Terceiro, a disposição ao sacrifício. Porque a vida cristã não é mediocridade burguesa, mas chamado à santidade, que é sempre exigente e mesmo heróica em algum grau. Fomos chamados a sermos perfeitos como o Pai Celeste é perfeito e não para sermos nós mesmos e nos sentirmos bem. E claro, ser perfeitos não pela nosso esforço mas por graça de Deus.

Para este combate, meus caros, a Igreja nos fornece armas poderosas:

Os Sacramentos, pelos quais recebemos a graça divina que nos fortalece na luta. Especialmente a Santa Missa, sacrifício incruento que renova sobre nossos altares o sacrifício do Calvário, e a Confissão sacramental, que nos purifica das quedas inevitáveis do combate.

A oração, pela qual nos unimos a Deus e obtemos a luz necessária para discernir o bem do mal, a verdade do erro. Especialmente o Santo Rosário, arma poderosa contra os ataques do inimigo.

A mortificação, pela qual disciplinamos nossa natureza decaída e nos preparamos para sacrifícios maiores. Porque quem não sabe renunciar ao supérfluo jamais saberá renunciar aquilo que mais custa, como aos seus bens, sua honra e até a sua própria vida, quando a fé e a própria salvação o exigir.

Meus caros, não pensemos que este combate seja em vão. A recompensa que nos aguarda supera infinitamente todos os sacrifícios desta vida passageira. São Paulo, que tanto sofreu pela fé, podia dizer com confiança: “Já agora está reservada para mim a coroa da justiça.”

Mas não esperemos apenas a recompensa futura. Já nesta vida, a fidelidade à romanidade católica nos proporciona paz de consciência, clareza de espírito e fortaleza de alma. O católico romano sabe quem é, de onde vem e para onde vai. Tem raízes firmes na tradição milenar da Igreja e esperança segura na vida eterna.

Caríssimos fiéis, concluindo estas considerações, exorto-vos a abraçar com renovado fervor esta romanidade católica que caracterizou nossos antepassados na fé. Não nos deixemos seduzir pelas novidades do século, nem nos deixemos abater pelas dificuldades do momento presente.

A Igreja de Cristo é Católica, Apostólica e Romana. Romana não por acidente, mas por disposição da Providência. Romana porque Pedro estabeleceu ali sua sé e ali derramou seu sangue. Romana porque de Roma deve irradiar para todo o mundo a luz da verdade católica.

Meus caros, sejamos fiéis a esta romanidade. Amemos o Santo Padre, rezemos por ele, obedeçamos-lhe em tudo o que for conforme à tradição e ao magistério infalível e definitivo da Igreja. Mas, por amor a Deus, por amor à Santa Romana Igreja, por amor ao próprio Romano Pontífice, façamos-o sem servilismo, mantendo a dignidade e a liberdade de filhos de Deus, redimidos pelo sangue de Cristo para proclamar e defender a Verdade Eterna.

Combatamos o bom combate com as armas que a Igreja nos oferece. Não temamos os sacrifícios que a fidelidade nos puder exigir, porque “as aflições do tempo presente não têm proporção com a glória futura que será revelada em nós.”

E assim, permanecendo fiéis à romanidade católica e dispostos ao sacrifício pela fé, alcançaremos aquela paz que o mundo não pode dar nem tirar, e mereceremos ouvir, no dia do juízo, as palavras consoladoras do divino Mestre: “Muito bem, servo bom e fiel, entra no gozo do teu Senhor.”

Que assim seja, pela intercessão da Santíssima Virgem Maria, Rainha dos Apóstolos e Mãe da Igreja, e de São Pedro, nosso primeiro Papa e modelo de romanidade católica. Amém.

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O Antoniano