Sermão para o VI Domingo depois de Pentecostes
Pe. Marcos Vinicius Mattke, IBP
Brasília-DF, 20 de julho de 2025 A.D.
Caríssimos fiéis,
O Evangelho deste domingo nos apresenta uma cena de profunda compaixão divina. Nosso Senhor, vendo a multidão que o seguia há três dias no deserto, compadece-se dela e opera o milagre da multiplicação dos pães. Sete pães apenas, nas mãos dos discípulos, eram toda a provisão disponível para alimentar quatro mil pessoas. Humanamente impossível. Contudo, entregues nas mãos benditas do Salvador, esses mesmos sete pães não somente alimentaram toda aquela multidão, como ainda sobraram sete cestos.
Meus caros, há neste milagre uma lição preciosa para nossa vida espiritual, que se conecta admiravelmente com a Epístola de hoje. São Paulo nos exorta a considerar-nos mortos para o pecado e vivos para Deus. Mas como realizar esta morte ao homem velho com nossas fracas forças? Como vencer o pecado que teimosamente ressurge em nós?
A resposta está diante de nossos olhos: assim como Cristo multiplicou os pães, ele multiplica nossos pobres esforços no combate espiritual. Escutemos Cassiano, que nos ensina: “Como no milagre dos pães o Senhor não criou do nada, mas multiplicou o que os discípulos trouxeram, assim também na vida espiritual: Ele não opera onde não há nada de nossa parte, mas multiplica infinitamente nossos pequenos esforços.”
Consideremos primeiramente a nossa condição. Tal como os discípulos no deserto, olhamos para nossos recursos espirituais e nos desesperamos. Sete pães para quatro mil pessoas! Que são nossas fracas resoluções diante da força do pecado? Que vale nossa tíbia vontade contra as paixões que nos assaltam?
Reconhecer esta pobreza não é defeito, meus caros — é o princípio da sabedoria. Os discípulos não fingiram ter mais do que possuíam. Não disseram ao Mestre: “Vamos dar um jeito, podemos resolver isto sozinhos.” Apresentaram-lhe honestamente sua penúria: sete pães apenas.
Assim devemos nós apresentar-nos diante de Deus. Sem máscaras, sem fingimentos. Nossa força de vontade? Fraca. Nossa constância? Vacilante. Nossa caridade? Imperfeita. Nosso amor a Deus? Tíbio. Eis nossos sete pães.
Mas — eis a grande maravilha da graça! — é justamente esta humilde confissão de nossa fraqueza que atrai a misericórdia divina. Santo Agostinho, o grande Doutor da Graça, suplica: “Dá o que ordenas e ordena o que queres.” Reconhece o santo que nada podemos sem Deus, mas também proclama que tudo podemos com ele.
Notemos bem o que fizeram os discípulos: entregaram TUDO o que tinham. Não guardaram um pão sequer para si, dizendo: “Ao menos garantamos nossa própria refeição.” Não. Puseram os sete pães inteiramente nas mãos de Cristo.
Eis a segunda lição, meus caros. No combate espiritual, não podemos fazer reservas. O homem velho é astuto — se deixarmos uma porta entreaberta, por ali entrará novamente. Se dissermos: “Morrerei para todos os pecados, exceto este pequeno defeito que tanto estimo” — já fracassamos.
A entrega deve ser total. Nossos jejuns, por pequenos que sejam — nas mãos de Cristo. Nossas orações, ainda que distraídas — nas mãos de Cristo. Nossos atos de paciência, imperfeitos como são — nas mãos de Cristo. Nossos esforços para perdoar, custosos e incompletos — tudo, absolutamente tudo, nas mãos benditas do Salvador.
São João Crisóstomo nos anima: “Façamos o que está em nosso poder, e Deus suprirá o que nos falta.” Notai bem — façamos o que está em nosso poder. Não o que está no poder dos anjos, dos santos, dos grandes místicos. O que está em NOSSO pobre poder. Cinco minutos de oração sincera? Ofereçamos. Uma pequena mortificação? Entreguemos. Um ato de caridade imperfeito? Não o desprezemos.
E que faz Nosso Senhor com estes pobres dons? O Evangelho nos diz que tomou os pães, deu graças, partiu-os e os deu aos discípulos. Cada gesto é significativo.
Toma ele nossos esforços — por menores que sejam, são preciosos a seus olhos. Dá graças — sim, meus caros, afinal Deus muito se alegra com nossas pequenas vitórias! Parte e distribui — multiplica o que era pouco, transforma o que era fraco em força, o que era imperfeito em instrumento de santificação.
É a graça santificante operando esta maravilha. Tal como o pão permanece pão mas se multiplica miraculosamente, nossos atos permanecem nossos mas ganham valor sobrenatural. Um copo de água dado em nome de Cristo vale mais que tesouros oferecidos por vanglória. Uma Ave-Maria rezada com devoção pesa mais na balança divina que longas orações feitas por rotina.
O contraste é admirável: de um lado, nossa pequenez; do outro, a magnificência divina. Somos mendigos oferecendo migalhas, mas estas migalhas, tocadas pela graça, tornam-se um maravilhoso banquete celestial.
Observemos ainda, meus caros, que a multidão estava com Cristo há três dias. Três dias no deserto! Não vieram apenas ouvir um sermão e partir. Perseveraram, mesmo quando o alimento natural faltava.
Aqui aprendemos que o combate contra o homem velho não é obra de um dia. São Jerônimo nos adverte com realismo: “O homem velho não morre senão golpe por golpe.” Não imaginemos que uma confissão bem feita, um retiro fervoroso, uma comunhão piedosa resolverão definitivamente nossos problemas espirituais. Nem descobriremos em um simples aconselhamento com o padre um segredo, um truque especial para vencer algum vício – não há código secreto para desbloquear poder como em um videogame.
Não, meus caros. Cada manhã devemos renovar o combate. Cada tentação vencida é um golpe no homem velho, mas ele se levanta novamente. Cada ato de virtude o enfraquece, mas não o mata de vez. É trabalho de toda a vida — trabalho diário, constante, por vezes tedioso.
Mas — e aqui está o consolo — cada pequena vitória é multiplicada pela graça. Vencemos uma pequena impaciência pela manhã? A graça multiplica esta vitória, fortalecendo-nos para as tentações da tarde. Fizemos um ato de caridade custoso? Este ato gera graças não só para nós, mas para toda a Igreja.
É como os cestos que sobraram — sete cestos cheios! A graça sempre excede nossas necessidades. Nunca ficamos apenas com o suficiente; Deus nos dá com superabundância.
Quais são estes frutos, meus caros? Primeiro, a paz de consciência. Quando cooperamos com a graça, mesmo em coisas pequenas, sentimos aquela paz que o mundo não pode dar. É a paz de quem está no caminho certo, ainda que avance lentamente.
Segundo, o crescimento nas virtudes. Como uma bola de neve que desce a montanha, nossos pequenos atos de virtude vão crescendo. A paciência de hoje facilita a paciência de amanhã. A caridade praticada agora abre o coração para uma maior e mais intensa caridade no futuro.
Terceiro, o auxílio aos outros. Assim como os pães multiplicados alimentaram toda a multidão, nossos pequenos esforços, multiplicados pela graça, beneficiam o Corpo Místico inteiro. Uma mãe que oferece com paciência os trabalhos domésticos, um pai que suporta com mansidão as contrariedades do trabalho, uma criança que obedece prontamente — todos estes pequenos atos, multiplicados pela graça, são como pães que alimentam espiritualmente toda nossa Santa Madre Igreja pelo mistério da comunhão dos santos.
Desçamos ao concreto, meus caros. Como aplicar esta doutrina em nossa vida quotidiana?
No exame de consciência noturno, não nos desanimemos ao ver nossas faltas. Ofereçamos a Deus o pequeno esforço de reconhecê-las com humildade. Este simples ato de conhecimento próprio, nas mãos de Deus, torna-se luz para o dia seguinte.
Quando vier a tentação — e virá certamente — não confiemos em nossas forças. Mas também não desesperemos. Façamos o pequeno esforço de dizer “não”, ainda que sintamos toda nossa fraqueza. Este “não” vacilante, sustentado pela graça, vale mais que mil propósitos presunçosos.
Na oração diária, não ambicionemos êxtases místicos. Cinco minutos de conversa sincera com Deus, dez Ave-Marias rezadas com atenção possível, a leitura meditada de uma página do Evangelho — eis nossos sete pães. Deus os multiplicará.
Na prática da caridade, não esperemos as grandes ocasiões. Um sorriso ao vizinho difícil, paciência com os defeitos do cônjuge, ajuda prestada sem alarde — pequenos pães que, benzidos por Cristo, alimentarão muitos.
Mas há ainda algo mais profundo, meus caros. Nas faltas e fraquezas que diariamente manifestamos, podemos também oferecer nossa própria indigência e miséria a Deus. Parece paradoxal, mas é verdade consoladora: nossas quedas, reconhecidas e oferecidas com humildade, tornam-se degraus para subirmos ao céu. Crescendo no conhecimento de nossa miséria, crescemos na confiança em sua misericórdia. Aprendendo nossa radical dependência, abrimos espaço para que a caridade divina opere em nós. Os santos não foram aqueles que nunca caíram, mas aqueles que souberam transformar cada queda em ato de humildade e confiança.
Com efeito, muitas vezes nos preocupamos tanto em oferecer a Deus nossos pequenos atos virtuosos e nossas raras vitórias, que esquecemos de oferecer-lhe também nossas quedas e humilhações. No entanto, estas também são instrumentos que a Providência usa para nossa santificação e para sua maior glória. Se Nosso Senhor instituiu o sacramento da Penitência, foi precisamente para mostrar que até mesmo do mal do pecado ele pode tirar um bem maior para nossas almas e uma maior glória para si. A água da contrição, transformada no vinho do perdão sacramental — eis outro milagre da multiplicação divina! Nossa miséria confessada torna-se ocasião de misericórdia; nossa fraqueza reconhecida, motivo de fortaleza sobrenatural.
Caríssimos fiéis, não nos percamos e não percamos a coragem no combate espiritual. Sim, somos fracos. Sim, o homem velho resiste. Sim, caímos repetidamente. Mas temos um Salvador compassivo que não despreza nossos pobres esforços.
São Bernardo nos deixa uma síntese admirável: “Remove o livre arbítrio e não haverá o que salvar; remove a graça e não haverá como salvar.” Devemos fazer nossa parte — pequena, imperfeita, vacilante. Deus fará a sua — grande, perfeita, constante.
Olhemos para o altar, meus caros. Ali, sob as espécies do pão, está o mesmo Cristo que multiplicou os pães no deserto. Ali está Aquele que toma nossas pobrezas e as transforma em riquezas espirituais. Ali está nossa força, nosso alimento, nossa esperança.
Que Nossa Senhora, a quem nunca faltou generosidade em cooperar com a graça, nos alcance a perseverança neste combate. Que jamais desistamos de oferecer nossos sete pães — nossos pequenos esforços diários. Nas mãos de seu Divino Filho, eles se tornarão alimento de vida eterna.


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