Sermão para o XV Domingo depois de Pentecostes
Pe. Marcos Vinicius Mattke, IBP
Brasília-DF, 21 de setembro de 2025 A.D.
Capela Nossa Senhora das Dores
Caríssimos fiéis,
Contemplemos hoje o Evangelho que nossa Santa Romana Igreja nos apresenta neste décimo quinto domingo depois de Pentecostes. Vemos Nosso Senhor aproximar-se dos portões de Naim, onde encontra um cortejo fúnebre, uma viúva que chora seu único filho. Notemos bem, meus caros: Cristo não foi chamado. Ninguém lhe suplicou. Ninguém lhe pediu um milagre. Foi ele quem, misericordia motus, movido pela misericórdia, tomou a iniciativa de consolar aquela pobre mulher.
Não a repreendeu por suas lágrimas. Não a censurou por sua dor. Apenas, com infinita ternura, disse-lhe: “Não chores.” E então, tocando o féretro, devolveu-lhe o filho vivo. Como bem nos ensina Santo Ambrósio, Doutor da Igreja: “A misericórdia não conhece tardança quando vê a necessidade.” Eis o coração de nosso Deus, um coração que se compadece antes mesmo que lhe peçamos compaixão.
I. Cristo, nosso misericordioso Amigo
Meus caros, consideremos primeiro quem é Este que se aproxima do cortejo. Não é um profeta distante, não é um juiz severo, é o Divino Médico que não se escandaliza com nossas feridas mais purulentas. Observemos a delicadeza com que Jesus toca o féretro. Os judeus consideravam impuro tocar um morto, mas Cristo não recua diante da morte. Assim também ele não recua diante de nossas almas mortas pelo pecado.
Santo Agostinho, em suas Confissões, nos consola com estas palavras: “Deus humiliat ut sanet, non ut perdat”, “Deus humilha para curar, não para perder.” Quando nos sentimos humilhados pelo peso de nossos pecados, quando a consciência nos acusa, não é para nossa perdição, é o início da cura. Como o cirurgião que abre a ferida não para matar, mas para limpar e cauterizar, assim age conosco o Divino Médico.
Esta aproximação voluntária de Cristo, sem ser rogado, sem ser chamado, revela-nos algo fundamental sobre a natureza da misericórdia divina. Ela nos previne, nos antecipa, nos busca antes que a busquemos. Quantas vezes, meus caros, não vivemos isto em nossa vida? Aquela inspiração súbita para nos confessarmos, aquele remorso inesperado que nos afasta do pecado, aquela consolação que chega quando nem sequer tínhamos forças para pedir, tudo isto é Cristo aproximando-se de nosso féretro espiritual, mesmo sem ser chamado.
II. Jesus, o bom amigo de nossas almas
Mas há algo mais profundo ainda neste encontro de Naim. Cristo não age apenas como médico ou como profeta, age como amigo. Ele mesmo nos disse: “Vos dixi amicos”, “Eu vos chamei amigos.” Não servos, não súditos apenas, mas amigos.
Santo Aelredo de Rievaulx, cisterciense do século XII, em seu tratado De Spirituali Amicitia, ousou escrever: “Deus é amizade.” E quem permanece na verdadeira amizade, permanece em Deus e Deus nele. Que mistério admirável! O Criador do universo, o Eterno, o Onipotente, desce até nossa pequenez e oferece-nos sua amizade.
São Francisco de Sales, doutor da Igreja, contemplando o Sagrado Coração, exclamou: “O Coração de Jesus é o trono da misericórdia, onde ele se assenta como amigo e irmão nosso.” Notemos bem, meus caros: amigo e irmão. Não apenas uma divindade distante que se compadece, mas alguém que assumiu nossa natureza, que conhece nossas fraquezas por experiência, exceto o pecado.
A amizade divina possui uma qualidade que nenhuma amizade humana pode igualar: ela desce até nossa miséria sem se contaminar, aproxima-se de nossa podridão sem se corromper. Como Jesus se aproximou daquele féretro em Naim, toca o que há de morto em nós para vivificar. Santo Tomás de Aquino, o Doutor Angélico, ensina-nos que a caridade é essencialmente amizade com Deus: “Caritas est amicitia quaedam hominis ad Deum”, a caridade é uma certa amizade do homem com Deus.
Contemplemos o contraste: as amizades humanas, tantas vezes, fogem na hora da adversidade. Quando caímos em desgraça, quando o pecado nos desfigura, quando a miséria nos humilha, onde estão os amigos? Mas Cristo, pelo contrário, faz-se mais presente justamente na tribulação. Santa Teresa de Jesus, reformadora do Carmelo, chamava-o: “Tão bom amigo e tão bom capitão que se pôs primeiro a sofrer.”
Meus caros, que confiança devemos ter neste amigo divino! São Bernardo de Claraval nos anima: “Onde há perigo maior, aí está o socorro mais pronto.” Quanto mais desesperada nossa situação, mais próximo está o Sagrado Coração. São Cláudio de la Colombière contemplava: “O Sagrado Coração é o símbolo e a imagem sensível do amor infinito de Jesus Cristo, amor que nos move a amar-nos mutuamente.”
III. Nossa miséria reconhecida
Mas para receber esta misericórdia, meus caros, precisamos primeiro reconhecer nossa miséria. A viúva de Naim não fingiu que tudo estava bem, chorava abertamente sua desgraça. Assim também nós: somos desamparados sem Cristo, órfãos sem Deus, mortos sem a graça.
São Bernardo nos ensina uma verdade fundamental: “O reconhecimento da própria miséria é o princípio da salvação.” Por quê? Porque enquanto nos julgarmos sãos, não buscaremos o médico. Enquanto nos crermos vivos, não clamaremos pela ressurreição.
Após o pecado original, carregamos em nós uma tendência ao mal que nos humilha constantemente. São Filipe Neri, conhecido por sua jovialidade e bom-humor, tinha uma oração diária que deveria nos fazer refletir: “Senhor, não confieis em Filipe, pois se não me ajudardes hoje, hoje mesmo vos trairei.” Um santo canonizado reconhecia sua fragilidade diária! Que diremos nós, miseráveis pecadores?
São Paulo nos adverte na epístola de hoje: “Aquele que julga estar de pé, cuide para não cair.” Qui stat caveat ne cadat! A presunção é o prelúdio da queda. O orgulho espiritual é mais perigoso que os pecados da carne, porque estes ao menos nos humilham, enquanto aquele nos cega completamente.
IV. A correção fraterna como extensão da misericórdia divina
Agora, meus caros, chegamos ao ponto crucial de nossa pregação. Esta misericórdia que recebemos de Cristo não pode ficar estagnada em nós, deve fluir para nossos irmãos. São Paulo nos instrui na epístola: “Se alguém cair em alguma falta, vós que sois espirituais, corrigi-o com espírito de mansidão.”
Notemos: “vós que sois espirituais”, isto é, aqueles que receberam a misericórdia e vivem na graça. Não é qualquer um que deve corrigir, mas aquele que primeiro experimentou o perdão divino. E como devemos corrigir? “Com espírito de mansidão, considerando-te a ti mesmo, para que não sejas também tentado.”
Santo Tomás de Aquino afirma categoricamente: “A correção fraterna é ato de caridade maior que curar o corpo, pois o bem espiritual supera o bem corporal.” Pensemos nisto! Dar esmola é caridade, visitar os enfermos é caridade, mas advertir o irmão que caminha para o abismo eterno é caridade ainda maior.
Mas como distinguir a correção caritativa da crítica maliciosa? São Bento, em sua Santa Regra, nos dá a chave: “Vitia odire, fratres diligere”, “Odiar os vícios, amar os irmãos.”Separar o pecado do pecador, detestar o erro amando quem erra.
Quando corrigimos, devemos agir como embaixadores de Cristo, prolongando sua amizade misericordiosa. Não somos promotores de justiça buscando condenação, mas médicos procurando a cura. Não somos carrascos, mas enfermeiros do Divino Médico.
V. A mansidão como condição necessária
A mansidão, meus caros, não é opcional na correção fraterna, é condição necessária, sem a qual não há correção mas vingança. Cristo mesmo nos deu o exemplo: não quebra a cana rachada, não apaga a mecha que ainda fumega. Com que paciência suportou os apóstolos! Com que delicadeza tratou a Madalena! Com que ternura converteu o bom ladrão!
São Gregório Magno, em sua Regra Pastoral, adverte solenemente: “Deve-se repreender de tal modo que o amor permaneça intacto no coração.” E acrescenta: “A correção sem caridade torna-se perseguição.” Quantas almas se afastaram de nossa Igreja não pelo peso de seus pecados, mas pela dureza de supostas correções que não foram outra coisa senão uma odiosa agressão cheia de soberba!
São Francisco de Sales, mestre da mansidão, repetia: “Apanha-se mais moscas com uma gota de mel do que com um barril de vinagre.” E ainda: “Nada é tão forte como a gentileza, nada tão gentil como a verdadeira força.” A verdadeira força não está em esmagar o pecador, mas em levantá-lo.
Pensemos no médico que trata uma ferida gangrenada. Se apertar com força demasiada, causará dor insuportável e o paciente fugirá. Se for negligente, a gangrena se espalhará. Assim deve ser nossa correção: firme mas suave, clara mas caritativa.
Santo Afonso de Ligório confirma: “Quem repreende com aspereza, ainda que tenha razão, raramente consegue o fruto desejado.” Por quê? Porque o coração humano, ferido pelo pecado original, quando atacado se fecha como ostra, mas quando tratado com amor se abre como uma flor ao sol.
São Vicente de Paulo, apóstolo da caridade, ensinava seus filhos espirituais: “Se queremos ganhar o coração do homem, devemos primeiro mostrar-lhe que procuramos seu bem.” O pecador precisa saber e perceber que não queremos sua humilhação, mas sua salvação; não sua derrota, mas sua vitória sobre o pecado.
E tudo isto, meus caros, aprendemos em nosso bom amigo, o Sagrado Coração de Jesus, que nos convida: “Aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração.”
Aplicação prática
Meus caros, desçamos agora ao exame prático de nossa consciência:
Primeiro, perguntemo-nos: temos cultivado nossa amizade com Cristo através da oração diária e da recepção frequente e fervorosa dos sacramentos? Como temos recebido a misericórdia divina no sacramento da confissão, com gratidão ou com rotina?
Segundo: temos sido instrumentos desta misericórdia para com o próximo? Quando vemos alguém em erro, nossa primeira reação é a compaixão ou o julgamento? Corrigimos por amor às almas ou por orgulho ferido, por zelo de Deus ou por vanglória própria?
Lembremo-nos sempre de Santa Teresa d’Ávila: “A humildade é andar na verdade.” A verdade sobre nós mesmos é que somos pecadores perdoados, e a verdade sobre nossos irmãos é que são amados por Cristo tanto quanto nós.
Tratamos nossos irmãos como amigos de Cristo, com reverência e caridade? Ou os desprezamos em nosso coração enquanto fingimos corrigi-los?
Peroração
Caríssimos fiéis, ao concluir nossa pregação, gravemos em nossos corações esta verdade: no juízo seremos medidos com a mesma medida que usarmos. São Pedro Crisólogo nos exorta: “Homo, da homini, ut accipias a Deo”, “Homem, dá ao homem, para que recebas de Deus.”
“Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia.” Não está escrito “bem-aventurados os justiceiros” ou “bem-aventurados os severos”, mas os misericordiosos.
A Imitação de Cristo nos ensina: “Suporta-te a ti mesmo, e poderás suportar o próximo.” Se não conseguimos suportar nossos próprios defeitos, como pretendemos corrigir os alheios?
São Bernardo nos deixa esta consolação: “Quanto maior a miséria, tanto maior a misericórdia.” Nossa miséria não afasta a misericórdia divina, muito pelo contrário, a atrai como o abismo chama o abismo. Mas esta misericórdia recebida deve tornar-se misericórdia partilhada. A amizade com Cristo nos capacita, até mais, obriga-nos a ser verdadeiros amigos de nossos irmãos.
Supliquemos, pois, a Nossa Senhora, Mater Misericordiae, Mãe de Misericórdia, que nos ensine a ter com nossos irmãos a mesma ternura maternal que ela tem para conosco, pecadores. Que ela, que seguiu seu Divino Filho até o Calvário, nos ensine a seguir seus passos de misericórdia.
Que unidos ao Sagrado Coração de Jesus, fonte inexaurível de toda misericórdia e modelo de perfeita amizade, possamos ter, como pedia Santo Isaac, o Sírio: “um coração que arde por toda a criação”, um coração que se compadece, que perdoa, que levanta, que cura.
Assim, meus caros, quando chegar nossa hora, quando formos nós o morto no féretro, Cristo se aproximará não como juiz terrível, mas como o amigo misericordioso que um dia, nos portões de Naim, mostrou-nos o que significa ter compaixão. E dirá também à nossa alma: “Eu te ordeno: levanta-te!” E ressuscitaremos para a vida eterna, onde não haverá mais lágrimas nem pranto, mas apenas o gozo eterno da amizade divina, para sempre confirmada na visão beatífica. Amém.


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