Sermão para o II Domingo da Quaresma
Pe. Marcos Vinicius Mattke, IBP
Brasília-DF, 1º de março de 2026 A.D.
Capela Nossa Senhora das Dores
Caríssimos fiéis,
A Coleta que nossa Santa Romana Igreja reza este Domingo contém uma confissão terrível: “Deus, qui conspicis omni nos virtute destitui”, “Ó Deus, que vedes estarmos nós destituídos de toda virtude”. Destituídos, não diminuídos, não enfraquecidos, mas destituídos: esvaziados, despojados, como uma fortaleza abandonada cujas portas ficaram abertas ao inimigo.
E entre as portas mais expostas da nossa alma, uma das mais negligenciadas, e por isso mais perigosas, é a porta da mente: a imaginação, a atenção, o pensamento. Por isso a Coleta suplica a Deus que nos guarde “interius exteriusque”, por dentro e por fora, e que purifique a nossa mente “a pravis cogitationibus”, dos pensamentos depravados, tortos, desordenados.
Não se trata apenas dos pensamentos impuros contra a castidade, embora esses também estejam incluídos. Trata-se de algo mais vasto e mais insidioso: a desordem habitual da mente, a dissipação permanente do pensamento, a incapacidade de recolher a inteligência e fixá-la em Deus. É o vício que Santo Tomás chama curiositas, a curiosidade desordenada, e que os Padres do Deserto já combatiam sob o nome de perispassmos (περισπασμός): a distração, a dispersão da alma.
Ora, caríssimos, se este vício já era perigoso no silêncio dos mosteiros antigos, que diremos nós, que vivemos imersos na mais gigantesca máquina de dispersão mental que a história humana jamais produziu?
I. O diagnóstico: a mente escravizada
Santo Tomás trata da curiositas na Summa Theologiae (IIa-IIæ, q. CLXVII, a. 2, corpus), opondo-a à virtude da studiositas (Summa Theologiae, IIa-IIæ, q. CLXVI, a. 2, ad 2um. A studiositas é a virtude que modera e ordena o apetite de conhecer; a curiositas é o vício que o perverte: buscar conhecimento para fins maus, de fontes ilícitas, sem finalidade útil, a curiosidade pela curiosidade, ou, ainda, buscar conhecimento acima da própria capacidade, negligenciando o que se deveria saber. É precisamente esta desordem que domina o mundo moderno: o consumo incessante de estímulos sensoriais e informativos sem qualquer finalidade racional, e com grave prejuízo para a vida interior.
Façamos, meus caros, uma reflexão honesta: quantas horas por dia o cristão médio dedica a alimentar a sua mente com informações, imagens e estímulos que não servem absolutamente para nada, nem para o seu trabalho, nem para a sua formação, nem para a sua salvação? O fenômeno é sem precedentes na história.
O homem moderno vive diante de telas, pela manhã ao despertar, durante o trabalho, durante as refeições, à noite antes de dormir. O celular converteu-se numa extensão do corpo. O gesto de deslizar o dedo sobre a tela tornou-se tão automático e compulsivo quanto um tique nervoso. E o que se busca nesse movimento incessante? Nada de específico. Busca-se apenas o próximo estímulo. Os engenheiros das grandes empresas de tecnologia projetam deliberadamente essas plataformas para maximizar o tempo de atenção capturada, usando mecanismos de recompensa variável que funcionam exatamente como as máquinas de jogo de azar e os próprios entorpecentes. O celular é, do ponto de vista psicológico, uma caça níqueis no bolso.
A indústria do entretenimento, por sua vez, não oferece simplesmente diversão: oferece mundos alternativos onde a alma pode habitar sem nunca ter de confrontar a realidade, sem confrontar a si mesma, sem confrontar Deus. Séries maratonáveis, jogos eletrônicos que simulam realizações fictícias, redes sociais que oferecem a ilusão de comunidade sem o custo real do amor ao próximo. O entretenimento deixou de ser pausa; tornou-se habitat, ou melhor, um cativeiro. A diversão converteu-se no fim último prático da existência de milhões de pessoas.
Os Padres espirituais sempre ensinaram que a imaginação, a phantasia, é a “louca da casa”, como bem dizia Santa Teresa. Ora, o mundo moderno alimenta a imaginação de forma desproporcionada e contínua. O resultado é uma imaginação hipertrofiada e uma razão atrofiada. O homem moderno imagina muito e pensa pouco. Consome fantasias e não consegue articular um raciocínio de três passos. Vive num fluxo de imagens e é incapaz de meditar um versículo da Escritura durante cinco minutos.
A isso somam-se a fragmentação da atenção pelas notificações permanentes, cada uma como uma agulha que perfura o tecido do pensamento, e a ilusão do conhecimento: o homem moderno “sabe” tudo e compreende quase nada. Quantos católicos sabem as bem a classificação do brasileirão, ou quem foi eliminado ou o que rolou na imundície moral dos reality shows, e não sabem os Dez Mandamentos? Quantos conhecem a vida das celebridades e nunca leram uma página do Evangelho?
Pascal já diagnosticava este mal: “Tout le malheur des hommes vient d’une seule chose, qui est de ne savoir pas demeurer en repos dans une chambre”, “Toda a infelicidade dos homens vem de uma só coisa: não saber ficar em repouso num quarto” (Pensées, 139). Se isto era verdade no século XVII, que diremos da nossa era, em que o celular trouxe todo o ruído do mundo para dentro do quarto? E São Paulo já advertia sobre os que têm “prurientes auribus”, “comichão nos ouvidos” (II Tim IV, 3), sempre ávidos de novidade. O homem moderno é o ateniense de São Paulo elevado à enésima potência: vive de notícias que não lhe servem para nada, opiniões que agitam a alma sem produzir nenhum fruto de santidade, buscando prazereis baixos e incapazes de saciá-lo, enquanto correm a plenos pulmões para o terror eterno do inferno.
II. A Confirmação das neurociências
As neurociências modernas confirmam aquilo que os Padres espirituais já sabiam por experiência interior. O cérebro humano possui um sistema de recompensa baseado no neurotransmissor dopamina, que dispara sobretudo quando antecipamos uma recompensa incerta. É exatamente esse mecanismo que as plataformas digitais exploram: o scroll infinito, as notificações intermitentes, tudo funciona como um esquema de reforço variável, o mesmo princípio que torna o jogo de azar viciante. A dispersão mental moderna não somente fraqueza de vontade: é um vício neurobiologicamente reforçado.
Além disso, estudos demonstram que o uso intensivo de dispositivos digitais enfraquece o córtex pré-frontal, a região do cérebro responsável pela atenção sustentada e pelo autocontrole. O princípio da neuroplasticidade estabelece que o cérebro se remodela em função dos comportamentos repetidos: anos de dispersão reconfiguram o cérebro para a dispersão. É Santo Tomás quem nos ensina que o vício gera um habitus (Summa Theologiae, Ia-IIæ, q. LXXI, a. 3, corpus), uma disposição estável que inclina a alma ao mal. O vício da curiositas não é apenas espiritual; ele se inscreve na própria carne do nosso cérebro. Mas a boa notícia é que o inverso também é verdadeiro (Summa Theologiae, Ia-IIæ, q. LI, a. 3, corpus): a disciplina, o estudo, a oração e o silêncio reconfiguram o cérebro para a atenção e a contemplação. A ascese quaresmal é, literalmente, uma reprogramação do cérebro.
III. O remédio: a reconquista da mente
Caríssimos, São Paulo diz na Epístola deste Domingo: “Ut sciat unusquisque vestrum vas suum possidere”, “Que cada um de vós saiba possuir o seu vaso em santificação e honra” (I Tess. IV, 4). A tradição espiritual sempre aplicou este texto num sentido amplo: possuir-se a si mesmo: ter domínio sobre o próprio corpo, a própria imaginação, a própria mente. Ora, o homem dissipado não se possui: é possuído. É possuído pelas notificações, pelos algoritmos, pela indústria do entretenimento. Não é dono do seu tempo, não é dono dos seus pensamentos. É, na expressão de São Paulo, como “gentes quae ignorant Deum”, “os gentios que ignoram a Deus” (I Tess. IV, 5).
A Quaresma é o tempo de retomar posse de si mesmo. Quantos de nós são verdadeiramente livres diante do seu telefone? Quantos podem deixá-lo desligado por um dia inteiro sem ansiedade? Se não podemos, não somos livres.
Façamos, portanto, caríssimos, um jejum digital quaresmal: horas do dia sem telefone, dias sem redes sociais, noites sem telas. Pratiquemos a custodia sensuum, a guarda dos sentidos, que Cassiano ensinava nas Collationes: escolher deliberadamente o que entra pelos olhos e ouvidos. Pratiquemos a leitura lenta da Escritura, a lectio divina, contra a superficialidade da informação fragmentada. E sobretudo, pratiquemos a oração mental quotidiana, mesmo que breve: é o exercício supremo de atenção dirigida a Deus. Santa Teresa insistia: “Nunca deixeis a oração mental, por mais secura ou distração que sintais; é nela que Deus vos trabalha.”
Cumpre advertir, meus caros, que a curiositas não é um vício isolado: é porta de entrada para outros males gravíssimos. Ela engendra a acídia digital, aquela tristeza espiritual que se disfarça de “tédio” e leva a buscar estímulos cada vez mais intensos para preencher um vazio que só Deus pode preencher. Conduz, nos casos mais graves, à pornografia, convergência da luxúria com a curiosidade desordenada. Alimenta a vaidade intelectual do “estar informado”, soberba disfarçada de virtude cívica. E produz, enfim, a tibieza espiritual: a dissipação crônica leva à incapacidade de oração, que leva ao esfriamento da caridade, que leva ao abandono dos sacramentos, numa espiral descendente que conduz à morte da alma.
A gravíssima responsabilidade dos pais
E aqui devo dirigir-me particularmente aos pais de família. Senhores pais: se tudo o que dissemos é verdade para adultos que possuem a razão formada e a vontade madura, e ainda assim são escravizados, que diremos das crianças e dos adolescentes, cujo cérebro ainda está em formação, cujo córtex pré-frontal, a sede do autocontrole e do discernimento, não estará plenamente desenvolvido antes dos vinte e cinco anos de idade?
Entregar um celular com acesso irrestrito à internet a uma criança ou a um adolescente é entregar uma arma carregada a quem não tem capacidade de manejá-la. É escancarar as portas da alma de um inocente ao esgoto do mundo: à pornografia, à ideologia, à banalização do pecado, à destruição da inocência, à corrupção da imaginação e da inteligência. Não há desculpa para isso. Não há desculpa na conveniência, não há desculpa no “todo mundo faz”, não há desculpa no “precisa para a escola”, não há no desculpa no “ele tem que aprender usando”, não há desculpa no “pode precisar para uma emergência”. A responsabilidade dos pais diante de Deus é inegociável: “Qui autem scandalizaverit unum de pusillis istis qui in me credunt, expedit ei ut suspendatur mola asinaria in collo eius”, “Quem escandalizar um desses pequeninos que creem em Mim, melhor lhe fora que lhe suspendessem ao pescoço uma mó de moinho” (Mt. XVIII, 6).
E se tudo isso já não bastasse, chegamos agora ao cúmulo da insanidade: crianças e adolescentes que recorrem à chamada Inteligência Artificial para pedir conselhos, conselhos sobre a vida, sobre os sentimentos, sobre decisões morais. Uma máquina sem alma, sem fé, sem graça, sem nenhum princípio sobrenatural, programada segundo a ideologia dominante do mundo, torna-se o diretor espiritual dos nossos filhos. Uma máquina que não sabe o que é o pecado, que não conhece a lei de Deus, que não pode amar, e a ela os jovens confiam as perplexidades da alma que deveriam confiar aos pais, ao sacerdote, ao confessor. E o que é pior: essas máquinas são, por construção, máquinas de validação. Elas concordam com tudo. Elas fornecem justificativa para o que quer que lhes seja apresentado, por mais absurdo, por mais irracional, por mais contrário à lei natural que seja. Um jovem confuso sobre qualquer questão recebe dela uma confirmação eloquente da sua confusão. Um adolescente revoltado contra os pais recebe dela argumentos sofisticados para justificar a sua revolta. Uma menina que quer abandonar a fé recebe dela razões articuladas para a apostasia. A Inteligência Artificial na mão dos jovens é uma fábrica de argumentos para justificar a irracionalidade própria da juventude, é uma fábrica de loucos lúcidos, de almas perdidas que se julgam esclarecidas. Se já é grave abandonar os filhos diante da internet, que nome daremos a isto? É entregar a formação da consciência dos inocentes a um oráculo sem Deus.
Pais, os senhores podem estar preparando a própria condenação pela negligência em proteger os seus filhos do esgoto da internet, por deixar a imaginação e a inteligência deles serem corrompidas pelas armas funestas do mundo. Os senhores responderão por isso na eternidade. Não diante de um tribunal humano, que talvez os absolva, mas diante do Juiz Eterno, que viu cada hora em que os seus filhos foram abandonados diante de uma tela, cada imagem que lhes envenenou a alma, cada pensamento impuro que lhes roubou a inocência batismal. Protejam os seus filhos. É o dever mais sagrado que Deus lhes confiou. Da nossa parte, temos nossa consciência tranquila; os senhores bem sabem que não nos cansamos de avisar.
IV. O fim: “ipsum audite” — A Escuta no Tabor
No Evangelho, Jesus leva São Pedro, São Tiago e São João “in montem excelsum seorsum”, a um monte alto, à parte. Este “à parte” é essencial. Para ver a glória de Cristo, é preciso separar-se, separar-se da multidão, do ruído, da planície das ocupações mundanas. E o que acontece no Tabor? Jesus transfigura-se: “resplenduit facies eius sicut sol, vestimenta autem eius facta sunt alba sicut nix”, “o Seu rosto resplandeceu como o sol, e as Suas vestes tornaram-se brancas como a neve.” Mas para ver este resplendor, é preciso possuir os olhos purificados, olhos que não estejam embaçados por milhares de imagens inúteis.
E a voz do Pai declara: “Hic est Filius meus dilectus, in quo mihi bene complacui: ipsum audite”, “Este é o meu Filho amado, no qual me comprazo: a Ele ouvi.” Ipsum audite: ouçam a Ele. Não aos algoritmos. Não às notificações. Não ao ruído perpétuo do mundo. A Ele. Mas como ouviremos a Sua voz se nunca estamos em silêncio? Elias, no monte Horeb, não encontrou Deus no vento, nem no terremoto, nem no fogo, mas na “vox aurae tenuis”, na voz de uma brisa suave (III Re. XIX, 12). A voz de Deus é suave; exige silêncio para ser ouvida. E o mundo moderno foi construído para impedir esse silêncio.
São Pedro, diante da glória, exclama: “Domine, bonum est nos hic esse!”, “Senhor, bom é estarmos aqui!” É o grito de quem conheceu a doçura de Deus e já não quer mais nada. Quem provou a contemplação sabe que nenhum entretenimento do mundo se compara a um instante de verdadeira oração. O problema é que a maioria dos católicos nunca experimentou isto, porque nunca fez silêncio suficiente para chegar ao monte Tabor.
Peroração
Caríssimos, nesta Quaresma, ousemos subir ao Tabor. Ousemos fazer silêncio. Ousemos desligar os aparelhos, fechar as portas da dispersão, retomar posse da nossa mente.
A Coleta pede: “a pravis cogitationibus mundémur in mente”, “sejamos purificados dos maus pensamentos na mente.” Respondamos a essa oração com atos concretos. Façamos um verdadeiro jejum da curiosidade desordenada. Reconquistemos o silêncio que o mundo nos roubou. E no silêncio reconquistado, ouçamos a voz do Pai: “Ipsum audite.”
Porque no fim, caríssimos, só há uma coisa necessária, “porro unum est necessarium”, “uma só coisa é necessária” (Lc. X, 42), e essa coisa não se encontra em nenhuma tela: encontra-se na Face transfigurada de Cristo, que só se revela a quem se dispõe a subir o monte, à parte, em silêncio.


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