Sermão para a Festa da Sagrada Família
I Domingo depois da Epifania
Pe. Marcos Vinicius Mattke, IBP
Brasília-DF, 11 de janeiro de 2026 A.D.
Capela Nossa Senhora das Dores
Caríssimos fiéis,
Nossa Santa Madre Igreja coloca diante de nossos olhos, neste domingo, o modelo perfeito de toda vida doméstica: a Sagrada Família de Nazaré. Jesus, Maria e José, três nomes que encerram um mistério de amor, de silêncio e de santidade escondida. Durante trinta anos, o Verbo Encarnado quis viver na obscuridade de um lar pobre, sujeito a uma Virgem e a um carpinteiro. E nós, meus caros, somos chamados a contemplar esse mistério não como curiosos, mas como discípulos que buscam aprender.
Que lição, porém, extrairemos hoje desta escola de Nazaré? Falemos da mansidão e da paciência no lar, virtudes humildes, quase invisíveis, mas sem as quais nenhuma família pode subsistir em paz. Virtudes que se fundam na caridade e na oração, pois sem esses alicerces sobrenaturais, toda mansidão é fingimento e toda paciência se esgota.
I. A tribulação no lar como providência divina
Comecemos, meus caros, por afastar uma ilusão perigosa, baseada em uma visão romântica e idílica da família. Há quem pense que o matrimônio e a vida familiar deveriam ser um jardim sem espinhos. E quando surgem as dificuldades, como inevitavelmente surgem, conclui-se que algo está errado, que a felicidade está em outra parte.
Nada mais falso. A vida doméstica não foi desenhada por Deus para ser um paraíso isento de cruzes. As tribulações do lar, as incompreensões, os temperamentos contrários, as limitações mútuas, as pequenas e grandes provações de cada dia, fazem parte da obra providencial de santificação e de salvação de Deus para os esposos e para toda a família. É o caminho do céu, que passa inevitavelmente pelo calvário.
São Francisco de Sales ensina que Deus coloca em cada estado de vida as ocasiões de virtude próprias àquele estado. Para os religiosos, a obediência e a vida comum; para os casados, a convivência quotidiana no lar. As pequenas tribulações domésticas são o material bruto com que se esculpe a santidade conjugal. Não se trata de eliminar toda dificuldade, o que seria impossível, mas de santificá-la. Como ouro no crisol, Deus prova os seus eleitos.
II. O combate interior: a natureza ferida e a resposta instintiva
Convém agora, meus caros, compreender o que se passa em nós quando o próximo se torna um peso. A natureza humana, ferida pelo pecado original, tende a perceber o outro, ainda que seja o próprio cônjuge, o próprio filho, como uma ameaça quando ele nos contraria ou nos faz sofrer.
Há nisto um substrato corporal que não podemos ignorar. O cérebro humano, diante do que percebe como perigo, aciona mecanismos primitivos de defesa. É o movimento do apetite irascível, e que envolve, no âmbito neurológico, o sistema límbico, com suas reações de luta ou fuga. Nesse estado, as faculdades superiores da alma, a razão e a vontade deliberada, ficam como que obscurecidas, pois a ativação do sistema límbico inibe o córtex pré-frontal. Surgem então as respostas impulsivas, as palavras precipitadas que ferem, os gestos de que logo nos arrependemos.
Eis a raiz das brigas domésticas, que são a “luta”, e dos afastamentos frios e prolongados entre os cônjuges, que são a “fuga”. Em ambos os casos, o esposo ou a esposa deixou de ser visto como parte de nós mesmos, carne de nossa carne, e passou a ser tratado como um inimigo exterior de quem é preciso defender-se. O amor cede lugar ao instinto de sobrevivência. A razão é destronada pela paixão.
III. O remédio: não reagir, orar, oferecer, e só depois falar
Que fazer, pois, meus caros, quando sentimos subir em nós essa onda de irritação? Há um caminho, e é preciso conhecê-lo antes que a tempestade chegue.
Primeiro: não reagir no momento. O silêncio imediato não é covardia nem aprovação de um eventual erro alheio; é prudência. É dar tempo para que a razão retome o governo da alma, para que as faculdades superiores voltem a funcionar. Santo Tomás ensina que o primeiro movimento da paixão não é pecado, pecado é consentir nele e agir segundo ele. Quem se cala no instante da ira não peca; quem fala, quase sempre se excede.
Segundo: elevar o coração a Deus. Uma jaculatória breve, uma invocação a Nossa Senhora, um olhar interior para Cristo paciente em sua Paixão. Esse movimento de oração, ainda que brevíssimo, faz descer a graça e reordena as potências da alma. O que parecia insuportável torna-se, senão leve, ao menos suportável.
Terceiro: oferecer a Deus aquela tribulação. Transformar a dor em oblação. Unir aquele pequeno sofrimento doméstico ao sacrifício de Cristo na Cruz. O que era ocasião de pecado torna-se matéria de mérito. O que era pedra de tropeço converte-se em degrau de santidade.
Quarto: falar depois, com calma, se for necessário. Muitas vezes descobriremos que nem era preciso dizer nada, ou que o que diríamos na hora teria sido injusto e ferino. E quando for preciso corrigir, poderemos fazê-lo com mansidão, buscando o bem do outro e não a nossa vingança.
Como dizia Santa Teresa de Jesus, “a paciência tudo alcança” (e o Padre Pasquotto muitas vezes nos recorda também). Essa paciência não é passividade estéril, mas força sobrenatural que vence pelo amor o que não se venceria pela contenda. A paciência cristã não é a resignação dos fracos; é a fortaleza dos santos.
IV. Ver o cônjuge como a própria carne
São Paulo, meus caros, dá aos esposos uma chave de ouro na Epístola aos Efésios: “Quem ama sua esposa, ama-se a si mesmo. Ninguém jamais odiou a própria carne, mas a nutre e dela cuida.”
O matrimônio fez dos dois uma só carne. Quando o cônjuge erra, quando tem defeitos, quando nos faz sofrer, não é um inimigo externo que nos ataca, mas é nossa própria carne que está ferida. E quem, tendo uma chaga no próprio corpo, a trata com ódio e violência? Não a tratamos antes com cuidado, com paciência, buscando a cura?
Assim devemos tratar as misérias do cônjuge: como se fossem as nossas próprias, porque de certo modo o são. A irritação do esposo é também minha cruz; a fragilidade da esposa é também minha ferida. A mesma lógica se estende a toda a família: pais, filhos, todos formamos um só corpo. Se um membro sofre, todos os membros sofrem com ele; se um membro é honrado, todos se alegram.
Esta visão, meus caros, muda tudo. Deixamos de contar os erros do outro como dívidas a cobrar e passamos a carregá-los como pesos comuns. A tribulação deixa de ser motivo de divisão e torna-se ocasião de união mais profunda. Onde o mundo vê incompatibilidade, a graça constrói complementaridade.
V. O sustento de tudo: a oração em família
Nada disto, porém, é possível contando apenas com as forças naturais. Podemos conhecer a doutrina, admirar os exemplos dos santos, fazer os melhores propósitos e na primeira ocasião, cair miseravelmente. O lar precisa de graça, e a graça ordinariamente só se obtém pela oração.
A Sagrada Família era, antes de tudo, uma casa de oração. O jovem Jesus subindo a Jerusalém com seus pais para a Páscoa, os salmos cantados em comum, o silêncio contemplativo de Maria Santíssima, a fidelidade de José à Lei do Senhor e ao seu dever de estado. Ali não se vivia apenas junto; vivia-se voltado para Deus.
O lar cristão, meus caros, deve ter seus momentos de oração comum. O Santo Rosário rezado em família, a bênção da mesa, o Angelus. São esses os momentos em que a graça desce e renova o que a fricção quotidiana desgasta. Onde se reza junto, as feridas saram mais depressa, os ressentimentos se dissolvem, a paciência se refaz para os combates do dia seguinte.
Peroração
Voltemos nossos olhos, meus caros, para a casa de Nazaré. Ali viveram, durante trinta anos, o Filho de Deus, a Virgem Imaculada e o Justo São José. Se em algum lar da terra poderia haver perfeição absoluta e idílica, seria naquele. E contudo, mesmo ali houve pobreza, houve exílio, houve a angústia de três dias buscando o Menino perdido, e tudo conduzindo para o alto do calvário. A tribulação não poupou nem a Sagrada Família.
Mas ali, a tribulação foi abraçada com fé, suportada com paciência, santificada pela oração. Ali, cada membro via no outro não um obstáculo, mas um dom. Ali, o silêncio era mais eloquente que muitas palavras, e a mansidão reinava sem necessidade de gritos.
Peçamos a Jesus, Maria e José que abençoem nossos lares. Que nos ensinem a calar quando a palavra feriria, a falar quando o silêncio seria omissão, a suportar com amor o que não podemos mudar, a mudar com prudência o que devemos corrigir. Que façam de nossas famílias, imperfeitas e feridas como são, pequenas imagens daquela casa bendita de Nazaré, onde Deus quis habitar entre os homens.


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