Sermão para a Festa da Dedicação da Arquibasílica do Santíssimo Salvador (São João do Latrão)
Comemoração do XXII Domingo depois de Pentecostes
Pe. Marcos Vinicius Mattke, IBP
Brasília-DF, 09 de novembro de 2025 A.D.
Caríssimos fiéis,
“Terribilis est locus iste: hic domus Dei est et porta cæli: et vocábitur aula Dei”, “Terrível é este lugar: aqui é a casa de Deus e a porta do céu: e será chamada a morada de Deus” Com estas palavras solenes do Intróito da Missa de hoje, nossa santa Romana Igreja nos impele à contemplação do mistério sublime da casa de Deus entre os homens. A santa liturgia celebra hoje a dedicação da Basílica do Santíssimo Salvador, a Basílica do Latrão, nossa catedral-mãe em Roma, e esta festa nos oferece ocasião propícia para meditarmos sobre o que significa verdadeiramente estar na presença de Deus em seus santos templos.
I. A Igreja é a casa de Deus e porta do Céu
Meus caros, quando Jacó despertou de seu sono místico em Betel, exclamou tremendo: “Verdadeiramente o Senhor está neste lugar e eu não sabia!” Quantas vezes não entramos em nossas igrejas com a mesma inconsciência, sem perceber que pisamos em solo sagrado? O templo cristão não é mero edifício de pedras, é a continuação daquele Santo dos Santos onde a glória de Deus descia como nuvem sobre a Arca da Aliança.
Santo Agostinho nos ensina que “Deus não habita em templos feitos por mãos humanas como se necessitasse de algo, mas quis ter lugares consagrados onde Seu povo se reunisse para invocá-lo e receber Suas graças”. Eis a maravilha que podemos viver: o Onipotente, que os céus não podem conter, digna-se habitar em nossas pobres igrejas! E não simbolicamente apenas, mas real e substancialmente.
No sacrário de nossas igrejas, verdadeiramente um mistério inefável, repousa o mesmo Cristo que nasceu em Belém, que caminhou na Galileia, que morreu no Calvário e ressuscitou glorioso. Ali está Ele, não em figura ou símbolo, mas em Corpo, Sangue, Alma e Divindade. Como exclamava São Francisco de Assis: “Ó admirável altura e estupenda dignação! Ó humildade sublime! O Senhor do universo, Deus e Filho de Deus, tanto se humilha que, pela nossa salvação, se esconde sob uma pequena forma de pão!”
São Filipe Néri, ao passar diante de uma igreja, não conseguia conter-se: entrava sempre para adorar o Santíssimo, ainda que por breves instantes. “Como posso passar diante da casa de meu Amigo sem cumprimentá-Lo?”, dizia o santo. Que contraste com nossa frieza e indiferença, meus caros! Passamos apressados diante de nossas igrejas, onde o Rei dos reis mantém uma corte permanente, sem sequer uma genuflexão interior de amor e adoração.
II. O Santo Sacrifício da missa: renovação do Calvário
Mas há mais ainda. Nossas igrejas não são apenas tabernáculos da Presença Real, são também o Calvário místico onde, a cada dia, renova-se o Sacrifício redentor. O Concílio de Trento, com autoridade infalível, declarou que na Santa Missa está contido e é imolado incruentamente o mesmo Cristo que no altar da cruz se ofereceu cruentamente uma só vez”.
Pensemos bem no que isto significa, meus caros! Cada vez que assistimos à santa Missa, estamos verdadeiramente ao pé da Cruz. O mesmo Sangue que jorrou das chagas sagradas é oferecido ao Pai pela salvação do mundo. Não é teatro sacro, não é mera comemoração, não é uma refeição comunitária, não é uma reunião da assembléia, é o mesmo e único sacrifício tornado presente através dos séculos. Como podemos, então, assistir com displicência, com distrações voluntárias, com conversas e risos?
São João Crisóstomo advertia seus fiéis: “Quando vedes o Senhor imolado e posto sobre o altar, e o sacerdote inclinado sobre o sacrifício orando, pensais ainda estar na terra entre os homens? Não vos transportais imediatamente ao céu?” Eis o drama: temos o céu ao nosso alcance e preferimos arrastar-nos na terra de nossas misérias e distrações!
III. O comportamento devido à casa de Deus
Desta realidade tremenda, meus caros, essa realidade da presença real de Cristo e da renovação de Seu sacrifício, decorre necessariamente um modo próprio de estar na igreja. Não podemos comportar-nos na casa de Deus como nos comportamos em nossas casas, nas praças, em um restaurante, ou campo de futebol. O próprio São Paulo já advertia os coríntios sobre a necessidade de ordem e decoro nas assembleias sagradas.
Primeiro, a modéstia no vestir. “Quero que as mulheres se vistam com modéstia e sobriedade”, escreve o Apóstolo (I Tim. II, 9). E não apenas as mulheres, mas todos nós devemos apresentar-nos diante de Deus com vestes dignas da solenidade do lugar. Trajes esportivos, roupas desleixadas, vestimentas que mais parecem destinadas a um churrasco que ao templo, tudo isso manifesta nossa falta de fé na sacralidade do espaço litúrgico.
O silêncio sagrado é tão precioso e tão facilmente violado! Antes da Missa, deveríamos preparar nossos corações em recolhimento. Depois, agradecer a graça recebida. Em vez disso, somos tentados a transformar a igreja em um rolê, se não ficamos trocando notícias e comentários como se estivéssemos no mercado, mal podemos esperar para se livrar do recolhimento e encontrar os conhecidos no entorno do templo – como se quiséssemos nos livrar o quanto antes da presença de Deus. “Na casa de Deus”, dizia São Pio X, “estamos diante d’Aquele que lê os corações; calemo-nos e adoremos”.
As genuflexões, meus caros, não são mero formalismo. São atos de fé. Quando dobramos o joelho diante do sacrário, proclamamos nossa crença na Presença Real. Quando nos inclinamos durante o Credo às palavras “Et incarnatus est”, confessamos o mistério da Encarnação. Mas quantos fazem estas reverências apressadamente, sem devoção, como quem paga um tributo incômodo?
A educação das crianças no comportamento sagrado é dever grave dos pais. Desde tenra idade devem aprender que a igreja não é lugar de correrias e brincadeiras. “Deixai vir a Mim as criancinhas”, disse Nosso Senhor, mas vir a Ele significa aproximar-se com reverência e amor, não com algazarra e irreverência. Um único grito pode perturbar o recolhimento de dezenas de fiéis. Os pais devem ser prontos em retirar-se com a criança inquieta, voltando apenas quando acalmada.
A discrição em nossos gestos de piedade também importa. Evitemos singularidades que chamem atenção, braços levantados teatralmente, batidas no peito que ecoam pela nave, prostrações, sussurros audíveis como uma fala normal, genuflexões exageradas. A verdadeira devoção é humilde e não busca ser vista pelos homens. “Quando orardes”, ensinou Nosso Senhor, “não sejais como os hipócritas que gostam de orar em pé nas sinagogas e nas esquinas das ruas para serem vistos”.
IV. Do recolhimento interior ao exterior
Há, porém, um perigo mais sutil que ameaça a sacralidade de nossos templos: é a invasão sorrateira do espírito mundano. Levamos para a igreja nossos telefones celulares, e durante a própria Missa não resistimos a verificar mensagens. Chegamos apressados, com a mente ainda presa aos negócios e preocupações temporais. Saímos imediatamente após a missa, como Judas no Cenáculo, às vezes sem mesmo esperar o fim da liturgia.
Meus caros, devemos fazer exatamente o contrário! Não é o mundo que deve entrar na igreja, mas o espírito de oração que deve sair conosco para o mundo. Santa Teresa d’Ávila ensinava que “o recolhimento não consiste em estar encerrado em um quarto escuro, mas em recolher todas as potências dentro de si mesmo”. A igreja deve ser nossa escola de recolhimento, onde aprendemos a viver na presença de Deus.
Quando saímos do templo sagrado, levemos conosco algo da paz e do silêncio que ali experimentamos. Que nossa passagem pela casa de Deus não seja como água que escorre sobre mármore, sem deixar vestígio. Pelo contrário, como o ferro que, posto no fogo, sai incandescente e conserva por longo tempo o calor recebido.
V. A presença de Deus na vida quotidiana
Donde, meus caros, o exercício da presença de Deus não deve limitar-se ao tempo que passamos na igreja. “Quer comais, quer bebais, quer façais qualquer outra coisa, exorta São Paulo, “fazei tudo para a glória de Deus”. E não temos aqui um ideal de perfeição, nossa vida não é outra coisa senão nosso retorno para a eternidade. Estamos preparando aqui nosso céu, então o que fazemos devemos fazer para nossa salvação. Ora, se não pensamos no nosso destino, como vamos para lá? Se não estamos na presença de Deus, como vamos nos dirigir a ele concretamente em nossa vida. Como podemos colocar esse exercício tão importante em prática?
As jaculatórias, breves orações que podemos repetir ao longo do dia, são um meio excelente. “Meu Jesus, misericórdia!” ao ver um sofrimento. “Seja feita a vossa vontade”, diante de uma contrariedade. “Sagrado Coração de Jesus, em Vós confio!” nos momentos de tentação. São como brasas que mantêm aceso o fogo do amor divino em nossa alma. Nós precisamos conversar com Deus, se não fazemos isso ao longo do dia, devemos nos perguntar se somos realmente amigos de Deus.
O toque do Angelus, três vezes ao dia, nos convida a interromper nossas ocupações para contemplar o mistério da Encarnação. O oferecimento das obras pela manhã transforma nossos trabalhos ordinários em oração contínua. A comunhão espiritual, renovada várias vezes durante a jornada, une-nos a Cristo quando não podemos recebê-lo sacramentalmente.
E em todos esses momentos de oração ao longo do dia, meus caros, devemos avivar em nossa consciência a realidade sublime da múltipla presença de Deus em nossa existência. Ele está presente por Seu poder criador, sustentando a cada instante nosso ser e o de todas as criaturas, pois se Deus cessasse um só momento de nos conservar na existência, voltaríamos ao nada de onde viemos. Está presente pelo governo amoroso de Sua Providência, que ordena todos os acontecimentos para nosso bem, ainda que não compreendamos Seus desígnios. Está presente por Sua imensidão divina, penetrando até o mais íntimo de nossa alma, conhecendo nossos pensamentos antes mesmo que os formulemos. E sobretudo está presente em nossa alma pela graça santificante, esse tesouro infinitamente precioso que vale mais que todos os reinos da terra, pois dele depende nossa eternidade feliz.
Esta realidade sobrenatural, meus caros, é mais real que tudo o que vemos e tocamos, embora escape aos nossos sentidos corporais. A cada instante, em algum lugar do mundo, o Santo Sacrifício da Missa renova o Calvário; a cada momento, Cristo espera por nós nos sacrários de milhares de igrejas; a cada respiração nossa, a graça divina nos sustenta e convida à santidade. Como é possível, então, vivermos tão alheios a esta realidade? Como desperdiçamos tantas graças que nos são oferecidas para cumprirmos a vontade de Deus e alcançarmos o Céu! Consideremos sempre esta verdade fundamental: vivemos imersos no sobrenatural, ainda que nossa cegueira espiritual não nos permita percebê-lo. Abramos os olhos da fé e vivamos segundo esta realidade invisível mas certíssima, pois dela depende não apenas nossa felicidade temporal, mas nossa sorte eterna.
Quando assim vivemos, meus caros, toda nossa vida torna-se um templo onde Deus é adorado. Realizamos o que Santo Agostinho chamava de “templo interior”: “Quereis orar no templo? Orai em vós mesmos. Mas primeiro sede templo de Deus, porque Ele ouvirá aquele que ora em Seu templo”.
Peroração
Caríssimos fiéis, ao celebrarmos hoje a dedicação da Basílica do Latrão, meditemos seriamente sobre nossa responsabilidade de manter e promover a sacralidade de nossas igrejas. Elas são verdadeiramente “terríveis”, no sentido de inspirar santo temor e reverência, porque são a casa de Deus e a porta do céu.
Examinemos nossa conduta: Como entramos na igreja? Com que disposições assistimos à Missa? Educamos nossos filhos no santo temor de Deus? Levamos o recolhimento aprendido no templo para nossa vida diária? Ou, ao contrário, profanamos o espaço sagrado com nossa mundanidade e irreverência? Como o padre Pasquotto tão bem nos tem lembrado, acaso contribuímos para a manutenção física, cuidamos materialmente, mantemos limpa e organizada? Isso não é só para o bem comum, mas antes de tudo para a maior glória de Deus!
Que a Santíssima Virgem Maria, que é chamada pela Igreja “Templo do Espírito Santo”, nos ensine o verdadeiro recolhimento. Ela, que guardava todas as palavras em seu coração, meditando-as em silêncio; ela, que estava de pé junto à Cruz enquanto os apóstolos fugiam; ela, que perseverava em oração com a Igreja nascente, seja nosso modelo de como estar na presença de Deus.
Peçamos a graça de compreender sempre mais profundamente que nossas igrejas são antecâmaras do Paraíso. Que jamais entremos nelas sem santo temor, jamais permaneçamos sem devoção, jamais saiamos sem levar conosco algo da paz divina que aqui se respira. E assim, vivendo entre o templo material e o templo interior, preparemo-nos para o dia em que entraremos no Templo eterno, onde veremos a Deus face a face e O adoraremos pelos séculos sem fim.


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