Sermão para a festa de Corpus Christi
Pe. Marcos Vinicius Mattke, IBP
Brasília-DF, 19 de junho de 2025 A.D.
Caríssimos fiéis,
Nesta grandiosa festa de Corpus Christi nossa Santa Madre Igreja nos convoca a adorar publicamente Nosso Senhor Jesus Cristo presente no Santíssimo Sacramento. Esta festa não é mera devoção privada, mas proclamação pública de que Cristo é verdadeiramente “Rex regum et Dominus dominantium”, Rei dos reis e Senhor dos senhores. Na procissão que percorrerá nossas ruas, aclamamos a realeza efetiva daquele que é Deus e homem verdadeiro, presente sob as espécies eucarísticas em Corpo, Sangue, Alma e Divindade, tão real quanto está gloriosamente reinante no céu.
Esta adoração pública contradiz o espírito contemporâneo de nossa sociedade apóstata que relega a religião ao foro íntimo. Mas nós proclamamos que todo joelho deve dobrar-se diante do nome de Jesus, especialmente quando Ele se faz presente sacramentalmente entre nós.
Meus caros, contemplando o Santíssimo Sacramento exposto, compreendamos que não estamos diante de símbolo piedoso, mas na presença do próprio Deus feito homem. O Concílio de Trento define solenemente que na Eucaristia está contido “verdadeira, real e substancialmente o Corpo e o Sangue juntamente com a alma e a divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo.”
Santo Agostinho proclama: “Nemo autem illam carnem manducat, nisi prius adoraverit”, “Ninguém come desta carne sem antes a adorar; pecamos não adorando.” A adoração não é ornamento devocional, mas exigência de justiça para com Deus presente entre nós.
São Cirilo de Jerusalém instrui-nos: “Não estendas as mãos, mas faz do teu coração um trono para receber o Rei dos reis e Senhor dos senhores.” Quando genuflectimos, incensamos e prostramo-nos diante do Santíssimo, praticamos atos de suprema razão, reconhecendo a dignidade infinita daquele que se oculta sob a espécie do pão.
Que contraste entre esta adoração devida a Deus e a negligência com que tantos se aproximam dos sagrados mistérios! São João Crisóstomo proclama: “Quando vês o Corpo do Senhor exposto, dize a ti mesmo: por causa deste Corpo não sou mais terra e cinza, não sou mais cativo, mas livre; por causa Dele espero o céu, os bens eternos, a vida dos anjos, a conversação com Cristo.”
Meus caros, a Santíssima Eucaristia não é um sacramento privado, mas centro e fonte de toda ordem cristã. Se Cristo é verdadeiramente presente, se é verdadeiramente Deus e Rei, então toda criação Lhe deve obediência – não apenas indivíduos, mas nações inteiras.
O Papa Leão XIII ensina na Immortale Dei: “As sociedades políticas não podem, sem crime, portar-se como se Deus não existisse.” Seu sucessor, Pio XI, declara na Quas Primas que “todo o gênero humano está sujeito ao poder de Jesus Cristo.” As nações devem reconhecer publicamente a soberania de Cristo, manifestada perfeitamente na adoração eucarística.
Contra este reino da caridade levanta-se o reino do orgulho: o liberalismo. Não é mero sistema político, mas apostasia organizada, negação sistemática da realeza de Cristo, entronização do orgulho humano no lugar de Deus.
O liberalismo proclama que a razão humana é medida suprema da verdade, que todas as religiões são igualmente válidas, que o Estado deve ser neutro religiosamente. É a reprodução do pecado de Adão: “Sereis como deuses.”
O Papa Pio IX, no Syllabus, condena solenemente: “É livre a todo homem abraçar e professar aquela religião que, guiado pela luz da razão, julgar verdadeira.” Por quê? Porque faz da razão decaída árbitro da verdade religiosa, negando que existe uma só religião verdadeira estabelecida por Deus.
Meus caros, não há meio-termo entre estes reinos. Cristo disse: “Ninguém pode servir a dois senhores.” Ou reconhecemos a realeza de Jesus Cristo, ou curvamo-nos aos ídolos modernos. A procissão de Corpus Christi é manifesto contra a apostasia das nações, proclamação de que Cristo é Rei não apenas dos corações, mas das sociedades.
Assim, a Santa Eucaristia que é fonte de vida para os dignos torna-se condenação para os indignos. Escutamos a grace advertência de São Paulo: “Quicúmque manducáverit panem hunc vel bíberit cálicem Dómini indígne, reus erit córporis et sánguinis Dómini… Qui enim mánducat et bibit indígne, iudícium sibi mánducat et bibit, non diiúdicans corpus Dómini.” “Qualquer que comer este pão ou beber o cálice do Senhor indignamente, será réu do corpo e do sangue do Senhor… Porque aquele que come e bebe indignamente, come e bebe para si a condenação, não discernindo o corpo do Senhor.”
Meus caros, quem come e bebe indignamente come e bebe a própria condenação. Que responsabilidade terrível! Se a Eucaristia contém realmente Cristo, aproximar-se em pecado mortal é sacrilégio horrendo e abominável. É apresentar-se para esbofetear e cuspir em Cristo diante de si.
São Pio X, na Quam Singulari, estabelece as disposições mínimas: conhecimento da doutrina e estado de graça. Mas que dizer dos que, professando-se católicos, vivem em contradição pública com a fé? Dizem-se católicos mas vivem em concubinato, divorciados recasados, praticantes de abominações impuras contra a natureza. Políticos que promulgam leis contrárias à lei de Deus? Defensores do aborto que comungam daquele que disse: “Deixai vir a mim as criancinhas”?
São Paulo adverte: “Quod si nosmetípsos diiudicarémus, non útique iudicarémur”, “Se nós mesmos nos julgássemos, não seríamos julgados.” O exame de consciência antes da comunhão é necessidade absoluta, abrangendo não apenas pecados privados, mas posições doutrinárias e atitudes públicas.
Caríssimos, a comunhão sacramental exige comunhão doutrinária. Não se pode receber Cristo na comunhão e negá-lo na vida pública. Não se pode adorar Jesus Eucarístico e votar leis que o crucificam na sociedade.
Eis o escândalo de nossos dias: católicos que comungam aos domingos e defendem ou ao menos praticam o que Deus condena durante a semana. Esta incoerência fere a essência da fé católica, que é adesão total à verdade revelada.
A Eucaristia exige coerência absoluta. Quem crê na Presença Real não pode ser indiferente aos ultrajes contra Cristo na sociedade. Quem adora Cristo Rei não pode apoiar sistemas que negam sua realeza. A vida cristã é combate entre luz e trevas – não há neutralidade. Se verdadeiramente cremos em Nosso Senhor Jesus Cristo e em sua Majestade, nossa vida inteira deve transformar-se. A família cristã deve ser um verdadeiro Reino Cristão ajoelhado diante do altar doméstico. Nossas posições políticas não podem contradizer nossa fé.
Meus caros, três clamores se dirigem a nós:
Conversão pessoal: Examinemos nossas consciências. Estamos preparados para receber o Rei dos reis? Se descobrirmos incoerências, corramos ao tribunal da penitência. A misericórdia divina acolhe o arrependido, mas jamais aceita a hipocrisia do impenitente.
Coerência pública: Saiamos dessa missa com a resolução firme de restaurar o reinado social de Cristo. Que nossas famílias sejam verdadeiros reinos cristãos onde se viva integralmente o Evangelho. Não tenhamos medo dos respeitos humanos nem transijamos com o erro.
Adoração reparadora: Multipliquemos nossos atos de adoração eucarística como reparação pelos sacrilégios abundantes desses tempos imorais onde o erro e abominação da desolação se estabelece na sociedade e na igreja. Que cada família se comprometa com a adoração regular diante do Santíssimo.
Que a procissão que iniciaremos seja ato de reparação pelos ultrajes à majestade eucarística, protesto solene contra a apostasia das nações, e súplica para que Cristo volte a reinar sobre os povos.
Prometamos a Nosso Senhor Jesus Cristo, presente no Santíssimo Sacramento, jamais separar nossa fé de nossa vida, nossa adoração de nossa ação, nossa piedade de nossa política.
Que Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei dos reis e Senhor dos senhores, nos conceda a graça de servi-lo com fidelidade heróica até o fim, para que, após adorá-lo veladamente neste mundo, possamos contemplá-lo face a face na eternidade bem-aventurada.


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