Sermão para o Domingo de Pentecostes
Pe. Marcos Vinicius Mattke, IBP
Brasília-DF, 08 de junho de 2025 A.D.
Caríssimos fiéis,
Eis que nossa Santa Madre Igreja celebra hoje a gloriosa festa de Pentecostes, quando o Espírito Santo desceu sobre os Apóstolos reunidos com Nossa Senhora no Cenáculo, transformando-os de homens tímidos e vacilantes em intrépidos pregadores da verdade eterna. Nas palavras do Evangelho de São João que acabamos de ouvir, Nosso Senhor Jesus Cristo nos ensina: “Si quis diligit me, sermonem meum servabit, et Pater meus diliget eum”, “Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e meu Pai o amará”.
Nestas palavras encontramos não apenas uma promessa consoladora, mas um princípio fundamental que nos permite compreender por que vivemos tempos tão conturbados, e por que a sociedade moderna se afasta cada vez mais da paz verdadeira que só Cristo pode dar.
Meus caros, observemos bem as palavras de Cristo: “Se alguém me ama, guardará a minha palavra”. Aqui se revela uma lei imutável da vida espiritual: o amor verdadeiro não se manifesta em sentimentos vagos ou em piedade superficial, mas na obediência concreta à palavra revelada.
A caridade sobrenatural, infundida em nossos corações pelo Espírito Santo, não é mero afeto humano elevado à categoria de virtude. Não! É um dom divino que nos capacita a abraçar a verdade em toda sua integridade, mesmo quando ela contraria nossas inclinações naturais, mesmo quando o mundo inteiro se levanta contra ela. Como ensina São Gregório Magno: “Probatio dilectionis, exhibitio est operis”, “A prova do amor é a demonstração das obras”.
Vejamos, meus caros, como isto difere radicalmente do amor próprio que domina o homem decaído. O amor próprio busca sempre acomodar a verdade aos seus desejos; a caridade do Espírito Santo nos faz acomodar nossos desejos à verdade. O primeiro é obra da natureza corrompida; a segunda, obra da graça santificante.
É precisamente por isto que o Espírito Santo desceu sobre os Apóstolos em forma de línguas de fogo. O fogo purifica e consome; assim a caridade divina consome em nós tudo aquilo que se opõe à verdade revelada. Os Apóstolos, antes temerosos e inconstantes, tornaram-se depois de Pentecostes homens inquebrantáveis na fé, dispostos a derramar o próprio sangue antes que negar uma só sílaba da doutrina recebida de Cristo.
Continua o Senhor: “Pacem meam do vobis, non quomodo mundus dat”, “Dou-vos a minha paz, não como a dá o mundo”. Aqui se estabelece uma distinção capital que devemos guardar sempre em nossa mente.
A paz do mundo, meus caros, é sempre uma paz precária, construída sobre compromissos com o erro, sobre concessões mútuas entre a verdade e a mentira. É a paz dos que dizem: “Não importa em que creias, contanto que sejas sincero”; “O importante, afinal, é se sentir bem”; “Todas as religiões conduzem a Deus”; “O essencial é vivermos em harmonia, deixando de lado as questões doutrinárias”.
Esta falsa paz é filha do orgulho intelectual que não suporta a humilhação de submeter-se à autoridade divina. Prefere o erro livremente escolhido à verdade recebida por obediência. É a paz dos sepulcros caiados, que por fora parecem formosos, mas por dentro estão cheios de podridão.
A paz de Cristo, ao contrário, nasce da conformidade perfeita com a vontade de Deus manifestada em sua palavra. É a paz de quem pode dizer com o Salmista: “Muita paz têm os que amam a vossa lei, e não há escândalo para eles”. É a paz que permanece intacta mesmo no meio das perseguições, porque está fundada não sobre as areias movediças da opinião humana, mas sobre a rocha inabalável da verdade eterna. Como proclama o Papa Pio IX: “Pax et securitas vera non aliunde quam a Christo expectanda est”, “A paz e segurança verdadeiras não devem ser esperadas de outra fonte senão de Cristo”. E complementa magistralmente o papa Leão XIII: “Pax est tranquillitas ordinis, ordo autem sine religione esse non potest” – “A paz é a tranquilidade da ordem, mas a ordem não pode existir sem religião”.
Mas de onde vem, meus caros, esta resistência sistemática à verdade revelada que caracteriza nosso tempo? De onde nasce esta pretensão de que a razão humana, deixada a si mesma, possa descobrir e estabelecer os princípios da moral e da sociedade, prescindindo inteiramente da Revelação divina?
A resposta encontramo-la nas primeiras páginas da Sagrada Escritura, no grito de rebelião que ecoou no céu: “Non serviam!”, “Não servirei!”. Lúcifer, o mais belo dos anjos, precipitou-se no abismo eterno porque não quis submeter sua inteligência à verdade que Deus lhe manifestava. Preferiu o erro próprio à verdade recebida; preferiu reinar no inferno a servir no céu.
Este mesmo espírito de revolta anima o liberalismo moderno em todas as suas manifestações. Quando proclama a autonomia absoluta da razão humana contra a autoridade da Igreja; quando declara que não há verdade objetiva em matéria de moral; quando afirma que cada indivíduo é árbitro supremo do bem e do mal; quando nega a necessidade da graça sobrenatural para a salvação – em todas estas afirmações ressoa o mesmo grito satânico: “Não servirei!”.
O liberalismo, meus caros, é essencialmente uma filosofia (ou melhor, uma religião) do orgulho. Recusa-se a reconhecer qualquer autoridade superior à razão individual. Por isto ataca sistematicamente todas as instituições que representam a autoridade divina na terra: a Igreja, a família natural, única possível, pai, mãe e filhos, a sociedade hierarquicamente ordenada. Tudo deve ser “democratizado”, isto é, submetido ao capricho da vontade humana emancipada de Deus. Como ensina o Papa Leão XIII: “Libertas illa digna filiis Dei non in licentia sita est, sed in facultate non peccandi”, “A liberdade digna dos filhos de Deus não consiste na licenciosidade, mas na faculdade de não pecar”.
Vemos isto claramente em nossos dias. A moral verdadeira é abandonada em nome da “liberdade de consciência”; o matrimônio indissolúvel é substituído pelo divórcio em nome da “realização pessoal”; a autoridade paterna é minada em nome dos “direitos da criança”; a própria distinção natural entre homem e mulher é negada em nome da “igualdade de gênero”.
Em cada uma destas subversões, o que vemos é a mesma pretensão luciferina: fazer da vontade humana a medida suprema da realidade, em lugar de submeter esta vontade à ordem estabelecida por Deus.
Face a esta avalanche de erros, que deve fazer o cristão verdadeiro? Deve talvez buscar um meio-termo, uma conciliação entre a verdade católica e os “valores” do mundo moderno? Deve calar-se por prudência, evitando “provocar” os adversários da fé?
Não, jamais, meus caros! O Espírito Santo não desceu sobre os Apóstolos para fazê-los diplomatas hábeis, políticos sagazes ou conciliadores prudentes. Desceu para fazê-los testemunhas corajosas da verdade integral, dispostos a enfrentar qualquer oposição antes que trair o depósito sagrado que lhes foi confiado.
A caridade verdadeira, longe de nos tornar condescendentes com o erro, torna-nos seus adversários implacáveis. São Paulo não hesitou em resistir em face ao próprio São Pedro quando este, por condescendência humana, dava escândalo aos fiéis. Santo Atanásio enfrentou sozinho quase todo o episcopado mundial quando este vacilava diante da heresia ariana. São Pio X condenou sem apelação o modernismo, ainda que isto lhe custasse incompreensões e ataques.
Por quê? Porque a caridade sobrenatural nos faz amar a Deus acima de todas as coisas, e não se pode amar verdadeiramente a Deus tolerando que sua verdade seja desfigurada ou negada. A caridade nos faz amar também as almas, e não se pode amar verdadeiramente as almas deixando-as no erro que as conduz à perdição eterna.
Somente a caridade infundida pelo Espírito Santo pode vencer o orgulho que está na raiz de todos os erros modernos. Porque só ela nos dá a humildade necessária para aceitar a verdade tal como Deus no-la revelou, sem pretender modificá-la ou adaptá-la aos gostos do século. Como nos ensina São João Crisóstomo: “Ubi caritas, ibi et humilitas; ubi autem superbia, ibi et odium”, “Onde há caridade, há também humildade; onde há soberba, há também ódio”.
Que exige, pois, de nós esta caridade sobrenatural em nossos dias?
Primeiramente, meus caros, exige que tenhamos uma fé límpida e integral, sem concessões ao espírito do mundo. Não podemos ser católicos pela metade, aceitando os dogmas que nos agradam e rejeitando ou silenciando aqueles que contrariam as modas do tempo. A fé é una e indivisível; ou a aceitamos integralmente, ou não a possuímos verdadeiramente.
Em segundo lugar, exige que vivamos segundo os princípios católicos em todos os aspectos de nossa existência. Não podemos separar a vida privada da vida pública, a fé da moral, a doutrina da prática. Se cremos que Cristo é Rei, devemos trabalhar para que seu reino se estabeleça não apenas em nossos corações, mas também nas famílias, nas escolas, nas leis, nas instituições.
Em terceiro lugar, exige que demos testemunho corajoso da verdade, mesmo quando isto nos acarrete incompreensões, perseguições ou perdas materiais. “Bem-aventurados os que sofrem perseguição por causa da justiça”, disse o Senhor. O cristão que nunca sofre oposição por causa de sua fé deve examinar seriamente se não está traindo o Evangelho por covardia ou respeito humano. E contra os falsos princípios de nosso tempo, devemos proclamar com o Papa Gregório XVI que é “absurdissima illa ac erronea sententia seu potius deliramentum esse affirmandum, libertatem conscientiae omnibus asserendam ac vindicandam”, “absurdíssima e errônea sentença, ou antes delírio, que se deva assegurar e reivindicar a liberdade de consciência para todos”.
Afinal, meus caros, esta pretensa “liberdade de consciência” é na verdade o mais refinado dos venenos luciferinos. Sob o pretexto de respeitar a dignidade humana, ela estabelece a própria adoração do homem em sua consciência, e assim dissolve todos os fundamentos da ordem moral e social. Se cada homem pode seguir sua consciência particular em matéria de fé e moral, sem referência à autoridade divina, então não há mais verdade objetiva, não há mais lei natural, não há mais possibilidade de sociedade cristã. Cada indivíduo torna-se seu próprio deus, árbitro supremo do bem e do mal, medida última da realidade. É o triunfo completo do orgulho satânico, que prefere reinar no erro a obedecer na verdade. Por isto mesmo esta falsa liberdade conduz inevitavelmente à anarquia moral e ao caos social, pois uma sociedade onde cada um segue sua própria “consciência” é uma sociedade onde não pode haver nem justiça nem paz verdadeiras.
Finalmente, meus caros, lembremo-nos de que a paz prometida por Cristo não é ausência de luta, mas vitória na luta. É a paz de quem combate o bom combate, guarda a fé e aguarda a coroa da justiça.
Esta paz encontramo-la sobretudo na fidelidade à Santa Igreja Católica, depositária infalível da verdade revelada. Fora da Igreja não há salvação, ensina o dogma; podemos acrescentar: fora da Igreja não há verdadeira paz. Porque só ela possui a plenitude dos meios de santificação; só ela conserva intacto o depósito da fé; só ela pode orientar-nos seguramente no meio das tempestades do mundo.
Apeguemo-nos, pois, com amor filial à Santa Romana Igreja, não à suposta igreja dos homens, que cultua o homem em em um orgulho liberal, sujeita a todas as fraquezas humanas, mas à Igreja de Cristo, Una, Santa, Católica e Apostólica, contra a qual as portas do inferno jamais prevalecerão.
Que o Divino Espírito Santo inflame cada vez mais em nossos corações esta caridade sobrenatural que nos faz amar a verdade acima de todas as coisas, testemunhá-la com coragem em meio às contradições do mundo, e encontrar nela a verdadeira paz que Cristo nos prometeu.


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