Sermão para o XXI Domingo depois de Pentecostes
Pe. Marcos Vinicius Mattke, IBP
Brasília-DF, 02 de novembro de 2025 A.D.
Capela Nossa Senhora das Dores
Caríssimos fiéis,
“Confortamini in Domino et in potentia virtutis ejus”, “Fortalecei-vos no Senhor e na força do seu poder.” Com estas palavras de São Paulo Apóstolos nossa santa Madre Igreja nos convoca hoje a despertar de qualquer sonolência espiritual.
A vida cristã, meus caros, não é um passeio tranquilo pelos jardins do Éden. Como bem ensina São João Crisóstomo, “a vida presente é um estádio, um ringue, uma luta.” Não nos iludamos: desde o momento de nosso batismo até nosso último suspiro, travamos uma batalha sem trégua. Hoje, através da sagrada liturgia, a Santa Igreja nos apresenta três testemunhos irrefutáveis desta realidade: a exortação de São Paulo sobre a armadura espiritual, o exemplo de Jó apresentado no ofertório, e a severa advertência da parábola do servo impiedoso.
Nossa alma, eis o campo onde se trava a mais importante das batalhas. Santo Agostinho, com sua clareza habitual, nos ensina: “Duas cidades foram formadas por dois amores: a terrestre, pelo amor de si até o desprezo de Deus; a celeste, pelo amor de Deus até o desprezo de si.” Entre estas duas cidades não há paz possível, mas guerra perpétua.
A realidade do combate: e exemplo de Jó
Consideremos primeiramente o santo homem Jó, cujo exemplo a Igreja hoje nos propõe. “Vir erat in terra Hus, nomine Job”, havia um homem na terra de Hus, chamado Jó. Notemos bem, meus caros: não era um grande pecador merecedor de castigo divino. Era simples, reto e temente a Deus. Contudo, foi terrivelmente provado.
São Gregório Magno, em sua exposição sobre Jó, nos revela: “Jó significa ‘sofredor’, pois todo justo neste mundo é um sofredor.” Que ninguém se iluda pensando estar isento desta batalha. Os santos são provados mais que os pecadores, pois o ouro se purifica no fogo, não a escória.
“Quem Satan petiit ut tentaret”, Satanás pediu para tentá-lo. Observemos a terrível realidade: o demônio nos circunda como leão que ruge, buscando a quem devorar. São Pedro Crisólogo nos adverte: “O demônio ronda, mas não pode entrar se não encontrar a porta aberta.” Ele conhece nossas fraquezas, estuda nossos hábitos, observa nossas inclinações. Como ensina São Tomás de Aquino: “O demônio é como um cão acorrentado: pode latir muito, mas só pode morder quem dele se aproxima.”
Mas aqui está nosso consolo: “Data est ei potestas”, foi-lhe dado poder, sim, mas poder limitado! O demônio só age com a permissão divina. E por que Deus permite tais provações? São João Crisóstomo responde: “Deus permite que o diabo nos tente, não para nos derrubar, mas para nos fazer mais fortes.”
O campo de batalha: nossa alma
Meus caros, compreendamos onde se trava esta batalha. Não é nos campos de guerra deste mundo, mas no interior de nossa própria alma. Três são as frentes de ataque que enfrentamos diariamente. São Leão Magno as enumera com precisão: “Três são os inimigos do homem: o mundo que devemos desprezar, a carne que devemos dominar, o diabo que devemos repelir.”
O mundo nos seduz com seus encantos passageiros: riquezas, honras, prazeres. A carne se rebela contra o espírito com suas concupiscências desordenadas. O demônio, mais astuto que ambos, usa um e outro para nos derrubar. Suas armas são as “insidias diaboli”, as ciladas sutis. São Bernardo de Claraval, mestre da vida espiritual, descreve o processo da tentação: “A primeira flecha do demônio é a sugestão, a segunda o deleite, a terceira o consentimento.”
Primeiro vem o pensamento, sugestão aparentemente inocente. Depois, se não o repelimos imediatamente, surge o deleite, a imaginação que se compraz. Por fim, se continuamos negligentes, vem o consentimento da vontade, e aí está consumado o pecado. Santo Inácio de Loyola, compara o demônio a um general que estuda as muralhas de uma fortaleza, atacando sempre pelo ponto mais fraco.
A estratégia diabólica segue uma progressão calculada, como vemos no próprio Jó. Primeiro, ataca os bens externos: a fazenda, os rebanhos. Quando isso não basta, ataca o corpo com chagas dolorosas. Por fim, usando até mesmo a esposa de Jó, tenta destruir sua esperança e fé. Cassiano, mestre da vida monástica, traça o itinerário comum: “O demônio primeiro tenta com a gula, depois com a luxúria, em seguida com a avareza, e por fim com o orgulho.”
A armadura de Deus: nossa defesa
Mas não estamos desamparados neste combate! “Induite vos armaturam Dei”, revesti-vos da armadura de Deus. São Jerônimo sintetiza: “As armas do cristão são a oração e o jejum.” Mas São Paulo detalha peça por peça esta armadura divina.
O cinto da verdade contra as mentiras do pai da mentira. A couraça da justiça que protege nosso coração dos golpes mortais do pecado. Santo Ambrósio exclama: “A fé é nosso escudo, Cristo é nossa couraça!” O calçado do Evangelho que nos permite caminhar seguros pelo lamaçal deste mundo. O escudo da fé que apaga todos os dardos inflamados do maligno. O elmo da salvação que protege nossa mente do desespero. E, sobretudo, a espada do Espírito, que é a Palavra de Deus. Como ensina Orígenes: “A Palavra de Deus é uma espada que separa a alma do espírito, e corta todos os vícios.”
Mas de nada serve a armadura se dormimos durante a batalha. “Vigilate et orate”, vigiai e orai, ordena Nosso Senhor. Santo Antão, veterano de mil combates espirituais, adverte: Quem se senta no deserto para guardar a paz do seu coração, deve combater três inimigos: a audição, a fala e a vista; só lhe restará um: o coração. São Bento ensina a tática fundamental: “Quebrar imediatamente contra Cristo os maus pensamentos que chegam ao coração.”
A arma suprema: a misericórdia
Contudo, meus caros, existe uma arma contra a qual todo o inferno nada pode: a misericórdia. Primeiramente, a misericórdia que recebemos de Deus. No Evangelho de hoje, o rei perdoa dez mil talentos, uma dívida impossível de pagar. É figura de nossa dívida para com Deus. São João Crisóstomo nos consola: “Ainda que tivesses cometido fornicação mil vezes e outros tantos adultérios e maldades piores que estas, se te arrependeres, tudo será perdoado.”
No Sacramento da Penitência, esta misericórdia se derrama sobre nós. São João Maria Vianney, o santo Cura d’Ars, contemplava maravilhado: “No sacramento da Penitência, Deus nos abraça como o pai ao filho pródigo.” Quantas vezes não experimentamos esta misericórdia? Quantas vezes não nos levantou o Senhor depois de nossas quedas?
Mas, atenção! Há uma condição absolutamente necessária: devemos exercer a misericórdia para com nosso próximo. “Perdoai e sereis perdoados.” Santo Agostinho resume admiravelmente: “Perdoa e serás perdoado; dá e te será dado. Estas duas obras de misericórdia bastam.” O servo do Evangelho, perdoado de imensa dívida, não quis perdoar cem denários a seu conservo. Resultado: foi entregue aos verdugos.
Aqui está um segredo espiritual precioso: o demônio nada pode contra um coração misericordioso. São João Clímaco revela: “O perdão é a destruição da ira, e quem destrói a ira expulsa os demônios.” O ressentimento, o rancor, o desejo de vingança são portas abertas para o inimigo. Mas quando perdoamos, desarmamos completamente suas ciladas. Santa Teresa d’Ávila confirma: “O demônio foge de uma alma humilde como de fogo.”
Forma-se assim um círculo virtuoso: quanto mais perdoamos, mais graças recebemos; quanto mais graças recebemos, mais fácil se torna perdoar. São Francisco de Sales expressa a lei fundamental: “A medida do amor é amar sem medida.”
Aplicações práticas para nossa vida
Como aplicar tudo isto em nossa vida quotidiana? Primeiro, estabeleçamos uma rotina de combate espiritual. Pela manhã, ao despertar, façamos como São Filipe Néri: “Senhor, põe a mão sobre minha cabeça, pois sem Ti, hoje mesmo te trairei.” Reconheçamos nossa fraqueza e peçamos a força divina. Antes mesmo de sair do leito, ofereçamos o dia a Deus, renovemos nossos propósitos, peçamos a proteção de Nossa Senhora e de nosso Anjo da Guarda.
A frequência aos Sacramentos é essencial. São João Bosco deixou como testamento: “Dois sustentáculos vos deixo: a Comunhão frequente e a devoção a Nossa Senhora.” A Eucaristia nos fortalece, a Confissão nos purifica e cura. Não deixemos passar um mês sem nos aproximarmos do tribunal da misericórdia. Comunguemos com frequência, mas sempre em estado de graça, com a devida preparação e ação de graças. Na Sagrada Comunhão recebemos o próprio Cristo, que é nossa força e nossa vitória.
Cultivemos especial devoção a Nossa Senhora. São Luís Maria Grignion de Montfort afirma categoricamente: “Quando o demônio vê uma alma toda de Maria, foge dela como a sombra foge do sol.” O Santo Rosário seja nossa arma diária. Nas tentações mais fortes, basta invocar o doce nome de Maria para obter o socorro maternal. Ela é a Corredentora, a Medianeira de todas as graças, o canal pelo qual nos vem todo o bem.
Não desprezemos os sacramentais: a água benta, crucifixo abençoado e regularmente osculado, o escapulário devidamente imposto, a medalha milagrosa, as velas bentas, o santo rosário portado e rezado. São pequenas armas que a Igreja nos oferece, mas seu poder é grande quando usadas com fé fervorosa. O demônio odeia estes sinais sagrados. Tenhamos água benta em casa, façamos o sinal da cruz com devoção, usemos o escapulário de Nossa Senhora do Carmo. São sinais sensíveis que fortalecem nossa fé e repelem o inimigo.
Como saber se estamos vencendo a batalha? O Santo Padre Pio de Pietrelcina nos dá a resposta: “O demônio faz barulho, mas não pode fazer mal a uma alma em graça.” Se mantemos a paz interior nas provações, se perdoamos prontamente as ofensas, se crescemos nas virtudes, se experimentamos alegria espiritual, temos sinais de vitória. Como ensina São Tomás: “A tristeza vem do demônio, que se alegra com nossa tristeza; mas a alegria espiritual vem de Deus.”
Peroração: a vitória final
Caríssimos fiéis, contemplemos novamente o santo patriarca Jó. Após todas as provações, recebeu o dobro do que possuía. São Gregório Magno interpreta: “Jó perdeu tudo para receber tudo em dobro, ensinando-nos que os bens temporais perdidos por Deus são restituídos com bens eternos.”
Nossa vitória está garantida se perseverarmos. Santa Teresa nos exorta: “Nada te perturbe, nada te espante, tudo passa, Deus não muda, a paciência tudo alcança.” E nosso caro padre Pasquotto insiste: a paciência tudo alcança! Cristo já venceu. Santo Atanásio proclama: “Cristo destruiu a morte e nos deu a vitória; agora só nos resta recolher os despojos.”
Invoquemos o auxílio celeste. São Miguel Arcanjo, príncipe da milícia celeste. Nossa Senhora, Auxiliadora dos Cristãos. São Bernardo nos assegura: “Nas tentações, invoca Maria! Com ela, não cairás; com ela, não te desesperarás; com ela, chegarás ao porto da salvação.” Nossos Santos Anjos da Guarda, são os fiéis sentinelas de nossa alma.
Meus caros, a batalha é real, o inimigo é feroz, mas a vitória é certa para quem persevera. Revestidos da armadura de Deus, fortalecidos pelos Sacramentos, protegidos por Nossa Senhora, exercitando a misericórdia, nós certamente venceremos. Não há santo no céu que não tenha passado por esta luta. Não há coroa sem cruz, não há vitória sem combate.
Lembremo-nos: não estamos sozinhos. Todo o céu combate conosco. Os santos intercedem, os anjos protegem, Nossa Senhora nos cobre com seu manto, e Cristo, nosso General glorioso, marcha à frente.
E no fim de nossos dias, após o bom combate, ouviremos: “Vinde, benditos de meu Pai, possuí o Reino preparado desde a criação do mundo.” Então compreenderemos que todas as batalhas valeram a pena. A luz eterna dissipará as trevas, a paz sucederá à guerra, e reinaremos com Cristo eternamente.
A maior glória que podemos dar a Deus, ensina São Cláudio de la Colombière, é confiar infinitamente em sua misericórdia. Confiemos, pois. Lutemos o bom combate. Guardemos a fé. A coroa da justiça nos aguarda. Que a Santíssima Trindade nos fortaleça, que Nossa Senhora nos proteja, que São Miguel Arcanjo nos defenda, e que todos os santos nos assistam nesta batalha sagrada.


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