Sermão para o IV Domingo da Quaresma – Domingo Lætare
Pe. Marcos Vinícius Mattke, IBP
Capela Nossa Senhora das Dores
Brasília/DF, 30 de março de 2025 A.D.
Caríssimos fiéis,
Neste Domingo nossa Santa Madre Igreja nos convida a uma breve pausa em nossa penitência quaresmal. Os paramentos róseos são um sinal visível desta alegria contida que a Igreja nos propõe. O Domingo Laetare tira seu nome da antífona de entrada: “Laetare, Jerusalem” — “Alegra-te, Jerusalém” (Isaías LXVI, 10). Mas, meus caros, que alegria é esta em meio à austeridade da Quaresma?
A alegria que a Santa Romana Igreja nos propõe hoje não é a alegria efêmera do mundo, que depende das circunstâncias exteriores e se esvai diante da primeira tribulação. Não é aquela falsa alegria que os homens buscam nas coisas transitórias, nas honras, nos prazeres, nos bens materiais. Estas alegrias, meus caros, são tão passageiras quanto a fumaça que se dissipa ao vento.
A alegria cristã é diferente. Ela permanece mesmo em meio às adversidades, porque tem suas raízes em Deus. Como nos ensina Santo Agostinho: “A medida do amor é amar sem medida. E a verdadeira alegria nasce deste amor.” A alegria cristã nasce do amor a Deus e da certeza de que somos amados por Ele. É uma alegria que ninguém nos pode tirar, como o próprio Cristo prometeu.
Meus caros, pode parecer contraditório falarmos de alegria em pleno tempo penitencial. Como podem coexistir estas duas realidades aparentemente opostas? É porque a penitência não é um fim em si mesma, mas um meio para alcançarmos a verdadeira alegria.
Podemos considerar São Francisco de Assis que, em seus Fioretti, nos ensina: “A perfeita alegria não está nos milagres ou conhecimentos, mas em suportar pacientemente, por amor de Cristo, todas as aflições e injúrias.” Quando São Francisco explicava ao Frei Leão o que era a perfeita alegria, não apontava para os êxitos, as conversões ou os milagres, mas sim para a capacidade de sofrer alegremente por amor a Cristo. A verdadeira alegria é muito mais elevada que a satisfação de nossos apetites carnais, a verdadeira alegria transcende as imperfeições e tribulações dessa vida: ela está fundada no nosso fim último e bem supremo que é Deus.
Ave crux, spes única, ave gaudium verum: a Cruz é o caminho para a alegria. Não há Ressurreição sem Crucificação. Não há Páscoa sem Quaresma. Meus caros, a quaresma é um “pequeno Calvário” que nos conduz à glória da Páscoa. Este Domingo Laetare é como uma janela aberta para o resplendor da alegria pascal que se aproxima. São Leão Magno nos ensina: “A observância da Quaresma não é apenas a mortificação da carne, mas também uma purificação da alma que nos prepara para a alegria pascal.”
Assim é nossa Quaresma, meus caros: um tempo de dor que culminará na suprema alegria da Ressurreição. Caríssimos, e é claro que não podemos fechar os olhos à realidade que nos cerca. Vivemos tempos de profunda crise na Igreja e no mundo. Mas não somos a primeira geração de cristãos a enfrentar tempestades. A história da Igreja está marcada por crises e heresias, mas também pela fidelidade daqueles que não se deixaram abalar.
Recordemos Santo Atanásio durante a crise ariana, quando a maioria dos bispos havia abraçado a heresia: “Poderão ocupar nossos templos, mas não possuem a fé católica. A verdade não está onde está a multidão.” E São Basílio Magno, na mesma época da heresia ariana, lamentava: “Os ouvidos do povo, habituados às palavras piedosas da tradição, foram gradualmente pervertidos por doutrinas espúrias. Uma névoa densa cobre agora nossas igrejas. Os pastores foram expulsos, e em seu lugar foram introduzidos lobos cruéis que dilaceram o rebanho de Cristo.”
Meus caros, é fato e não podemos ignorar a crise no próprio magistério da Igreja, quando ouvimos afirmações que contradizem frontalmente a fé, buscando constantemente deturpá-la para agradar ao mundo deixando de lado a autoridade divina. Chegou-se ao cúmulo de proclamar, que “a religião de Deus que se fez homem encontrou-se com a religião do homem que se fez Deus.” Como não estremecer diante de tal afirmação?
São Pio X, em sua admirável encíclica Pascendi Dominici Gregis, alertava que “o modernismo é a síntese de todas as heresias, que tende a minar os fundamentos da fé e aniquilar o cristianismo.” Como é importante para nós esse ensinamento! São Pio X expõe como o veneno modernista poderia progressivamente contaminar as sociedades e o clero. Ele explicou como os modernistas, sob o pretexto de adaptar a fé ao pensamento moderno, acabam por esvaziar os dogmas de seu conteúdo sobrenatural. Substituem a verdade objetiva e imutável pela experiência subjetiva, transformando a religião revelada em mero sentimento religioso. É precisamente este espírito que vemos hoje impregnando tantos aspectos da vida eclesiástica: a relativização da verdade, a desvalorização do dogma, o ecumenismo sem limites, a acomodação à mentalidade secular. São Pio X não só denunciou o mal, mas também prescreveu o remédio: a fidelidade inabalável ao depósito da fé e o combate intransigente a toda forma de modernismo. “Instaurare omnia in Christo”, “restaurar todas as coisas em Cristo”, era seu lema, que deveria ser também o nosso nestes tempos de confusão doutrinária.
Por isso mesmo dizia Dom Marcel Lefebvre: “Não podemos colaborar na demolição da Igreja. Devemos permanecer católicos. Ora, para permanecer católicos, é preciso permanecer unidos a Cristo, a São Pedro, aos Papas de todos os tempos.”
Intimamente ligada à crise doutrinária está a crise litúrgica. Vemos nos tempos modernos um claro deslocamento do centro da liturgia: não mais Deus e o culto que lhe é devido, mas o homem e sua pretensa participação e satisfação. O altar foi transformado em mesa, o sacerdote virou as costas para Deus para voltar-se para o povo, e os fiéis são convidados a uma refeição fraterna em vez de assistir ao Santo Sacrifício. Temos no culto um brutal afastamento da fé que ele deveria exprimir. Como aponta com enorme lucidez Dom Marcel Lefebvre, um verdadeiro desvio no sentido protestante, horizontal, antropocêntrico, destruindo assim a verdadeira piedade e o verdadeiro sentido do sagrado.
Meus caros, é por isso que preservamos com tanto zelo o rito romano tradicional, o santo sacrifício da Missa celebrado como sempre foi ao longo dos séculos. Não por uma questão de estética ou nostalgia, mas porque nele está contida, de forma inequívoca, a doutrina católica sobre o sacerdócio, o sacrifício e a presença real.
Donde também a própria crise do sacerdócio. O sacerdote, meus caros, não é um mero “animador de assembleia” ou “assistente social”. Não foi para isto que Nosso Senhor instituiu o sacerdócio na Última Ceia. O sacerdote é alter Christus, outro Cristo, agindo in persona Christi. Como dizia o Santo Cura d’Ars “O sacerdócio é o amor do Coração de Jesus. O sacerdote não é sacerdote para si mesmo; é para vós.” Infelizmente, muitos sacerdotes hoje parecem ter esquecido que são, antes de tudo, “homens de Deus”, consagrados para o culto divino e a salvação das almas, e não funcionários de uma organização humanitária ou ecologista. Colocar a salvação da natureza ao lado da salvação das almas é trair Cristo, a Igreja e as próprias almas.
Por fim, meus caros, olhemos para a apostasia das nações. Aqueles países que outrora foram o berço da Cristandade hoje legislam contra a lei natural e divina. Como escreveu São Pio X em sua encíclica E supremi apostolatus: “As nações destronaram Deus para instaurar o culto do homem. Vemos com profunda dor que a maioria dos homens, esquecendo-se de seu Criador, usa as forças que Deus lhes concedeu para servir, não à glória de Deus, mas à transgressão de seus mandamentos, e rejeitam a manifestação visível de sua autoridade, a Igreja.” E prossegue: “Quem ponderar bem essas coisas, tem necessariamente que temer que tal perversão dos espíritos seja apenas um primeiro antegosto e como um princípio das desgraças que se devem esperar do fim dos tempos.”
Diante deste quadro sombrio que se nos apresenta, podemos recordar as palavras de Tertuliano: “O sangue dos mártires é semente de cristãos.” E as palavras do próprio Cristo: “Vós sois a luz do mundo” (Mt. V, 14). É nas épocas de maior escuridão que a luz dos fiéis deve brilhar com mais intensidade.
Então, meus caros, como se portar diante de tudo isto? Como manter a alegria cristã em meio a tantas tribulações dentro e fora da Igreja?
Ora, a alegria do cristão vem antes de tudo do combate bem combatido. Devemos recordar que a alegria cristã não está na ausência de lutas, mas no combate bem travado. São Paulo, no fim de sua vida, podia dizer com satisfação: “Combati o bom combate, terminei a carreira, guardei a fé” (2Tim. IV, 7). A alegria do soldado está em lutar pelo seu rei, não em evitar a batalha.
Como ensina Santo Inácio de Loyola: “Para maior glória de Deus, trabalhai como se tudo dependesse de vós, e confiai como se tudo dependesse de Deus.” Este é o equilíbrio que devemos buscar: trabalhar com todas as nossas forças pela causa de Deus, mas confiar inteiramente na Providência divina para os resultados.
O homem só é feliz pelo sacrifício. Meus caros, o mundo moderno busca a felicidade na ausência de sofrimento, no conforto, no prazer. Os homens de nosso tempo fogem da cruz como da própria peste. As indústrias do entretenimento, da publicidade, do consumo — tudo isto se baseia na ilusão de que a felicidade consiste em acumular prazeres e evitar toda dor. Mas Cristo nos ensina exatamente o contrário: “Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me” (Mt. XVI, 24).
Este é o grande paradoxo que o mundo não compreende e não pode compreender: a verdadeira alegria vem do sacrifício voluntariamente aceito por amor. Os santos nos ensinam que não há atalho para a verdadeira felicidade. Os mártires, no momento de seu supremo sacrifício, experimentavam uma alegria sobrenatural que seus algozes, vivendo nos prazeres do mundo, jamais conheceriam. O próprio Cristo só entrou em sua glória depois de sofrer na Cruz.
Como assevera São Tomás de Aquino: “Não há verdadeira felicidade fora da observância da lei divina.” A lei divina, que muitas vezes exige sacrifícios e renúncias, é o caminho para a verdadeira felicidade. O cristão não é feliz apesar de seus sacrifícios, mas através deles. Santo Agostinho viveu exatamente isso, após anos buscando a felicidade nos prazeres mundanos: “Fizeste-nos para Ti, Senhor, e o nosso coração está inquieto enquanto não repousar em Ti.”
É por isso, meus caros, que vemos um fenômeno paradoxal em nossos dias: quanto mais a sociedade persegue o prazer e o conforto, quanto mais se multiplicam as distrações e facilidades, mais crescem a depressão, a angústia, o vazio existencial. É que estamos desrespeitando uma lei espiritual fundamental: a felicidade não está no prazer, mas no sentido; não está na ausência de sofrimento, mas no sofrimento assumido por um propósito maior que nós mesmos. Em última análise, a felicidade está no sacrifício de amor, como nos mostrou Cristo na Cruz.
Cristo já venceu o demônio. Lembrem-se sempre, meus caros, que por mais terrível que seja a batalha, a vitória já foi conquistada por Cristo. “Tende confiança, eu venci o mundo” (Jo. XVI, 33), disse-nos o Senhor. O combate que travamos já tem um vencedor. Quando Cristo expirou na Cruz, o véu do templo rasgou-se de alto a baixo, e o poder das trevas foi definitivamente quebrado. Na manhã gloriosa da Ressurreição, o Senhor declarou sua vitória definitiva sobre o pecado, a morte e o inferno.
Vivemos, portanto, no tempo do já e do ainda não. A vitória já foi conquistada por Cristo, mas ainda não se manifestou em sua plenitude. É por isso que continuamos a lutar, não como quem combate sem esperança, mas como quem sabe que está do lado vencedor. Esta certeza deve ser fonte de uma alegria inabalável mesmo nos momentos mais sombrios.
Como ensina Santo Antão diante das tentações: “Vi todas as armadilhas que o inimigo estendeu sobre a terra e disse gemendo: ‘Quem poderá escapar?’ E ouvi uma voz que me dizia: `A humildade.” A humildade e a confiança em Deus são nossas armas nesta luta espiritual. O demônio não pode vencer aquele que se reconhece pequeno e confia inteiramente na força de Deus. A soberba é a porta de entrada para todas as tentações, enquanto a humildade é o baluarte contra o qual se quebram todas as investidas do inimigo.
Recordemos também as palavras de São Pedro: “Sede sóbrios e vigilantes. Vosso adversário, o diabo, rodeia como um leão a rugir, procurando a quem devorar. Resisti-lhe, firmes na fé” (I Pe. V, 8-9). A sobriedade, a vigilância e a firmeza na fé são nossas defesas contra o maligno. E esta firmeza na fé exige de nós o conhecimento profundo da doutrina católica, não apenas de modo superficial, mas penetrando seus mistérios através do estudo sério e da meditação assídua.
Nossa Senhora já pisou na cabeça da serpente. E não lutamos sozinhos, meus caros. Temos a poderosa intercessão da Santíssima Virgem Maria, aquela que já pisou na cabeça da serpente, como profetizado no protoevangelho (Gên. III, 15): “Porei inimizades entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a descendência dela. Esta te esmagará a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar.” Desde o início da história da salvação, Deus quis associar a Santíssima Virgem à obra redentora de seu Filho.
Na Anunciação, Maria deu o consentimento que abriu as portas à Encarnação do Verbo. No Calvário, em pé junto à Cruz, ofereceu seu Filho ao Pai pela salvação do mundo, tornando-se Corredentora e Mãe de todos os remidos. E no Apocalipse, São João a vê como “uma mulher vestida de sol, com a lua debaixo dos pés e uma coroa de doze estrelas sobre a cabeça” (Apoc. XII, 1), a Mulher que esmaga a cabeça da antiga serpente.
São Luís Maria Grignion de Montfort nos assegura: “Assim como por Maria começou a salvação do mundo, também por Maria deve ser consumada.” Em tempos de confusão doutrinária, litúrgica e moral, a devoção à Nossa Senhora é uma âncora segura. Aquele que permanece devoto à Santíssima Virgem jamais se desviará para as sendas do erro. Como nos ensina São Bernardo: “Se se levantam os ventos das tentações, se se erguem os escolhos das tribulações, olha para a estrela, invoca Maria. Nas perplexidades, nas angústias, nas dúvidas, pensa em Maria, invoca Maria. Não se afaste ela de tua boca, não se afaste de teu coração.”
Por fim, o Imaculado Coração de Maria triunfará. Temos uma certeza, meus caros: por mais sombria que seja a situação atual, o futuro pertence a Deus e à sua Santa Romana Igreja. Como prometeu Nossa Senhora em Fátima: “Por fim, o meu Imaculado Coração triunfará.” Esta promessa deve ser nossa maior fonte de esperança nos tempos atribulados que vivemos. São Maximiliano Kolbe acrescenta: “Deixemos que a Imaculada nos conduza, e a vitória será certa.” Consagremo-nos, pois, ao Imaculado Coração de Maria, e trabalhemos sob sua proteção pela restauração da Igreja e da sociedade cristã. Esta devoção não é opcional, mas a poderosa arma da humildade contra o orgulho luciferino moderno.
Meus caros, neste tempo que nos resta até a Páscoa, intensifiquemos nossa vida de oração, a frequência aos sacramentos, especialmente a Confissão e a Eucaristia, e a prática obras de caridade.
É preciso elevar-se à oração mental, à meditação das verdades eternas e dos mistérios da nossa redenção. Como ensinava São João da Cruz: “O aproveitamento espiritual não está em pensar muito, mas em amar muito.” E este amor nasce da contemplação das verdades da fé. Contemplemos o mistério de nossa redenção pelo terço diário, pelo terço em família: é o rosário que nos protege do orgulho do demônio com a humildade de Nossa Rainha.
Em segundo lugar, o estudo da doutrina. Vivemos em tempos de confusão doutrinária, em que mesmo muitos pastores propagam erros e ambiguidades. Recordemos, meus caros, as palavras de Deus pelos lábios do profeta Oséias: “Meu povo perece por falta de conhecimento” (Oséias IV, 6). Esta sentença divina permanece terrivelmente atual. Como podemos amar aquilo que não conhecemos? Como podemos defender aquilo que não compreendemos? O estudo da doutrina não é uma ocupação meramente intelectual, mas uma exigência do amor. Conhecer mais profundamente os mistérios da fé é conhecer melhor a Deus, e conhecê-Lo melhor é amá-Lo mais ardentemente. Este amor, por sua vez, nos leva ao sacrifício pela salvação da nossa alma e das almas do nosso próximo. É dever, portanto, de todo católico conhecer profundamente sua fé, não por vaidade intelectual, mas por necessidade espiritual. Como dizia Santo Tomás de Aquino: “O estudo é a melhor preparação para a contemplação”, e é desta contemplação que nasce o verdadeiro amor a Deus que nos impele ao sacrifício.
Caríssimos, enfim, a quaresma não é um fim em si mesma, mas um meio para nos preparar para a alegria pascal. Do mesmo modo, as tribulações atuais da Igreja e do mundo não são o capítulo final da história, mas uma provação que conduz ao triunfo da Santa Igreja.
Como nos adverte Santo Afonso Maria de Ligório: “Quem reza, certamente se salva; quem não reza, certamente se condena.” Mantenhamos, pois, nossa vida de oração, nossa fidelidade à doutrina perene da Igreja, nossa frequência aos sacramentos, nossa devoção à Santíssima Virgem. E não esqueçamos jamais a promessa de Nossa Senhora em Fátima: “Por fim, o meu Imaculado Coração triunfará.” Esta certeza nos dá uma alegria que o mundo não conhece e não pode tirar de nós.
Vivamos, pois, estes últimos dias da Quaresma com fervor renovado, olhando já para a aurora da Ressurreição. E que Nossa Senhora das Dores, que compartilhou os sofrimentos de Cristo e a alegria da Ressurreição, nos acompanhe nesta jornada.

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