O Antoniano

Santa Fé Católica, Santo Antônio de Lisboa, sã filosofia et alia

O sermão pregado não segue o texto abaixo ao pé da letra.

Sermão para o III Domingo da Quaresma
Pe. Marcos Vinícius Mattke, IBP
Capela Nossa Senhora das Dores
Brasília/DF, 23 de março de 2025 A.D.

Caríssimos fiéis,

No Evangelho que Nossa Santa Madre Igreja nos apresenta hoje, Nosso Senhor Jesus Cristo expulsa um demônio que tornara mudo um pobre homem. E quando aquele homem, livre do jugo do demônio, começou a falar, as multidões se maravilharam. Mas alguns judeus, cegos e loucos pela inveja e pelo orgulho, disseram: “É pelo príncipe dos demônios que ele expulsa os demônios”. E outros, querendo tentá-lo, pediam-lhe um sinal do céu.

Conhecendo-lhes os pensamentos, Nosso Senhor proferiu essas palavras que devem tocar profundamente nossas consciências: “Todo reino dividido contra si mesmo será devastado e cairá casa sobre casa. […] Quem não está comigo está contra mim; e quem não recolhe comigo, dispersa.”

Estas palavras, meus caros, não admitem meio-termo, não permitem tibieza, não toleram a neutralidade. São palavras que nos convocam, neste tempo santo da Quaresma, a uma decisão clara e inequívoca: ou estamos com Cristo, ou estamos contra Ele.

Quantos de nós, meus caros, vivemos na ilusão de que podemos servir a dois senhores? Quantos imaginam que podem conciliar Cristo e o mundo, o Evangelho e o espírito do século, a Cruz e as concupiscências da carne? Esta é a grande tentação de nossos tempos: uma vida cristã confortável, sem compromisso total, uma fé de domingo que não incomoda nos outros dias da semana. Eventualmente uma fé baseada em observâncias exteriores, no gosto de polêmicas e estudos curiosos, mas que não possui compromisso real com a prática e o crescimento nas virtudes.

São Gregório Magno nos adverte claramente: “Não fazer nada de bom é já fazer o mal.” Observem, caríssimos fiéis, que o santo Pontífice não diz que é preciso fazer algo ativamente mau para estar contra Cristo. Basta a omissão, basta a inércia, basta não fazer o bem que somos chamados a realizar. No campo espiritual, a neutralidade é impossível; o que parece indiferença é, na verdade, rejeição.

E qual é o resultado de uma vida cristã morna, acomodada? Os mestres da vida espiritual, como Santa Teresa e Santo Afonso Maria de Ligório, respondem a uma só voz: “Quem não avança na vida espiritual, retrocede.” Não há estagnação na vida da graça. Ou crescemos em virtude, ou definhamos no vício. Ou nos aproximamos de Cristo, ou dele nos afastamos.

Meus caros, quando Cristo nos convoca dizendo “quem não está comigo está contra mim”, Ele não está estabelecendo uma opção entre muitas possíveis – está declarando uma verdade absoluta: não há terceira via entre a luz e as trevas, entre a verdade e a mentira, entre a vida e a morte.

Santa Catarina de Sena exclamava aos seus discípulos movida por uma ardente caridade: “Se fordes o que deveis ser, poreis fogo em toda a Itália!”Que ela quer dizer? Que quando um cristão é verdadeiramente o que deve ser – discípulo integral de Cristo – torna-se uma chama ardente que alastra o fogo do amor divino por toda parte. Não é compatível com a nossa vocação batismal uma existência morna, uma fé envergonhada, um amor comedido.

Na segunda semana dos Exercícios Espirituais, Santo Inácio de Loyola nos propõe a meditação das Duas Bandeiras: de um lado, Cristo Nosso Senhor, chamando todos à pobreza, ao desprezo do mundo e à humildade; de outro, Lúcifer, incitando à riqueza, à honra vã e à soberba. Entre estas duas bandeiras, meus caros, temos necessariamente que escolher uma, pois é impossível militar sob ambas simultaneamente.

Nesta meditação fundamental, meus caros, Santo Inácio nos coloca diante de uma cena vívida e dramática: de um lado, Lúcifer, sentado em um trono de fogo e fumaça na grande planície de Babilônia, despachando seus demônios pelo mundo para tentar os homens primeiro com o amor às riquezas, depois com o desejo de honras vãs, e finalmente com o orgulho, que é a porta de todos os vícios. De outro lado, Cristo Nosso Senhor, em um campo humilde perto de Jerusalém, enviando seus apóstolos para atrair as almas primeiro à pobreza espiritual, depois ao desprezo das honras mundanas, e por fim à humildade, que é o fundamento de todas as virtudes. Dois generais, duas estratégias, dois destinos completamente opostos. E cada um de nós, caríssimos fiéis, está continuamente sendo chamado a alistar-se em um destes exércitos. A neutralidade aqui é impossível; ou avançamos sob o estandarte de Cristo, ou, por nossa tibieza e omissão, deixamo-nos capturar pelas astúcias do inimigo.

O próprio Santo Inácio nos ensina: “Em toda boa escolha, quanto depende de nós, o olho de nossa intenção deve ser simples, olhando somente para o fim para o qual fui criado, isto é, para louvor de Deus Nosso Senhor e salvação de minha alma.” A simplicidade de que fala o santo fundador é justamente esta clareza na escolha, esta ausência de duplicidade, esta retidão na intenção que nos leva a buscar unicamente a glória de Deus e a nossa salvação eterna.

O mundo moderno, caríssimos fiéis, exerce sobre nós uma pressão contínua para que abandonemos os princípios do Evangelho, para que adaptemos a fé às exigências do século, para que sacrifiquemos a verdade no altar da popularidade e da aceitação social. E isso sob o disfarce da prudência, da razoabilidade, do diálogo, com o argumento de não ser rígido, não ser radical. De ser tolerante, moderado, de saber conviver com os outros, de não se fechar nas próprias visões. Enfim, a máquina de propaganda do inimigo da Cruz que escutamos por todos os cantos. Contra esta tentação, ressoa forte o testemunho de Santo Tomás More: “Não devemos jamais afastar-nos da verdade por medo de perder o favor dos homens.” Este grande mártir inglês deu sua vida em testemunho desta convicção, preferindo morrer fiel a Cristo do que viver traindo sua consciência.

Quando dizemos “estou com Cristo”, meus caros, não estamos apenas fazendo uma profissão de fé abstrata – estamos assumindo um compromisso de vida que abrange todos os aspectos de nossa existência: nossos pensamentos, nossas palavras, nossas ações, nossas escolhas, nossas amizades, nossos passatempos, tudo deve estar subordinado a este princípio fundamental.

Na Epístola de hoje, meus caros, São Paulo nos exorta com palavras inequívocas: “Sede, pois, imitadores de Deus, como filhos muito amados; e andai em amor, como também Cristo vos amou e se entregou a si mesmo por nós, como oferta e sacrifício a Deus em cheiro suave” (Ef 5, 1-2). Observai a radicalidade deste chamado! E sim, digo radical, pois isso é uma qualidade, significa ser a raiz. Não se trata de imitar qualquer modelo humano, por mais virtuoso que seja, mas o próprio Deus. E o critério desta imitação é o amor – não um sentimentalismo vago, mas aquele amor sacrificial que levou Cristo à Cruz por nossa salvação. Estar com Cristo significa, portanto, abraçar este mesmo amor, esta mesma disposição ao sacrifício, esta mesma entrega total.

O Apóstolo prossegue, caríssimos fiéis, enumerando com clareza o que é incompatível com a vida em Cristo: “quanto à fornicação e a toda impureza ou avareza, nem sequer se nomeie entre vós, como convém a santos; nem torpezas, nem palavras vãs, nem gracejos, que são coisas inconvenientes” (Ef 5, 3-4). Notai como São Paulo não deixa espaço para meios-termos: estas coisas não devem sequer ser nomeadas entre os cristãos. O estar com Cristo exige uma ruptura clara e decisiva com tudo o que é contrário à santidade. Não podemos frequentar os sacramentos no domingo e participar de conversas impuras na segunda-feira; não podemos adorar a Cristo na Eucaristia e depois entregar-nos à avareza nos negócios. Não podemos receber a graça e depois negociar com o demônio até onde posso vender-me a ele. Até onde posso me corromper, sem achar que estou em pecado. O mínimo necessário para não pecar já é o suficiente para pecar. Estar em cima do muro é estar do lado do demônio.

E como coroamento desta instrução, meus caros, o Apóstolo nos recorda nossa nova identidade em Cristo: “Porque vós éreis outrora trevas, mas agora sois luz no Senhor. Andai como filhos da luz” (Ef 5, 8). Notemos o contraste absoluto: trevas e luz, o que éramos e o que somos agora em Cristo. E notemos também a consequência prática: “andai como filhos da luz”. A luz não pode misturar-se com as trevas; ou dissipa a escuridão, ou é por ela obscurecida. Assim também nós, se queremos estar com Cristo, devemos irradiar sua luz em todas as circunstâncias, produzindo, como diz São Paulo, “frutos de bondade, de justiça e de verdade” (Ef 5, 9).

Este tempo santo da Quaresma, meus caros, é particularmente propício para examinarmos onde estamos – se com Cristo ou contra Ele – e para renovarmos nosso compromisso batismal. E como fazer isto concretamente?

Primeiro, pela oração fervorosa e constante. São Pio X nos ensina: “A oração é a arma mais poderosa que temos para vencer o demônio. É a chave que abre o coração de Deus.” Se queremos estar verdadeiramente com Cristo, temos que nos colocar em Sua presença, ouvir Sua voz, receber Sua graça. Sem oração, se a meditação, nossa vida cristã definha, nossa fidelidade vacila, nossa resistência ao mundo se enfraquece.

Segundo, pela mortificação e pela penitência. O jejum, a abstinência, as pequenas renúncias cotidianas são meios eficazes de fortalecer nossa vontade contra as tentações e de expiar nossos pecados. Ao renunciar a algo lícito, meus caros, exercitamos nossa capacidade de dizer “não” ao ilícito quando a tentação surgir.

Terceiro, pela confissão sacramental frequente e bem preparada. Neste sacramento da misericórdia divina, encontramos não apenas o perdão de nossos pecados, mas também a graça para vencer nossas más inclinações e crescer nas virtudes contrárias. A contrição sincera e o propósito firme de emenda são já sinais claros de que queremos estar com Cristo e não contra Ele.

Examinemos, caríssimos fiéis, se em algum aspecto de nossa vida estamos sendo neutros ou mornos, quando deveríamos ser fervorosos e decididos. Perguntemo-nos, à luz deste Evangelho: Estou verdadeiramente com Cristo, ou estou, de algum modo, contra Ele? Estou recolhendo com Ele, ou estou dispersando?

“Quem não está comigo está contra mim; e quem não recolhe comigo, dispersa.” Estas palavras de Cristo, meus caros, devem ecoar em nossos corações neste terceiro domingo da Quaresma. Não é possível a neutralidade no combate espiritual. Ou somos de Cristo, integralmente, ou somos do mundo.

E lembremos sempre: o demônio expulso, se encontra a casa vazia, volta com sete outros espíritos piores do que ele. Não basta, portanto, expulsar o mal de nossa vida; é preciso preencher o vazio com virtudes, com boas obras, com amor a Deus e ao próximo. A graça não suporta o vácuo.

Este ensinamento de Nosso Senhor sobre o demônio que retorna com sete espíritos piores, meus caros, deve inspirar em nós um santo temor. Quantas almas, após uma boa confissão ou um retiro espiritual, experimentaram a alegria da libertação do pecado, mas depois, por negligência na oração, por descuido na fuga das ocasiões próximas, ou por excesso de confiança em suas próprias forças, recaíram em seus antigos vícios! E não apenas recaíram, mas afundaram-se em abismos ainda mais profundos de iniquidade. É uma lei espiritual terrível, mas inescapável: aquele que, tendo conhecido a graça de Deus, a rejeita, torna-se mais endurecido, mais cego, mais obstinado do que antes. Como nos adverte São Pedro em sua segunda epístola: “Melhor lhes fora não ter conhecido o caminho da justiça do que, depois de o conhecerem, voltar atrás, abandonando o santo mandamento que lhes fora dado” (2 Pd 2, 21). Por isso, caríssimos fiéis, não nos contentemos com uma libertação temporária, mas busquemos uma conversão permanente, uma vigilância constante, um crescimento contínuo nas virtudes.

Que Nossa Senhora, perfeito modelo de quem está totalmente com Cristo, nos ajude a fazer sempre a escolha certa, a escolha que nos conduzirá à vida eterna. “Eis a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra” – assim respondeu a Virgem ao anjo, assim devemos responder nós a cada chamado de Cristo.

Caríssimos fiéis, neste tempo de graça e de conversão, renovemos nosso propósito de estar totalmente com Cristo, sem vacilo, sem meios-termos, sem compromissos com o espírito do mundo. É este o caminho da santidade, é este o caminho da salvação.


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