Rorate coeli: o orvalho divino e a iminência do Natal do Senhor

RORATE COELI

Comentário sobre Isaías XLV, 6-8
Pe. Marcos Vinicius Mattke, IBP

Brasília-DF, 23 de dezembro de 2025 A.D.

6. Para que saibam (todos), desde o oriente ao poente, que nada há fora de mim. Eu sou o Senhor, não há outro.

7 .Formo a luz e crio as trevas, faço a paz e mando o castigo (aos povos); sou eu, o Senhor, que faço todas estas coisas.

8. Derramai, ó céus, lá dessas alturas o vosso orvalho, e as nuvens façam chover a justiça! Abra-se a terra e brote a salvação; ao mesmo tempo faça germinar a justiça. Eu sou o Senhor que crio tudo isto.

Isaías XLV, 6-8.

Durante o santo tempo do Advento, nossa Santa Romana Igreja eleva ao Céu um dos mais belos cânticos da Sagrada Escritura: o Rorate Cæli. Nestas palavras do profeta Isaías, condensam-se séculos de espera do messias prometido, o suspiro ardente dos patriarcas e profetas, e sobretudo o mistério inefável da cooperação entre o Céu e a terra na obra da nossa Redenção. Meditemos, pois, verso por verso, esta pérola das sagradas escrituras.

V. 6: “Ut sciant qui ab ortu solis et qui ab occidente, quoniam absque me non est: ego Dominus, et non est alter.”

O profeta abre esta sublime passagem proclamando a unicidade absoluta de Deus. “Ego Dominus, et non est alter”, “Eu sou o Senhor, e não há outro”. Eis a pedra angular da revelação divina: existe um só Deus verdadeiro, Criador e Senhor de todas as coisas.

No contexto histórico, Isaías dirigia-se a um povo cercado de idolatria, onde cada nação ostentava os seus falsos deuses. Mas o Deus de Israel não é um deus entre outros; Ele é o único Deus, do oriente ao ocidente, do nascente ao poente. Esta afirmação prepara a universalidade da salvação que viria pelo Messias: Aquele que é único e transcendente fará ressoar o seu nome em toda a terra.

Para nós, que vivemos no tempo da graça, este versículo é também um exame de consciência. Quantos ídolos modernos disputam o trono do nosso coração? O dinheiro, o prazer, a opinião mundana, o conforto, todos esses ídolos que nos dizem: “Eu também sou senhor”. Mas a voz do profeta é firme: “Non est alter”, não há outro. O Advento nos impele a derrubar estes ídolos e a preparar o trono do coração para o único Rei verdadeiro.

V. 7: “Formans lucem et creans tenebras, faciens pacem et creans malum: ego Dominus faciens omnia hæc.”

Eis um versículo que pode gerar confusão: Deus, que forma a luz e cria as trevas; que faz a paz e cria o mal. Que significa isto?

Os Santos Padres, especialmente Santo Agostinho, esclarecem-no. O “malum” de que fala o profeta não é o mal moral, o pecado, do qual Deus não pode ser autor. Trata-se antes das adversidades, tribulações e castigos que Deus permite ou envia para a conversão dos pecadores e a purificação dos justos. Deus não é autor do pecado, mas é Senhor absoluto de todas as circunstâncias da história.

Contemplemos aqui a Providência divina que tudo ordena para o bem. As trevas do mundo antigo, a idolatria, a escravidão ao pecado, a ignorância de Deus, prepararam, paradoxalmente, a vinda da Luz verdadeira. “Lux in tenebris lucet”, dirá São João no prólogo de seu evagelho: a Luz brilha nas trevas, e as trevas não a conheceram. O Advento situa-se liturgicamente no escurecer do ano no hemisfério norte; a Igreja Romana canta na noite, esperando o Sol nascente que vem do alto.

V. 8: “Rorate, cæli, desuper, et nubes pluant justum; aperiatur terra, et germinet Salvatorem, et justitia oriatur simul: ego Dominus creavi eum.”

Chegamos ao coração desta perícope sagrada, àquele versículo que a Igreja canta com especial ternura durante o Advento.

Rorate, cæli, desuper, et nubes pluant justum”, Destilai, ó céus, lá do alto, e as nuvens chovam o Justo. O orvalho que desce dos céus é figura admirável de Cristo. São Bernardo de Claraval desenvolve esta imagem com eloquência: o orvalho desce silenciosamente, de noite, sem ruído nem violência; penetra a terra com suavidade e a fecunda sem a ferir. Assim veio o Salvador ao mundo: não com o estrondo dos exércitos, mas no silêncio de uma noite em Belém; não no palácio de Herodes, mas na pobreza de um estábulo. “Inclinavit cælos et descendit”, inclinou os céus e desceu. Eis a condescendência infinita de Deus.

Aperiatur terra, et germinet Salvatorem”, “Abra-se a terra e germine o Salvador”. A exegese patrística vê aqui uma prefiguração luminosa de Nossa Senhora. Santo Ireneu de Lyon estabelece o paralelo: assim como Adão foi formado por Deus da terra virgem, ainda não arada nem semeada por mão de homem, assim o Novo Adão, Cristo, nasceu da Virgem Maria, terra puríssima e intacta.

A terra “se abre”, eis o Fiat de Maria. Quando o Arcanjo Gabriel anuncia o mistério da Encarnação, a Virgem responde: “Ecce ancilla Domini; fiat mihi secundum verbum tuum”, “Eis a escrava do Senhor; faça-se em mim segundo a vossa palavra”. Neste momento sublime, a terra acolheu o orvalho celeste; a humildade de Maria recebeu a graça infinita de Deus.

Contemplemos, caríssimos, esta admirável cooperação entre o céu e a terra. O orvalho vem de cima, é a iniciativa divina, a graça preveniente, o dom absolutamente gratuito. Mas a terra deve abrir-se: é a resposta humana, a cooperação livre, o fiat da criatura. Maria é o exemplar perfeito desta correspondência entre a graça e a liberdade. Nela, o céu encontrou uma terra perfeitamente disposta; nela, a onipotência divina encontrou uma humildade sem limites.

Conclusão

E nós, caríssimos, que lição tiramos para concluir o Advento nesta vigília da natividade? O orvalho celeste continua a descer: nas graças dos Sacramentos, na pregação evangélica, nas inspirações interiores, o Senhor não cessa de inclinar os céus até nós. Mas a terra do nosso coração,  acaso está ela aberta? Nós a dispusemos para receber a graça do Natal?

O orgulho endurece a terra; a dissipação mundana a torna impermeável; o pecado a esteriliza. Peçamos a Nossa Senhora, a terra virgem e fecunda, que nos obtenha a graça de uma verdadeira disposição interior. Que ao menos na vigília do nascimento do Senhor nós possamos dizer com Ela o nosso Fiat; que o Salvador possa germinar em nossos corações e a justiça nascer em nossas vidas.

Ego Dominus creavi eum”, “Eu, o Senhor, o criei”. A salvação é obra de Deus; a glória pertence somente a Ele. Mas quis Ele associar a Si uma criatura, Maria Santíssma, e quer associar-nos também a nós. Abramos, pois, a terra do nosso coração, para que neste Natal, o Salvador germine verdadeiramente em nós.

Comentários

Uma resposta para “Rorate coeli: o orvalho divino e a iminência do Natal do Senhor”

  1. Eliene Machado

    Que belo sermão! Isaías nos recorda que só o Senhor é Deus, fonte da luz e da paz. No silêncio do Advento, como o orvalho que fecunda a terra, Cristo vem suavemente ao nosso coração. Que possamos, com Maria, abrir-nos à graça e deixar germinar em nós o Salvador. Amém!🙏🏻

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