O Antoniano https://oantoniano.com/ Santa Fé Católica, Santo Antônio de Lisboa, sã filosofia et al. Mon, 31 Mar 2025 11:07:21 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=6.7.2 https://oantoniano.com/wp-content/uploads/2025/03/cropped-IBP-legiaostoantonio-32x32.png O Antoniano https://oantoniano.com/ 32 32 [Sermão] A alegria cristã em tempos de crise, penitência e sofrimento https://oantoniano.com/sermao-a-alegria-crista-em-tempos-de-crise-penitencia-e-sofrimento/ https://oantoniano.com/sermao-a-alegria-crista-em-tempos-de-crise-penitencia-e-sofrimento/#respond Mon, 31 Mar 2025 01:03:43 +0000 https://oantoniano.com/?p=97 "Como manter a alegria cristã em meio a tantas tribulações dentro e fora da Igreja?
Ora, a alegria do cristão vem antes de tudo do combate bem combatido. Devemos recordar que a alegria cristã não está na ausência de lutas, mas no combate bem travado."

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Sermão para o IV Domingo da Quaresma – Domingo Lætare
Pe. Marcos Vinícius Mattke, IBP
Capela Nossa Senhora das Dores
Brasília/DF, 30 de março de 2025 A.D.

Caríssimos fiéis,

Neste Domingo nossa Santa Madre Igreja nos convida a uma breve pausa em nossa penitência quaresmal. Os paramentos róseos são um sinal visível desta alegria contida que a Igreja nos propõe. O Domingo Laetare tira seu nome da antífona de entrada: “Laetare, Jerusalem” — “Alegra-te, Jerusalém” (Isaías LXVI, 10). Mas, meus caros, que alegria é esta em meio à austeridade da Quaresma?

A alegria que a Santa Romana Igreja nos propõe hoje não é a alegria efêmera do mundo, que depende das circunstâncias exteriores e se esvai diante da primeira tribulação. Não é aquela falsa alegria que os homens buscam nas coisas transitórias, nas honras, nos prazeres, nos bens materiais. Estas alegrias, meus caros, são tão passageiras quanto a fumaça que se dissipa ao vento.

A alegria cristã é diferente. Ela permanece mesmo em meio às adversidades, porque tem suas raízes em Deus. Como nos ensina Santo Agostinho: “A medida do amor é amar sem medida. E a verdadeira alegria nasce deste amor.” A alegria cristã nasce do amor a Deus e da certeza de que somos amados por Ele. É uma alegria que ninguém nos pode tirar, como o próprio Cristo prometeu. 

Meus caros, pode parecer contraditório falarmos de alegria em pleno tempo penitencial. Como podem coexistir estas duas realidades aparentemente opostas? É porque a penitência não é um fim em si mesma, mas um meio para alcançarmos a verdadeira alegria.

Podemos considerar São Francisco de Assis que, em seus Fioretti, nos ensina: “A perfeita alegria não está nos milagres ou conhecimentos, mas em suportar pacientemente, por amor de Cristo, todas as aflições e injúrias.” Quando São Francisco explicava ao Frei Leão o que era a perfeita alegria, não apontava para os êxitos, as conversões ou os milagres, mas sim para a capacidade de sofrer alegremente por amor a Cristo. A verdadeira alegria é muito mais elevada que a satisfação de nossos apetites carnais, a verdadeira alegria transcende as imperfeições e tribulações dessa vida: ela está fundada no nosso fim último e bem supremo que é Deus.

Ave crux, spes única, ave gaudium verum: a Cruz é o caminho para a alegria. Não há Ressurreição sem Crucificação. Não há Páscoa sem Quaresma. Meus caros, a quaresma é um “pequeno Calvário” que nos conduz à glória da Páscoa. Este Domingo Laetare é como uma janela aberta para o resplendor da alegria pascal que se aproxima. São Leão Magno nos ensina: “A observância da Quaresma não é apenas a mortificação da carne, mas também uma purificação da alma que nos prepara para a alegria pascal.”

Assim é nossa Quaresma, meus caros: um tempo de dor que culminará na suprema alegria da Ressurreição. Caríssimos, e é claro que não podemos fechar os olhos à realidade que nos cerca. Vivemos tempos de profunda crise na Igreja e no mundo. Mas não somos a primeira geração de cristãos a enfrentar tempestades. A história da Igreja está marcada por crises e heresias, mas também pela fidelidade daqueles que não se deixaram abalar.

Recordemos Santo Atanásio durante a crise ariana, quando a maioria dos bispos havia abraçado a heresia: “Poderão ocupar nossos templos, mas não possuem a fé católica. A verdade não está onde está a multidão.” E São Basílio Magno, na mesma época da heresia ariana, lamentava: “Os ouvidos do povo, habituados às palavras piedosas da tradição, foram gradualmente pervertidos por doutrinas espúrias. Uma névoa densa cobre agora nossas igrejas. Os pastores foram expulsos, e em seu lugar foram introduzidos lobos cruéis que dilaceram o rebanho de Cristo.”

Meus caros, é fato e não podemos ignorar a crise no próprio magistério da Igreja, quando ouvimos afirmações que contradizem frontalmente a fé, buscando constantemente deturpá-la para agradar ao mundo deixando de lado a autoridade divina. Chegou-se ao cúmulo de proclamar, que “a religião de Deus que se fez homem encontrou-se com a religião do homem que se fez Deus.” Como não estremecer diante de tal afirmação?

São Pio X, em sua admirável encíclica Pascendi Dominici Gregis, alertava que “o modernismo é a síntese de todas as heresias, que tende a minar os fundamentos da fé e aniquilar o cristianismo.” Como é importante para nós esse ensinamento! São Pio X expõe como o veneno modernista poderia progressivamente contaminar as sociedades e o clero. Ele explicou como os modernistas, sob o pretexto de adaptar a fé ao pensamento moderno, acabam por esvaziar os dogmas de seu conteúdo sobrenatural. Substituem a verdade objetiva e imutável pela experiência subjetiva, transformando a religião revelada em mero sentimento religioso. É precisamente este espírito que vemos hoje impregnando tantos aspectos da vida eclesiástica: a relativização da verdade, a desvalorização do dogma, o ecumenismo sem limites, a acomodação à mentalidade secular. São Pio X não só denunciou o mal, mas também prescreveu o remédio: a fidelidade inabalável ao depósito da fé e o combate intransigente a toda forma de modernismo. “Instaurare omnia in Christo”, “restaurar todas as coisas em Cristo”, era seu lema, que deveria ser também o nosso nestes tempos de confusão doutrinária.

Por isso mesmo dizia Dom Marcel Lefebvre: “Não podemos colaborar na demolição da Igreja. Devemos permanecer católicos. Ora, para permanecer católicos, é preciso permanecer unidos a Cristo, a São Pedro, aos Papas de todos os tempos.”

Intimamente ligada à crise doutrinária está a crise litúrgica. Vemos nos tempos modernos um claro deslocamento do centro da liturgia: não mais Deus e o culto que lhe é devido, mas o homem e sua pretensa participação e satisfação. O altar foi transformado em mesa, o sacerdote virou as costas para Deus para voltar-se para o povo, e os fiéis são convidados a uma refeição fraterna em vez de assistir ao Santo Sacrifício. Temos no culto um brutal afastamento da fé que ele deveria exprimir. Como aponta com enorme lucidez Dom Marcel Lefebvre, um verdadeiro desvio no sentido protestante, horizontal, antropocêntrico, destruindo assim a verdadeira piedade e o verdadeiro sentido do sagrado.

Meus caros, é por isso que preservamos com tanto zelo o rito romano tradicional, o santo sacrifício da Missa celebrado como sempre foi ao longo dos séculos. Não por uma questão de estética ou nostalgia, mas porque nele está contida, de forma inequívoca, a doutrina católica sobre o sacerdócio, o sacrifício e a presença real.

Donde também a própria crise do sacerdócio. O sacerdote, meus caros, não é um mero “animador de assembleia” ou “assistente social”. Não foi para isto que Nosso Senhor instituiu o sacerdócio na Última Ceia. O sacerdote é alter Christus, outro Cristo, agindo in persona Christi. Como dizia o Santo Cura d’Ars “O sacerdócio é o amor do Coração de Jesus. O sacerdote não é sacerdote para si mesmo; é para vós.” Infelizmente, muitos sacerdotes hoje parecem ter esquecido que são, antes de tudo, “homens de Deus”, consagrados para o culto divino e a salvação das almas, e não funcionários de uma organização humanitária ou ecologista. Colocar a salvação da natureza ao lado da salvação das almas é trair Cristo, a Igreja e as próprias almas.

Por fim, meus caros, olhemos para a apostasia das nações. Aqueles países que outrora foram o berço da Cristandade hoje legislam contra a lei natural e divina. Como escreveu São Pio X em sua encíclica E supremi apostolatus: “As nações destronaram Deus para instaurar o culto do homem. Vemos com profunda dor que a maioria dos homens, esquecendo-se de seu Criador, usa as forças que Deus lhes concedeu para servir, não à glória de Deus, mas à transgressão de seus mandamentos, e rejeitam a manifestação visível de sua autoridade, a Igreja.” E prossegue: “Quem ponderar bem essas coisas, tem necessariamente que temer que tal perversão dos espíritos seja apenas um primeiro antegosto e como um princípio das desgraças que se devem esperar do fim dos tempos.”

Diante deste quadro sombrio que se nos apresenta, podemos recordar as palavras de Tertuliano: “O sangue dos mártires é semente de cristãos.” E as palavras do próprio Cristo: “Vós sois a luz do mundo” (Mt. V, 14). É nas épocas de maior escuridão que a luz dos fiéis deve brilhar com mais intensidade.

Então, meus caros, como se portar diante de tudo isto? Como manter a alegria cristã em meio a tantas tribulações dentro e fora da Igreja?

Ora, a alegria do cristão vem antes de tudo do combate bem combatido. Devemos recordar que a alegria cristã não está na ausência de lutas, mas no combate bem travado. São Paulo, no fim de sua vida, podia dizer com satisfação: “Combati o bom combate, terminei a carreira, guardei a fé” (2Tim. IV, 7). A alegria do soldado está em lutar pelo seu rei, não em evitar a batalha.

Como ensina Santo Inácio de Loyola: “Para maior glória de Deus, trabalhai como se tudo dependesse de vós, e confiai como se tudo dependesse de Deus.” Este é o equilíbrio que devemos buscar: trabalhar com todas as nossas forças pela causa de Deus, mas confiar inteiramente na Providência divina para os resultados.

O homem só é feliz pelo sacrifício. Meus caros, o mundo moderno busca a felicidade na ausência de sofrimento, no conforto, no prazer. Os homens de nosso tempo fogem da cruz como da própria peste. As indústrias do entretenimento, da publicidade, do consumo — tudo isto se baseia na ilusão de que a felicidade consiste em acumular prazeres e evitar toda dor. Mas Cristo nos ensina exatamente o contrário: “Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me” (Mt. XVI, 24).

Este é o grande paradoxo que o mundo não compreende e não pode compreender: a verdadeira alegria vem do sacrifício voluntariamente aceito por amor. Os santos nos ensinam que não há atalho para a verdadeira felicidade. Os mártires, no momento de seu supremo sacrifício, experimentavam uma alegria sobrenatural que seus algozes, vivendo nos prazeres do mundo, jamais conheceriam. O próprio Cristo só entrou em sua glória depois de sofrer na Cruz.

Como assevera São Tomás de Aquino: “Não há verdadeira felicidade fora da observância da lei divina.” A lei divina, que muitas vezes exige sacrifícios e renúncias, é o caminho para a verdadeira felicidade. O cristão não é feliz apesar de seus sacrifícios, mas através deles. Santo Agostinho viveu exatamente isso, após anos buscando a felicidade nos prazeres mundanos: “Fizeste-nos para Ti, Senhor, e o nosso coração está inquieto enquanto não repousar em Ti.”

É por isso, meus caros, que vemos um fenômeno paradoxal em nossos dias: quanto mais a sociedade persegue o prazer e o conforto, quanto mais se multiplicam as distrações e facilidades, mais crescem a depressão, a angústia, o vazio existencial. É que estamos desrespeitando uma lei espiritual fundamental: a felicidade não está no prazer, mas no sentido; não está na ausência de sofrimento, mas no sofrimento assumido por um propósito maior que nós mesmos. Em última análise, a felicidade está no sacrifício de amor, como nos mostrou Cristo na Cruz.

Cristo já venceu o demônio. Lembrem-se sempre, meus caros, que por mais terrível que seja a batalha, a vitória já foi conquistada por Cristo. “Tende confiança, eu venci o mundo” (Jo. XVI, 33), disse-nos o Senhor. O combate que travamos já tem um vencedor. Quando Cristo expirou na Cruz, o véu do templo rasgou-se de alto a baixo, e o poder das trevas foi definitivamente quebrado. Na manhã gloriosa da Ressurreição, o Senhor declarou sua vitória definitiva sobre o pecado, a morte e o inferno.

Vivemos, portanto, no tempo do já e do ainda não. A vitória já foi conquistada por Cristo, mas ainda não se manifestou em sua plenitude. É por isso que continuamos a lutar, não como quem combate sem esperança, mas como quem sabe que está do lado vencedor. Esta certeza deve ser fonte de uma alegria inabalável mesmo nos momentos mais sombrios.

Como ensina Santo Antão diante das tentações: “Vi todas as armadilhas que o inimigo estendeu sobre a terra e disse gemendo: ‘Quem poderá escapar?’ E ouvi uma voz que me dizia: `A humildade.” A humildade e a confiança em Deus são nossas armas nesta luta espiritual. O demônio não pode vencer aquele que se reconhece pequeno e confia inteiramente na força de Deus. A soberba é a porta de entrada para todas as tentações, enquanto a humildade é o baluarte contra o qual se quebram todas as investidas do inimigo.

Recordemos também as palavras de São Pedro: “Sede sóbrios e vigilantes. Vosso adversário, o diabo, rodeia como um leão a rugir, procurando a quem devorar. Resisti-lhe, firmes na fé” (I Pe. V, 8-9). A sobriedade, a vigilância e a firmeza na fé são nossas defesas contra o maligno. E esta firmeza na fé exige de nós o conhecimento profundo da doutrina católica, não apenas de modo superficial, mas penetrando seus mistérios através do estudo sério e da meditação assídua.

Nossa Senhora já pisou na cabeça da serpente. E não lutamos sozinhos, meus caros. Temos a poderosa intercessão da Santíssima Virgem Maria, aquela que já pisou na cabeça da serpente, como profetizado no protoevangelho (Gên. III, 15): “Porei inimizades entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a descendência dela. Esta te esmagará a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar.” Desde o início da história da salvação, Deus quis associar a Santíssima Virgem à obra redentora de seu Filho.

Na Anunciação, Maria deu o consentimento que abriu as portas à Encarnação do Verbo. No Calvário, em pé junto à Cruz, ofereceu seu Filho ao Pai pela salvação do mundo, tornando-se Corredentora e Mãe de todos os remidos. E no Apocalipse, São João a vê como “uma mulher vestida de sol, com a lua debaixo dos pés e uma coroa de doze estrelas sobre a cabeça” (Apoc. XII, 1), a Mulher que esmaga a cabeça da antiga serpente.

São Luís Maria Grignion de Montfort nos assegura: “Assim como por Maria começou a salvação do mundo, também por Maria deve ser consumada.” Em tempos de confusão doutrinária, litúrgica e moral, a devoção à Nossa Senhora é uma âncora segura. Aquele que permanece devoto à Santíssima Virgem jamais se desviará para as sendas do erro. Como nos ensina São Bernardo: “Se se levantam os ventos das tentações, se se erguem os escolhos das tribulações, olha para a estrela, invoca Maria. Nas perplexidades, nas angústias, nas dúvidas, pensa em Maria, invoca Maria. Não se afaste ela de tua boca, não se afaste de teu coração.”

Por fim, o Imaculado Coração de Maria triunfará. Temos uma certeza, meus caros: por mais sombria que seja a situação atual, o futuro pertence a Deus e à sua Santa Romana Igreja. Como prometeu Nossa Senhora em Fátima: “Por fim, o meu Imaculado Coração triunfará.” Esta promessa deve ser nossa maior fonte de esperança nos tempos atribulados que vivemos. São Maximiliano Kolbe acrescenta: “Deixemos que a Imaculada nos conduza, e a vitória será certa.” Consagremo-nos, pois, ao Imaculado Coração de Maria, e trabalhemos sob sua proteção pela restauração da Igreja e da sociedade cristã. Esta devoção não é opcional, mas a poderosa arma da humildade contra o orgulho luciferino moderno.

Meus caros, neste tempo que nos resta até a Páscoa, intensifiquemos nossa vida de oração, a frequência aos sacramentos, especialmente a Confissão e a Eucaristia, e a prática obras de caridade.

É preciso elevar-se à oração mental, à meditação das verdades eternas e dos mistérios da nossa redenção. Como ensinava São João da Cruz: “O aproveitamento espiritual não está em pensar muito, mas em amar muito.” E este amor nasce da contemplação das verdades da fé. Contemplemos o mistério de nossa redenção pelo terço diário, pelo terço em família: é o rosário que nos protege do orgulho do demônio com a humildade de Nossa Rainha.

Em segundo lugar, o estudo da doutrina. Vivemos em tempos de confusão doutrinária, em que mesmo muitos pastores propagam erros e ambiguidades. Recordemos, meus caros, as palavras de Deus pelos lábios do profeta Oséias: “Meu povo perece por falta de conhecimento” (Oséias IV, 6). Esta sentença divina permanece terrivelmente atual. Como podemos amar aquilo que não conhecemos? Como podemos defender aquilo que não compreendemos? O estudo da doutrina não é uma ocupação meramente intelectual, mas uma exigência do amor. Conhecer mais profundamente os mistérios da fé é conhecer melhor a Deus, e conhecê-Lo melhor é amá-Lo mais ardentemente. Este amor, por sua vez, nos leva ao sacrifício pela salvação da nossa alma e das almas do nosso próximo. É dever, portanto, de todo católico conhecer profundamente sua fé, não por vaidade intelectual, mas por necessidade espiritual. Como dizia Santo Tomás de Aquino: “O estudo é a melhor preparação para a contemplação”, e é desta contemplação que nasce o verdadeiro amor a Deus que nos impele ao sacrifício.

Caríssimos, enfim, a quaresma não é um fim em si mesma, mas um meio para nos preparar para a alegria pascal. Do mesmo modo, as tribulações atuais da Igreja e do mundo não são o capítulo final da história, mas uma provação que conduz ao triunfo da Santa Igreja.

Como nos adverte Santo Afonso Maria de Ligório: “Quem reza, certamente se salva; quem não reza, certamente se condena.” Mantenhamos, pois, nossa vida de oração, nossa fidelidade à doutrina perene da Igreja, nossa frequência aos sacramentos, nossa devoção à Santíssima Virgem. E não esqueçamos jamais a promessa de Nossa Senhora em Fátima: “Por fim, o meu Imaculado Coração triunfará.” Esta certeza nos dá uma alegria que o mundo não conhece e não pode tirar de nós.

Vivamos, pois, estes últimos dias da Quaresma com fervor renovado, olhando já para a aurora da Ressurreição. E que Nossa Senhora das Dores, que compartilhou os sofrimentos de Cristo e a alegria da Ressurreição, nos acompanhe nesta jornada.

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Dom Marcel Lefebvre – + 25-03-1991 https://oantoniano.com/dom-marcel-lefebvre-25-03-1991/ https://oantoniano.com/dom-marcel-lefebvre-25-03-1991/#respond Tue, 25 Mar 2025 20:23:34 +0000 https://oantoniano.com/?p=89 Extraído do sermão de Sua Excelência Revma. Dom Marcel Lefebvre para seu jubileu sacerdotal, proferido em Paris em 23 de setembro de 1979. E então, eu terminarei, meus queridos irmãos, com o que chamarei, um pouco, meu testamento. Testamento, é uma palavra muito grande, porque eu gostaria que fosse o eco do testamento de Nosso […]

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Extraído do sermão de Sua Excelência Revma. Dom Marcel Lefebvre para seu jubileu sacerdotal, proferido em Paris em 23 de setembro de 1979.

E então, eu terminarei, meus queridos irmãos, com o que chamarei, um pouco, meu testamento. Testamento, é uma palavra muito grande, porque eu gostaria que fosse o eco do testamento de Nosso Senhor: “novi et æterni testamenti”. “Novi et æterni testamenti”, é o padre que recita estas palavras na Consagração do Precioso Sangue.

“Hic est calix sanguinis mei, novi et æterni testamenti”, a herança que Jesus Cristo nos deu, é seu Sacrifício, é seu Sangue, é sua Cruz. E isso é o fermento de toda a civilização cristã e do que deve nos levar ao Céu.

Também vos digo: Para a glória da Santíssima Trindade, pelo amor de Nosso Senhor Jesus Cristo, pela devoção à Santíssima Virgem Maria, pelo amor à Igreja, pelo amor ao Papa, pelo amor aos bispos, aos padres, a todos os fiéis, pela salvação do mundo, pela salvação das almas, guardai este testamento de Nosso Senhor Jesus Cristo! Guardai o Sacrifício de Nosso Senhor Jesus Cristo! Guardai a Missa de sempre!

E então vereis a civilização cristã reflorescer, civilização que não é para este mundo, mas civilização que leva à cidade católica, e esta cidade católica é a cidade católica do Céu que ela prepara. Não é feita para outra coisa, a cidade católica daqui de baixo, não é feita para outra coisa senão para a cidade católica do Céu. Então guardando o Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, guardando seu Sacrifício, guardando esta Missa, missa que nos foi legada pelos nossos predecessores, missa que foi legada desde os Apóstolos até hoje – e em alguns instantes vou pronunciar estas palavras sobre o cálice da minha ordenação, e como quereis que eu pronuncie, sobre o cálice da minha ordenação, outras palavras que não aquelas que pronunciei há cinquenta anos sobre este cálice, é impossível, não posso mudar estas palavras – então continuaremos a pronunciar as palavras da Consagração, como nossos predecessores nos ensinaram, como os papas, os bispos e os padres que foram nossos educadores nos ensinaram, para que Nosso Senhor Jesus Cristo reine e que as almas sejam salvas pela intercessão de nossa Boa Mãe do Céu.
Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Assim seja.

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[Sermão] Com Cristo ou contra Cristo: a impossibilidade da neutralidade na vida da graça https://oantoniano.com/serm3quar25/ https://oantoniano.com/serm3quar25/#respond Sun, 23 Mar 2025 18:51:08 +0000 https://oantoniano.com/?p=1 Sermão para o III Domingo da QuaresmaPe. Marcos Vinícius Mattke, IBPCapela Nossa Senhora das DoresBrasília/DF, 23 de março de 2025 A.D. Caríssimos fiéis, No Evangelho que Nossa Santa Madre Igreja nos apresenta hoje, Nosso Senhor Jesus Cristo expulsa um demônio que tornara mudo um pobre homem. E quando aquele homem, livre do jugo do demônio, […]

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O sermão pregado não segue o texto abaixo ao pé da letra.

Sermão para o III Domingo da Quaresma
Pe. Marcos Vinícius Mattke, IBP
Capela Nossa Senhora das Dores
Brasília/DF, 23 de março de 2025 A.D.

Caríssimos fiéis,

No Evangelho que Nossa Santa Madre Igreja nos apresenta hoje, Nosso Senhor Jesus Cristo expulsa um demônio que tornara mudo um pobre homem. E quando aquele homem, livre do jugo do demônio, começou a falar, as multidões se maravilharam. Mas alguns judeus, cegos e loucos pela inveja e pelo orgulho, disseram: “É pelo príncipe dos demônios que ele expulsa os demônios”. E outros, querendo tentá-lo, pediam-lhe um sinal do céu.

Conhecendo-lhes os pensamentos, Nosso Senhor proferiu essas palavras que devem tocar profundamente nossas consciências: “Todo reino dividido contra si mesmo será devastado e cairá casa sobre casa. […] Quem não está comigo está contra mim; e quem não recolhe comigo, dispersa.”

Estas palavras, meus caros, não admitem meio-termo, não permitem tibieza, não toleram a neutralidade. São palavras que nos convocam, neste tempo santo da Quaresma, a uma decisão clara e inequívoca: ou estamos com Cristo, ou estamos contra Ele.

Quantos de nós, meus caros, vivemos na ilusão de que podemos servir a dois senhores? Quantos imaginam que podem conciliar Cristo e o mundo, o Evangelho e o espírito do século, a Cruz e as concupiscências da carne? Esta é a grande tentação de nossos tempos: uma vida cristã confortável, sem compromisso total, uma fé de domingo que não incomoda nos outros dias da semana. Eventualmente uma fé baseada em observâncias exteriores, no gosto de polêmicas e estudos curiosos, mas que não possui compromisso real com a prática e o crescimento nas virtudes.

São Gregório Magno nos adverte claramente: “Não fazer nada de bom é já fazer o mal.” Observem, caríssimos fiéis, que o santo Pontífice não diz que é preciso fazer algo ativamente mau para estar contra Cristo. Basta a omissão, basta a inércia, basta não fazer o bem que somos chamados a realizar. No campo espiritual, a neutralidade é impossível; o que parece indiferença é, na verdade, rejeição.

E qual é o resultado de uma vida cristã morna, acomodada? Os mestres da vida espiritual, como Santa Teresa e Santo Afonso Maria de Ligório, respondem a uma só voz: “Quem não avança na vida espiritual, retrocede.” Não há estagnação na vida da graça. Ou crescemos em virtude, ou definhamos no vício. Ou nos aproximamos de Cristo, ou dele nos afastamos.

Meus caros, quando Cristo nos convoca dizendo “quem não está comigo está contra mim”, Ele não está estabelecendo uma opção entre muitas possíveis – está declarando uma verdade absoluta: não há terceira via entre a luz e as trevas, entre a verdade e a mentira, entre a vida e a morte.

Santa Catarina de Sena exclamava aos seus discípulos movida por uma ardente caridade: “Se fordes o que deveis ser, poreis fogo em toda a Itália!”Que ela quer dizer? Que quando um cristão é verdadeiramente o que deve ser – discípulo integral de Cristo – torna-se uma chama ardente que alastra o fogo do amor divino por toda parte. Não é compatível com a nossa vocação batismal uma existência morna, uma fé envergonhada, um amor comedido.

Na segunda semana dos Exercícios Espirituais, Santo Inácio de Loyola nos propõe a meditação das Duas Bandeiras: de um lado, Cristo Nosso Senhor, chamando todos à pobreza, ao desprezo do mundo e à humildade; de outro, Lúcifer, incitando à riqueza, à honra vã e à soberba. Entre estas duas bandeiras, meus caros, temos necessariamente que escolher uma, pois é impossível militar sob ambas simultaneamente.

Nesta meditação fundamental, meus caros, Santo Inácio nos coloca diante de uma cena vívida e dramática: de um lado, Lúcifer, sentado em um trono de fogo e fumaça na grande planície de Babilônia, despachando seus demônios pelo mundo para tentar os homens primeiro com o amor às riquezas, depois com o desejo de honras vãs, e finalmente com o orgulho, que é a porta de todos os vícios. De outro lado, Cristo Nosso Senhor, em um campo humilde perto de Jerusalém, enviando seus apóstolos para atrair as almas primeiro à pobreza espiritual, depois ao desprezo das honras mundanas, e por fim à humildade, que é o fundamento de todas as virtudes. Dois generais, duas estratégias, dois destinos completamente opostos. E cada um de nós, caríssimos fiéis, está continuamente sendo chamado a alistar-se em um destes exércitos. A neutralidade aqui é impossível; ou avançamos sob o estandarte de Cristo, ou, por nossa tibieza e omissão, deixamo-nos capturar pelas astúcias do inimigo.

O próprio Santo Inácio nos ensina: “Em toda boa escolha, quanto depende de nós, o olho de nossa intenção deve ser simples, olhando somente para o fim para o qual fui criado, isto é, para louvor de Deus Nosso Senhor e salvação de minha alma.” A simplicidade de que fala o santo fundador é justamente esta clareza na escolha, esta ausência de duplicidade, esta retidão na intenção que nos leva a buscar unicamente a glória de Deus e a nossa salvação eterna.

O mundo moderno, caríssimos fiéis, exerce sobre nós uma pressão contínua para que abandonemos os princípios do Evangelho, para que adaptemos a fé às exigências do século, para que sacrifiquemos a verdade no altar da popularidade e da aceitação social. E isso sob o disfarce da prudência, da razoabilidade, do diálogo, com o argumento de não ser rígido, não ser radical. De ser tolerante, moderado, de saber conviver com os outros, de não se fechar nas próprias visões. Enfim, a máquina de propaganda do inimigo da Cruz que escutamos por todos os cantos. Contra esta tentação, ressoa forte o testemunho de Santo Tomás More: “Não devemos jamais afastar-nos da verdade por medo de perder o favor dos homens.” Este grande mártir inglês deu sua vida em testemunho desta convicção, preferindo morrer fiel a Cristo do que viver traindo sua consciência.

Quando dizemos “estou com Cristo”, meus caros, não estamos apenas fazendo uma profissão de fé abstrata – estamos assumindo um compromisso de vida que abrange todos os aspectos de nossa existência: nossos pensamentos, nossas palavras, nossas ações, nossas escolhas, nossas amizades, nossos passatempos, tudo deve estar subordinado a este princípio fundamental.

Na Epístola de hoje, meus caros, São Paulo nos exorta com palavras inequívocas: “Sede, pois, imitadores de Deus, como filhos muito amados; e andai em amor, como também Cristo vos amou e se entregou a si mesmo por nós, como oferta e sacrifício a Deus em cheiro suave” (Ef 5, 1-2). Observai a radicalidade deste chamado! E sim, digo radical, pois isso é uma qualidade, significa ser a raiz. Não se trata de imitar qualquer modelo humano, por mais virtuoso que seja, mas o próprio Deus. E o critério desta imitação é o amor – não um sentimentalismo vago, mas aquele amor sacrificial que levou Cristo à Cruz por nossa salvação. Estar com Cristo significa, portanto, abraçar este mesmo amor, esta mesma disposição ao sacrifício, esta mesma entrega total.

O Apóstolo prossegue, caríssimos fiéis, enumerando com clareza o que é incompatível com a vida em Cristo: “quanto à fornicação e a toda impureza ou avareza, nem sequer se nomeie entre vós, como convém a santos; nem torpezas, nem palavras vãs, nem gracejos, que são coisas inconvenientes” (Ef 5, 3-4). Notai como São Paulo não deixa espaço para meios-termos: estas coisas não devem sequer ser nomeadas entre os cristãos. O estar com Cristo exige uma ruptura clara e decisiva com tudo o que é contrário à santidade. Não podemos frequentar os sacramentos no domingo e participar de conversas impuras na segunda-feira; não podemos adorar a Cristo na Eucaristia e depois entregar-nos à avareza nos negócios. Não podemos receber a graça e depois negociar com o demônio até onde posso vender-me a ele. Até onde posso me corromper, sem achar que estou em pecado. O mínimo necessário para não pecar já é o suficiente para pecar. Estar em cima do muro é estar do lado do demônio.

E como coroamento desta instrução, meus caros, o Apóstolo nos recorda nossa nova identidade em Cristo: “Porque vós éreis outrora trevas, mas agora sois luz no Senhor. Andai como filhos da luz” (Ef 5, 8). Notemos o contraste absoluto: trevas e luz, o que éramos e o que somos agora em Cristo. E notemos também a consequência prática: “andai como filhos da luz”. A luz não pode misturar-se com as trevas; ou dissipa a escuridão, ou é por ela obscurecida. Assim também nós, se queremos estar com Cristo, devemos irradiar sua luz em todas as circunstâncias, produzindo, como diz São Paulo, “frutos de bondade, de justiça e de verdade” (Ef 5, 9).

Este tempo santo da Quaresma, meus caros, é particularmente propício para examinarmos onde estamos – se com Cristo ou contra Ele – e para renovarmos nosso compromisso batismal. E como fazer isto concretamente?

Primeiro, pela oração fervorosa e constante. São Pio X nos ensina: “A oração é a arma mais poderosa que temos para vencer o demônio. É a chave que abre o coração de Deus.” Se queremos estar verdadeiramente com Cristo, temos que nos colocar em Sua presença, ouvir Sua voz, receber Sua graça. Sem oração, se a meditação, nossa vida cristã definha, nossa fidelidade vacila, nossa resistência ao mundo se enfraquece.

Segundo, pela mortificação e pela penitência. O jejum, a abstinência, as pequenas renúncias cotidianas são meios eficazes de fortalecer nossa vontade contra as tentações e de expiar nossos pecados. Ao renunciar a algo lícito, meus caros, exercitamos nossa capacidade de dizer “não” ao ilícito quando a tentação surgir.

Terceiro, pela confissão sacramental frequente e bem preparada. Neste sacramento da misericórdia divina, encontramos não apenas o perdão de nossos pecados, mas também a graça para vencer nossas más inclinações e crescer nas virtudes contrárias. A contrição sincera e o propósito firme de emenda são já sinais claros de que queremos estar com Cristo e não contra Ele.

Examinemos, caríssimos fiéis, se em algum aspecto de nossa vida estamos sendo neutros ou mornos, quando deveríamos ser fervorosos e decididos. Perguntemo-nos, à luz deste Evangelho: Estou verdadeiramente com Cristo, ou estou, de algum modo, contra Ele? Estou recolhendo com Ele, ou estou dispersando?

“Quem não está comigo está contra mim; e quem não recolhe comigo, dispersa.” Estas palavras de Cristo, meus caros, devem ecoar em nossos corações neste terceiro domingo da Quaresma. Não é possível a neutralidade no combate espiritual. Ou somos de Cristo, integralmente, ou somos do mundo.

E lembremos sempre: o demônio expulso, se encontra a casa vazia, volta com sete outros espíritos piores do que ele. Não basta, portanto, expulsar o mal de nossa vida; é preciso preencher o vazio com virtudes, com boas obras, com amor a Deus e ao próximo. A graça não suporta o vácuo.

Este ensinamento de Nosso Senhor sobre o demônio que retorna com sete espíritos piores, meus caros, deve inspirar em nós um santo temor. Quantas almas, após uma boa confissão ou um retiro espiritual, experimentaram a alegria da libertação do pecado, mas depois, por negligência na oração, por descuido na fuga das ocasiões próximas, ou por excesso de confiança em suas próprias forças, recaíram em seus antigos vícios! E não apenas recaíram, mas afundaram-se em abismos ainda mais profundos de iniquidade. É uma lei espiritual terrível, mas inescapável: aquele que, tendo conhecido a graça de Deus, a rejeita, torna-se mais endurecido, mais cego, mais obstinado do que antes. Como nos adverte São Pedro em sua segunda epístola: “Melhor lhes fora não ter conhecido o caminho da justiça do que, depois de o conhecerem, voltar atrás, abandonando o santo mandamento que lhes fora dado” (2 Pd 2, 21). Por isso, caríssimos fiéis, não nos contentemos com uma libertação temporária, mas busquemos uma conversão permanente, uma vigilância constante, um crescimento contínuo nas virtudes.

Que Nossa Senhora, perfeito modelo de quem está totalmente com Cristo, nos ajude a fazer sempre a escolha certa, a escolha que nos conduzirá à vida eterna. “Eis a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra” – assim respondeu a Virgem ao anjo, assim devemos responder nós a cada chamado de Cristo.

Caríssimos fiéis, neste tempo de graça e de conversão, renovemos nosso propósito de estar totalmente com Cristo, sem vacilo, sem meios-termos, sem compromissos com o espírito do mundo. É este o caminho da santidade, é este o caminho da salvação.

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[Sermão] Nossa missão: santificar-se pela adesão e transmissão total da Fé Católica, sem concessões https://oantoniano.com/sermao-nossa-missao-santificar-se-pela-adesao-e-transmissao-total-da-fe-catolica-sem-concessoes/ https://oantoniano.com/sermao-nossa-missao-santificar-se-pela-adesao-e-transmissao-total-da-fe-catolica-sem-concessoes/#respond Sun, 16 Mar 2025 17:56:28 +0000 https://oantoniano.com/?p=70 Sermão para o II Domingo da QuaresmaPe. Marcos Vinícius Mattke, IBPCapela Nossa Senhora das DoresBrasília/DF, 16 de março de 2025 A.D. Caríssimos fiéis, Neste Segundo Domingo da Santa Quaresma, nossa Santa Romana Igreja, Mãe e Mestra da Verdade, propõe-nos a contemplação do mistério da Transfiguração de Nosso Senhor Jesus Cristo. Não é sem profunda razão […]

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O sermão pregado não segue o texto abaixo ao pé da letra.

Sermão para o II Domingo da Quaresma
Pe. Marcos Vinícius Mattke, IBP
Capela Nossa Senhora das Dores
Brasília/DF, 16 de março de 2025 A.D.

Caríssimos fiéis,

Neste Segundo Domingo da Santa Quaresma, nossa Santa Romana Igreja, Mãe e Mestra da Verdade, propõe-nos a contemplação do mistério da Transfiguração de Nosso Senhor Jesus Cristo. Não é sem profunda razão que, em meio ao rigor penitencial deste tempo quaresmal, somos convidados a elevar nossos olhos às alturas do Monte Tabor, onde Cristo, por breves momentos, desvelou o esplendor de Sua divindade aos olhos de três de Seus discípulos mais íntimos.

“Este é o meu Filho amado, em quem ponho toda a minha complacência: escutai-O.” Consideremos, caríssimos, que estas palavras do Pai Eterno não são palavras vazias, não são mera recomendação, mas um mandato divino, um imperativo que nos obriga sob pena de ofensa gravíssima à Majestade Divina. “Escutai-O” — eis a ordem que nos é dada pelo próprio Deus Pai.

E o que significa, verdadeiramente, escutar a Cristo? Porventura, meus caros, trata-se de uma escuta parcial, seletiva, conforme as inclinações de cada um? De uma interpretação subjetiva, moldada segundo o espírito dos tempos? Significa  ver na fé somente uma inspiração de estilo de vida? Significa fazer concessões e adaptações para atrair o mundo? De modo algum. Escutar a Cristo significa acolher, com docilidade e integralmente, todos os Seus ensinamentos, sem exceção, sem reservas, sem acomodações. O bem deve ser íntegro, nos diz a sã filosofia tomista, bonum ex integra causa. Significa reconhecer que a Verdade que Ele nos transmitiu não está sujeita às vicissitudes da história, não pode ser “atualizada” ou “adaptada” segundo os caprichos da modernidade. “O céu e a terra passarão, mas as minhas palavras não passarão”, disse-nos o próprio Senhor.

São Beda, o Venerável, nos recorda precisamente: “Assim como estamos atentos à voz que veio do céu, devemos estar igualmente atentos à doutrina deixada para nós nos escritos apostólicos.” Percebam, meus caros conspícuos, a íntima conexão estabelecida por este santo Doutor: a mesma atenção, a mesma reverência, a mesma obediência que prestamos à voz do Pai no Monte Tabor, devemos prestar à doutrina apostólica, que não é senão o desdobramento, a explicitação do ensinamento de Cristo.

Mas, é claro, podem bem os senhores me questionar, mas, padre, onde encontramos hoje esta doutrina apostólica em toda a sua pureza? Como podemos estar certos de escutar a voz autêntica de Cristo em meio a tantas vozes discordantes que se arrogam o direito de falar em Seu nome? A resposta, caríssimos, encontra-se no Magistério infalível da Santa Igreja Católica Apostólica Romana, a única instituída por Cristo como guardiã e intérprete autorizada da Revelação divina.

O Magistério da Igreja não é uma voz humana entre outras, mas a expressão visível, audível, da própria voz de Cristo através dos séculos. Quando o Romano Pontífice, ex cathedra, em união com os Bispos em comunhão com ele, define de forma definitiva uma verdade relativa à fé ou à moral, ensinando a todos os fiéis, não é um homem que fala, mas Cristo que continua a instruir Seu rebanho. “Quem a vós ouve, a Mim ouve”, disse o Senhor aos Seus Apóstolos, e neles, aos seus legítimos sucessores.

São Bernardo de Claraval, em sua luta contra as heresias de seu tempo, afirmou com firmeza: “Não há segurança na fé a não ser aquela que está ancorada na infalibilidade da Igreja.” Quão atual, caríssimos fiéis, é esta advertência! Em um tempo em que muitos, mesmo entre os que se dizem católicos, mesmo dentro da hierarquia, questionam os ensinamentos perenes da Igreja em matéria de fé e moral e se lançam a criação de uma nova fé, a âncora segura da infalibilidade do Magistério é nossa única garantia de não sermos arrastados pelas ondas turbulentas do relativismo e da apostasia.

Este mesmo São Bernardo combateu incansavelmente as novidades doutrinárias de seu tempo, assim como o fizeram todos os santos em todas as épocas. Pois uma das marcas distintivas da verdadeira santidade é precisamente a adesão inquebrantável à doutrina tradicional da Igreja.

São Vicente de Lérins, no seu célebre Commonitorium, estabeleceu o critério infalível para discernirmos a verdadeira doutrina católica: “Na própria Igreja Católica, devemos ter muito cuidado para mantermos aquilo que foi acreditado em todos os lugares, sempre e por todos, quod semper, quod ubique, quod ab omnibus.” Eis aqui, caríssimos, a regra para distinguirmos o trigo do joio, a doutrina verdadeira e isenta de novidades perniciosas: a universalidade, a antiguidade, o consenso. Aquilo que foi ensinado universalmente, desde os primórdios da Igreja, com o consenso dos Santos Padres e Doutores, isso, e somente isso, é a genuína doutrina católica.

É por isso que Santo Agostinho, em sua luta contra os hereges de seu tempo, insistia: “O verdadeiro cristão deve preferir o ensinamento divino a qualquer invenção humana.” Notemos bem, caríssimos fiéis: “invenção humana” — eis o que são, em última análise, todas as novidades doutrinárias, todos os desvios da tradição apostólica, todas as tentativas de “reinterpretar” o depósito da fé à luz do espírito do mundo, formando o anti-magistério do demônio, príncipe do mundo.

Na Epístola que acabamos de escutar, São Paulo dirige-se aos Tessalonicenses com palavras que parecem escritas para nossos tempos: “Esta é a vontade de Deus: a vossa santificação.” E em que consiste esta santificação? O Apóstolo das Gentes é claro: na pureza de vida, na castidade, na abstenção de toda impureza. Mas não só isto: a santificação implica também, e fundamentalmente, a obediência à Tradição apostólica ininterrupta.

Na mesma carta aos Tessalonicenses, um pouco adiante, o Apóstolo exorta: “Permanecei firmes e conservai as tradições que aprendestes, seja por palavra, seja por carta nossa” (II Tes. II, 15). E aos Coríntios escreve: “Eu vos louvo, irmãos, porque em tudo vos lembrais de mim e guardais as tradições como vo-las transmiti” (I Cor. XI, 2).

Eis, meus caros conspícuos, o caminho da santidade: a adesão integral, plena, incondicional à Tradição apostólica, tal como foi transmitida, de geração em geração, pelo Magistério Infalível da Igreja. Não há santidade possível fora desta adesão, pois seria pretender amar a Cristo enquanto se rejeita seu ensinamento, transmitido fielmente por Sua Esposa Imaculada, nossa Santa Madre Igreja. Seria querer estar no Tabor ser ouvir a Cristo como impera Deus Pai.

Mas, para escutar verdadeiramente a voz de Cristo em meio ao clamor ensurdecedor do mundo, é necessária o espírito de penitência e mortificação. Ainda na Epístola aos Tessalonicenses, São Paulo insiste na necessidade de “possuir o próprio vaso” — isto é, o próprio corpo — “em santidade e honra, não segundo as paixões da concupiscência, como os gentios que não conhecem a Deus”. A mortificação quaresmal — o jejum, a abstinência, a renúncia aos prazeres lícitos — não é um fim em si mesma, mas um meio indispensável para aguçar nosso olhar sobrenatural. Sem esta mortificação, nossos sentidos, embotados pelos prazeres mundanos, tornam-se incapazes de ouvir a voz de Cristo que nos fala através de sua Igreja.

É significativo, caríssimos fiéis, que o episódio da Transfiguração tenha ocorrido após o Senhor ter anunciado Sua Paixão e ter dito: “Se alguém quer vir após Mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me.” Não há glória sem cruz, não há Tabor sem Calvário, não há transfiguração espiritual sem mortificação dos sentidos.

No Sermão da Montanha, Nosso Senhor proclamou: “Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus.” E, da mesma forma, podemos dizer: “Bem-aventurados os puros de coração, porque ouvirão a voz de Deus.” Pois existe uma relação íntima entre a pureza do coração e a capacidade de escutar genuinamente a voz de Cristo. O coração impuro, manchado pelo pecado, sobretudo pelos pecados contra a pureza, torna-se progressivamente insensível à voz divina. Donde, meus caros, a importância capital da confissão frequente, da comunhão  digna, da vigilância sobre os sentidos, do combate sem tréguas contra as tentações da carne, da fuga das ocasiões de pecado.

Se quisermos escutar a Cristo, como nos ordena o Pai celestial, devemos primeiro purificar nosso coração de tudo o que é mundano, carnal, impuro. “Criai em mim um coração puro, ó Deus” (Salmo L), deve ser nossa oração constante, especialmente neste tempo quaresmal.

Mas a pureza de coração, sendo condição necessária, não é suficiente para escutarmos autenticamente a voz de Cristo. É preciso também, caríssimos fiéis, uma sólida formação doutrinária, um conhecimento profundo das verdades da fé, tal como foram ensinadas sempre e em toda parte pela Santa Igreja.

Numa época de confusão doutrinal como a nossa, em que abundam os falsos profetas e os falsos mestres, mesmo dentro da Igreja, é mais necessário do que nunca conhecermos a fundo a doutrina católica. “O meu povo perece por falta de conhecimento”, lamenta o Senhor pela boca do profeta Oséias. E quantos católicos hoje, por ignorância das verdades fundamentais da fé, deixam-se seduzir por doutrinas estranhas, incompatíveis com o ensinamento de sempre da Igreja.

É por isso que devemos nos dedicar com afinco ao estudo do Catecismo, das obras dos Santos Padres e Doutores, dos documentos do Magistério infalível, sobretudo que refutam e condenam os erros modernos. Assim estaremos munidos do discernimento necessário para distinguir entre o verdadeiro Magistério e as falsas interpretações que hoje proliferam.

Nesta empresa de fidelidade à Tradição, não estamos sós. Temos diante de nós o exemplo luminoso de inúmeros santos que, em tempos de confusão doutrinal semelhantes ao nosso, mantiveram-se inabaláveis na defesa da ortodoxia católica.

Temos Santo Atanásio, que, quase sozinho contra o mundo, defendeu a divindade de Cristo contra a heresia ariana, a ponto de cunhar-se o adágio: “Atanásio contra o mundo, e o mundo contra Atanásio”. Este grande Santo e Doutor nos deixou a advertência: “Os verdadeiros fiéis preservam o ensinamento dos Padres; os que se desviam deste caminho mostram-se hábeis arquitetos da ruína.” Eis que, com efeito, vemos os “hábeis arquitetos da ruína” em ação, demolindo, pedra por pedra, o edifício da fé católica, sob o pretexto de “adaptá-lo” às exigências do mundo e de seu príncipe.

São Jerônimo, também não temeu enfrentar os hereges de seu tempo: “Ignoro Vigílio, rejeito Pelágio, abomino Nestório: todos os demais, que a Igreja rejeita, eu também rejeito.” Eis aqui, caríssimos fiéis, a atitude do verdadeiro católico diante do erro doutrinal: rejeição total, sem concessões, sem comprometimentos, sem diálogo. Pois não se dialoga com o erro, não se contemporiza com a heresia, não se faz concessões à falsidade.

No Monte Tabor, Nosso Senhor, por breves instantes, revelou a glória de Sua divindade, habitualmente velada sob o manto da humanidade. Da mesma forma, caríssimos fiéis, a fidelidade à doutrina tradicional da Igreja produz em nós uma verdadeira transfiguração espiritual, fazendo resplandecer em nossas almas a imagem de Cristo, obscurecida pelo pecado.

Pelo contrário, a acomodação ao espírito do mundo, a aceitação das doutrinas modernas incompatíveis com a fé católica, causa em nós uma deformação espiritual, uma desfiguração da imagem divina impressa em nossas almas pelo Batismo. O católico que se deixa seduzir pelas novidades doutrinárias torna-se, gradualmente, irreconhecível como filho da Igreja; sua fisionomia espiritual deforma-se até assumir os traços do mundo, da carne, do demônio.

É por isso que São Paulo adverte-nos: “Não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a vontade de Deus, boa, agradável e perfeita” (Rom. XII, 2). Notem bem, caríssimos: a verdadeira transformação, a autêntica transfiguração espiritual, vem não da conformação ao espírito do século, mas da renovação da mente segundo a vontade divina.

Existe uma conexão profunda, inextricável, entre o Rito Romano Tradicional e a transmissão fiel do depósito da fé. A liturgia não é mera expressão externa, mutável, adaptável, da fé, mas sua manifestação mais perfeita, seu veículo privilegiado de transmissão. Por isso mesmo a defesa do Rito Romano Tradicional não é uma questão de mera preferência estética, disciplinar, carismática, nostálgica, mas consequência da própria defesa e profissão da fé católica. Afinal este Rito Sagrado, canonizado com expressão fiel da fé católica, é um baluarte contra as heresias, uma defesa inexpugnável da doutrina católica contra os assaltos do erro. Cada gesto, cada palavra, cada rubrica está impregnada de doutrina católica, expressa a fé da Igreja de modo inequívoco, sem ambiguidades, sem concessões ao espírito do mundo.

No Monte Tabor, Nosso Senhor escolheu apenas três dentre os doze Apóstolos para testemunharem Sua glória: Pedro, Tiago e João. Por quê? Os Santos Padres veem nesta escolha um profundo significado místico. São Pedro, o primeiro Papa, representa o Magistério da Igreja; São Tiago, o primeiro Apóstolo martirizado, representa o testemunho da santidade; São João, o discípulo virginal, representa a pureza da doutrina.

Juntos, estes três Apóstolos prefiguram o próprio testemunho da Igreja ao preservar e transmitir fielmente os ensinamentos de Cristo: o Magistério infalível, a santidade de vida, a pureza doutrinal. Estes três elementos são inseparáveis, formam uma unidade orgânica, e a ausência de qualquer um deles compromete a integridade do testemunho eclesial. Bonum ex integra causa, malum ex quocumque defectu.

Eis que o mundo ataca justamente esses elementos nos membros da Igreja. Não se quer mais ensinar a verdade com clareza e firmeza, mas agradar o mundo; a santidade de vida é substituída por um mero ativismo social; a pureza doutrinal é sacrificada no altar do diálogo com o mundo.

Cabe, assim a nós, seguirmos o exemplo de São Pedro, São Tiago e São João, testemunhando, em meio às trevas desta sociedade apóstata, a glória perene de Cristo e de Sua doutrina imutável. Escutemos a Cristo não segundo nossas preferências ou conveniências, não segundo o espírito do mundo ou as modas do momento, mas segundo o magistério infalível da Santa Igreja. Como os três Apóstolos no Monte Tabor, sejamos testemunhas fiéis da glória de Cristo, manifestada não apenas em sua pessoa divina, mas também em sua doutrina imutável, em sua moral excelsa, em sua liturgia sagrada. E como eles, desçamos do monte ao vale, para anunciar ao mundo, com intrepidez apostólica, a verdade integral da fé católica sem concessões.

Intensifiquemos nossa vida de oração, mortificação e estudo da doutrina católica, para que, purificados pela penitência e iluminados pela graça, possamos verdadeiramente escutar a voz de Cristo que nos fala através de sua Santa Igreja e de sua Tradição. E quando, finalmente, chegarmos à Páscoa da Ressurreição, que possamos contemplar, com os olhos renovados pela fé, aquele que, na Transfiguração, revelou por um instante a glória que é sua desde toda a eternidade e que será nossa por toda a eternidade, se permanecermos fiéis à sua doutrina e aos seus mandamentos.

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[Sermão] Ou Cristo ou o mundo: o grande mal do respeito humano e como combatê-lo https://oantoniano.com/sermao-ou-cristo-ou-o-mundo-o-grande-mal-do-respeito-humano-e-como-combate-lo/ https://oantoniano.com/sermao-ou-cristo-ou-o-mundo-o-grande-mal-do-respeito-humano-e-como-combate-lo/#respond Sun, 09 Mar 2025 18:12:13 +0000 https://oantoniano.com/?p=74 Sermão para o I Domingo da QuaresmaPe. Marcos Vinícius Mattke, IBPCapela Nossa Senhora das DoresBrasília/DF, 09 de março de 2025 A.D. Caríssimos fiéis, Neste primeiro domingo da Santa Quaresma, Nossa Santa Romana Igreja coloca diante de nossos olhos Nosso Senhor Jesus Cristo, que após seu batismo no Jordão, foi conduzido pelo Espírito Santo ao deserto. […]

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Sermão para o I Domingo da Quaresma
Pe. Marcos Vinícius Mattke, IBP
Capela Nossa Senhora das Dores
Brasília/DF, 09 de março de 2025 A.D.

Caríssimos fiéis,

Neste primeiro domingo da Santa Quaresma, Nossa Santa Romana Igreja coloca diante de nossos olhos Nosso Senhor Jesus Cristo, que após seu batismo no Jordão, foi conduzido pelo Espírito Santo ao deserto. “Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto para ser tentado pelo demônio. E depois de jejuar quarenta dias e quarenta noites, teve fome.” Contemplemos, caríssimos fiéis, este mistério profundo que contém ensinamentos essenciais para nossa vida espiritual, especialmente neste tempo penitencial no que tange ao pecado do respeito humano.

Vejamos, meus caros, que Cristo não inicia seu ministério público buscando o aplauso das multidões ou a aprovação dos poderosos. Ele não frequenta os palácios de Herodes nem as casas dos ricos. Ao contrário, recolhe-se na solidão do deserto, onde experimenta a fome, a sede, as intempéries. Por quarenta dias e quarenta noites, Ele jejua, mortifica a carne, dedica-se à oração, ensinando-nos a combater os inimigos da alma, merecendo graças para nossos combates e preparando-se para a batalha espiritual.

Este é o nosso modelo, caríssimos. Para vencer o pecado, para resistir às tentações, para fazer penitência verdadeira, não podemos permanecer no mundo, misturados com o mundo, impregnados pelo espírito do mundo. Devemos, ao menos espiritualmente, retirar-nos para o deserto, onde, no silêncio e na mortificação, podemos ouvir a voz de Deus e fortalecer nossa alma contra os ataques dos nossos inimigos.

Vejamos como o demônio se aproxima de Nosso Senhor. Ele escolhe o momento da fraqueza física, quando Cristo “teve fome”, para lançar seus ataques. E quais são as tentações que propõe? Primeiro, apela para o conforto e a satisfação imediata: “Se és Filho de Deus, ordena que estas pedras se transformem em pães.” Em seguida, tenta-O com a presunção: “Se és Filho de Deus, lança-te daqui abaixo,” confiando temerariamente na proteção divina. Por fim, oferece-Lhe todos os reinos do mundo, toda a glória terrena, em troca de um simples gesto de adoração.

E como reage Nosso Salvador? Porventura entra em diálogo com o tentador? Estabelece um compromisso? Busca um meio-termo aceitável? Absolutamente não! Em cada tentação, responde com a Palavra de Deus, com firmeza e clareza: “Nem só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus”; “Não tentarás o Senhor teu Deus”; e, finalmente, com autoridade suprema: “Retira-te, Satanás! Pois está escrito: Ao Senhor teu Deus adorarás e só a Ele servirás.”

Eis, caríssimos fiéis, a lição fundamental para os nossos tempos: não se dialoga com o erro, não se negocia com o mal, não se busca conciliação com o demônio. Diante da tentação, seja ela qual for, devemos ser categóricos como Cristo: “Retira-te, Satanás!”

Donde, meus caros, a necessidade de meditarmos sobre o gravíssimo pecado do respeito humano, tão comum em nossos dias e tão pernicioso para a vida espiritual, e que leva tantas almas à apostasia e ao inferno.

O que é, caríssimos, o respeito humano? É aquele pecado em que tememos mais os homens do que a Deus; em que estamos mais preocupados com o julgamento das criaturas do que com o julgamento do Criador. É a covardia espiritual que nos faz envergonhar de nossa fé, de nossas práticas religiosas, de nossos princípios morais, por receio de sermos ridicularizados, marginalizados ou perseguidos. É trocarmos a felicidade eterna por um falso conforto momentâneo.

Quantas almas se perdem por este pecado. Quantos cristãos deixam de defender a verdade, de professar publicamente sua fé, de frequentar os sacramentos, por temerem o que os outros pensarão deles. Quantos jovens católicos cedem às pressões dos falsos amigos, entregando-se à imoralidade, às drogas, à impureza, por não quererem ser considerados “esquisitos”, “extremistas”, “fascistas”, quantos não acabam por imitar os maus só para se sentirem aceitos. Quantos homens e mulheres, nas empresas, nas universidades, nos meios de comunicação, calam-se diante das blasfêmias, das heresias, dos ataques à Igreja, por medo de perderem posições ou prestígio.

E mais grave ainda, caríssimos fiéis: quantos pais e mães omitem-se na formação cristã de seus filhos, por não quererem parecer “autoritários” ou “ultrapassados”! Quantos sacerdotes deixam de pregar as verdades integrais da fé, especialmente sobre moral matrimonial, sobre os novíssimos, sobre o inferno eterno, por recearem desagradar aos fiéis ou serem tachados de “rígidos” ou “rigoristas”!

Recordemos as palavras de Nosso Senhor: “Quem se envergonhar de mim e de minhas palavras nesta geração adúltera e pecadora, também o Filho do Homem se envergonhará dele, quando vier na glória de seu Pai com os santos anjos.” E noutra passagem: “Aquele que me negar diante dos homens, também eu o negarei diante de meu Pai que está nos céus.”

Meus caros conspícuos, cada vez que cedemos ao respeito humano, cada vez que, por medo dos homens, negamos Cristo com nossas palavras ou com nosso silêncio, com nossas ações ou omissões, cometemos um pecado semelhante ao de São Pedro no pátio do sumo sacerdote. E como ele, só nos resta chorar amargamente nossa traição e implorar a misericórdia divina.

O mundo moderno, caríssimos, é dominado por um espírito de falsa conciliação. Pretende-se conciliar a luz com as trevas, a verdade com o erro, o bem com o mal. Ouve-se constantemente falar em “diálogo”, “abertura”, “acolhimento”, “inclusão”, “diversidade” como se fosse possível estabelecer um compromisso entre Cristo e Belial, entre a Igreja e o mundo, entre a doutrina católica e as ideologias mundanas.

Já no século XIX, o Beato Pio IX, em seu Syllabus, condenava solenemente esta tendência conciliadora com o erro. A proposição 80 deste documento, que os modernistas tanto desprezam, afirma ser falso que “o Romano Pontífice pode e deve reconciliar-se e transigir com o progresso, com o liberalismo e com a civilização moderna.”

Esta sábia condenação, caríssimos, que parecia tão dura aos ouvidos liberais daquela época, e que parece tão “intolerante” e “radical” aos homens de hoje, mostra-nos uma verdade básica fundamentada no princípio tão básico que é o princípio de não contradição: não é possível uma conciliação entre a verdade e o erro, entre a verdadeira religião e as falsas religiões, entre a moral católica e a imoralidade do mundo.

Contudo, um século depois, assistimos a um desmantelamento do bom senso e da inteligência na sociedade em geral e até mesmo em muitos setores da Igreja. Por todo canto, até pelas autoridades mais altas, ouvimos palavras que marcam  uma nova postura, inconciliável com o exemplo de Cristo e com o ensinamento de sempre do magistério eclesiástico: a Igreja devia adaptar-se ao mundo moderno, tornar-se mais “aceitável” aos olhos dos homens contemporâneos, abandonar suas “condenações” e sua “intransigência” em favor de uma atitude mais “positiva” e “acolhedora”. Deveria haver um blasfemo encontro entre a religião do Deus que se fez homem com a religião, por que o é, do homem que se fez deus.

Desde então, caríssimos fiéis, muitos na Igreja têm procurado adaptar a doutrina católica ao espírito do mundo, suavizando seus ensinamentos, diluindo sua moral, relativizando seus dogmas, buscando uma falsa paz com a sociedade descristianizada. Em nome de um “aggiornamento” que na verdade uma corrupção, temos visto um esforço contínuo para fazer a Igreja parecer mais “moderna”, mais “relevante”, mais “atraente” para o homem contemporâneo.

Qual tem sido o resultado deste espírito de adaptação ao mundo? Porventura esta atitude conciliadora tem convertido as almas a Cristo? Tem fortalecido a fé dos católicos? Tem aumentado as vocações sacerdotais e religiosas? Tem enchido nossas igrejas? Tem promovido uma vida cristã mais intensa e fervorosa?

Não é o que se vê. Os fatos estão diante de nossos olhos: esta adaptação ao mundo tem esvaziado os seminários, tem fechado conventos, tem afastado os fiéis dos sacramentos, tem corrompido a fé de incontáveis almas. Por que esta adaptação ao mundo falha tão miseravelmente em seus pretensos objetivos? Porque, caríssimos fiéis, existe uma incompatibilidade fundamental entre o espírito de Cristo e o espírito do mundo. Como ensina Santo Tomás de Aquino, os contrários não podem coexistir no mesmo sujeito. Não se pode servir a dois senhores. O espírito do mundo é diametralmente oposto ao espírito de Cristo.

“Não ameis o mundo nem o que há no mundo,” adverte-nos São João. “Se alguém ama o mundo, o amor do Pai não está nele. Porque tudo o que há no mundo – a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida – não vem do Pai, mas do mundo. E o mundo passa, e também a sua concupiscência; mas aquele que faz a vontade de Deus permanece eternamente.”

E o próprio Senhor nos previne: “Se o mundo vos odeia, sabei que antes odiou a mim. Se fôsseis do mundo, o mundo amaria o que era seu; mas porque não sois do mundo, antes eu vos escolhi do mundo, por isso o mundo vos odeia.”

Como, então, pretender conciliar a Igreja com o mundo? Como esperar que a verdadeira religião seja aceita e aplaudida por uma sociedade que rejeita a própria existência de verdades absolutas? Como imaginar que a moral católica, baseada na lei natural e na Revelação divina, possa ser acolhida por um mundo que exalta o hedonismo, o materialismo, o relativismo?

Eis, portanto, caríssimos fiéis, por que devemos combater tão firmemente o respeito humano! Não nos importemos com os aplausos ou censuras dos homens! Temamos somente a Deus! É o que nos diz o Senhor: ”Não temais os que matam o corpo, mas não podem matar a alma; temei antes aquele que pode destruir a alma e o corpo na geena.” E noutra passagem: “Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se vier a perder a sua alma?”

Sigamos o exemplo de Cristo no deserto: recusai toda tentação de compromisso com o mundo, toda proposta de conciliação com o erro, toda sugestão de adaptar a fé ao espírito do tempo. Respondei ao tentador com as palavras da Escritura, com a doutrina imutável de Nossa Santa Madre Igreja, com a firmeza dos mártires e confessores da fé.

Nas famílias sejamos intransigentes na educação cristã das crianças, sem ceder à mentalidade permissiva do mundo. Ensinando as verdades da fé, o amor à virtude, o horror ao pecado. Vigiando suas leituras, seus entretenimentos, suas amizades. Introduzindo-lhes na prática da oração, do sacrifício, da mortificação adequada à sua idade.

Nos ambientes de trabalho, de estudo, de lazer, não tenhamos vergonha de professar abertamente nossa fé católica. Afastando-se das conversações impuras, de calúnias, das diversas iniquidades. Não temamos ser considerados “diferentes”, “estranhos”, “antiquados”. Melhor ser ridicularizado pelos homens do que condenado por Deus.

Em nosso apostolado, em nossas obras de misericórdia, no nosso estudo da fé, não nos deixemos seduzir pelas falsas soluções políticas, culturais, aparicionistas, pelos métodos mundanos, pelas conversas de influencers, coachs, cursos. Jamais tenhamos como parâmetro o sucesso imediato, os números impressionantes, a aprovação das massas. Busquemos a glória de Deus e a salvação das almas, custe o que custar.

Na política, na economia, na cultura, em todos os âmbitos da sociedade, Deus debe estar em primeiro lugar. Em primeiro lugar devem estar os princípios do reinado social de Cristo, sem concessões ao liberalismo, ao socialismo, ao relativismo moral. Sem temer os rótulos de rígidos, radicais, fanáticos. Estas acusações foram dirigidas ao próprio Cristo e aos apóstolos.

Enfim, caríssimos fiéis, sejamos católicos verdadeiros, católicos íntegros, católicos sem adjetivos que diminuam ou deformem nossa identidade. Não nos envergonhemos de professar a fé em sua inteireza, de praticar a moral católica em toda sua exigência, de defender os direitos de Deus e de Sua Santa Romana Igreja sem temor ou hesitação.

Lembremo-nos sempre desta verdade fundamental: “O homem é maior quando está de joelhos diante de Deus.” Quem teme a Deus não precisa temer criatura alguma. Quem busca agradar somente a Deus não precisa preocupar-se com a aprovação dos homens.

Neste tempo de Quaresma, façamos um exame sério de consciência sobre quanto está presente o respeito humano em nossa vida. Quantas vezes não defendemos a verdade por medo? Quantas vezes nos calamos diante do erro, do pecado, da blasfêmia? Quantas vezes participamos de conversações, entretenimentos, atividades moralmente questionáveis, apenas para “não sermos diferentes”?

Façamos penitência e tomemos a firme resolução de nunca mais trair a Cristo por respeito humano, de nunca mais buscar a conciliação impossível entre a Igreja e o mundo, entre Deus e o demônio.

Que a Santíssima Virgem Maria, que permaneceu firme ao pé da Cruz quando todos fugiram, nos obtenha a graça de nunca nos envergonharmos de seu Divino Filho e de Sua Igreja. Que São José, Patrono da Igreja Universal, nos conceda a coragem de defender a fé, mesmo contra os poderosos deste mundo. Que todos os Santos e Mártires, que preferiram a morte a negar a Cristo, intercedam por nós, para que sejamos fiéis até o fim.

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[Sermão] Do pó à glória: como viver bem a quaresma hoje https://oantoniano.com/sermao-do-po-a-gloria-como-viver-bem-a-quaresma-hoje/ https://oantoniano.com/sermao-do-po-a-gloria-como-viver-bem-a-quaresma-hoje/#respond Wed, 05 Mar 2025 15:31:37 +0000 https://oantoniano.com/?p=78 Sermão para o Quarta-feira de CinzasPe. Marcos Vinícius Mattke, IBPCapela Nossa Senhora das DoresBrasília/DF, 05 de março de 2025 A.D. “Memento, homo, quia pulvis es, et in pulverem reverteris.”(Lembra-te, homem, que és pó e ao pó voltarás.) Caríssimos fiéis, Nossa Santa Romana Igreja dá início hoje com a imposição das santas cinzas ao tempo sagrado […]

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Sermão para o Quarta-feira de Cinzas
Pe. Marcos Vinícius Mattke, IBP
Capela Nossa Senhora das Dores
Brasília/DF, 05 de março de 2025 A.D.

“Memento, homo, quia pulvis es, et in pulverem reverteris.”
(Lembra-te, homem, que és pó e ao pó voltarás.)

Caríssimos fiéis,

Nossa Santa Romana Igreja dá início hoje com a imposição das santas cinzas ao tempo sagrado da Quaresma. Este rito antiquíssimo, que remonta aos primeiros séculos da Igreja, não é mera cerimônia exterior, mas um símbolo pungente da nossa condição mortal. Como nos ensina Santo Agostinho: “Das cinzas viemos e às cinzas retornaremos; entre um momento e outro, somos pó que caminha sobre a terra, pó animado pelo sopro divino, mas destinado a retornar à terra da qual foi tomado.” Esta verdade, longe de nos esmagar com sua dureza, deve iluminar nossa consciência sobre a brevidade da vida e a seriedade com que devemos considerar nossa salvação eterna.

Hoje, caríssimos fiéis, recebemos nas nossas frontes o sinal da nossa condição mortal, não para que nos desesperemos, mas para que despertemos. São Gregório Magno nos adverte: “A consciência da morte deve ser, para o cristão, não motivo de temor, mas acicate para a virtude. Quantos vivem como se jamais houvessem de morrer, acumulando tesouros terrestres, saciando-se nos prazeres carnais, como se a eternidade não os aguardasse! Que néscios são aqueles que, tendo sido criados para a eternidade, vivem apenas para o efêmero!”

Nossa Santa Madre Igreja, caríssimos fiéis, em sua sabedoria maternal, nos oferece estes quarenta dias de penitência como um remédio para nossas almas enfermas. Por isso mesmo São Leão Magno nos exorta: “O que em todo tempo convém ao cristão praticar, agora deve ser realizado com maior solicitude e devoção, a fim de que, pelos quarenta dias de jejum, se cumpra a regra apostólica. Não se trata de uma mera abstinência de alimentos, mas de um afastamento de todos os vícios, de todos os desejos carnais que fazem guerra à alma.”

Consideremos, meus caros conspícuos, com olhar verdadeiramente sobrenatural, o estado moral de nossa sociedade contemporânea. Os dias de carnaval que acabamos de presenciar não são, como muitos querem fazer crer, uma simples manifestação cultural ou um período de alegria e descontração inocentes. Não! São, antes, uma demonstração pública e escandalosa de tudo aquilo que a Santa Igreja, desde os seus primórdios, condena como contrário à lei natural e divina. São Bernardo de Claraval, em seu tratado sobre a conversão, lamenta profundamente ver já em seu tempo não apenas faltas isoladas, mas uma sistemática e organizada rejeição da lei divina, quando o pecado já não se esconde envergonhado, mas se glorifica com insolência.

Nas ruas, nas praças, nos meios de comunicação, testemunhamos não apenas a abominação moral – a impudicícia, a luxúria desenfreada, a sensualidade que corrompe até mesmo as crianças – mas um espírito declaradamente anticristão e, ouso dizer sem temor de exagero, genuinamente demoníaco. Quem pode negar, caríssimos fiéis, que muitas das manifestações carnavalescas constituem verdadeiras paródias blasfemas dos ritos sagrados, zombarias explícitas da fé cristã, glorificações de símbolos satânicos? Não é isto que vemos em tantos “blocos” e “escolas” que desfilam abertamente, com financiamento das próprias autoridades que não perdem a chance de flagelar, insultar e crucificar Cristo novamente. E o que nos exaspera é quantos católicos hoje compactuam com essas abominações, seja participando abertamente desses cultos demoníacos, seja tentando maquiar o demônio, tentando fazer um carnaval inocente, uma festa dita cristã, mas fazendo o serviço do inimigo da cruz ao acostumar as pessoas e crianças à própria noção de intemperança e ao tempo de loucuras.

São João Crisóstomo justamente nos alertar com veemência: “Não é tanto o pecado que ofende a Deus, mas a obstinação em permanecer nele. Não é a queda que mais entristece o coração divino, mas a recusa em levantar-se.” E é precisamente esta obstinação que caracteriza nossos tempos – uma cultura que não apenas cai em pecado, mas que recusa orgulhosamente reconhecer o próprio conceito de pecado, chegando ao cúmulo de celebrá-lo como demoníaca expressão de suposta liberdade e autodeterminação, máscara da revolta luciferina contra o bem, a verdade e Deus.

Diante da apostasia das nações que hoje legislam contra a lei natural e divina , com profunda dor o digo, até mesmo do abandono da fé por membros da hierarquia eclesiástica que deveriam ser as sentinelas vigilantes da ortodoxia, somos chamados, caríssimos fiéis, a uma penitência mais fervorosa, a uma conversão mais firme, a um testemunho mais corajoso.

São Gregório Magno ensina: “A verdadeira penitência consiste não apenas em chorar os pecados passados, mas em evitar com resolução cometer novamente aquilo que se chorou. De que serve confessar as faltas, se logo voltamos a elas como o cão que retorna ao próprio vômito? A penitência sincera exige propósito firme de emenda e obras que corroborem este propósito.” Quão atual é este ensinamento, caríssimos fiéis, num tempo quase ninguém se confessa e em que tantos, por falta de disposição ao sacrifício, acabam por reduzir o sacramento a uma mera formalidade psicológica, esvaziada de seu caráter sobrenatural e da necessária contrição e disposição a evitar as ocasiões de pecado.

Mas a penitência a que somos chamados neste tempo quaresmal não é um fim em si mesma. Não jejuamos para exibir nossa força de vontade; não nos mortificamos para conquistar aplausos humanos. A penitência cristã deve nascer do amor ardente a Deus e deve conduzir a um amor ainda mais ardente. E aqui encontramos uma verdade fundamental, frequentemente esquecida mesmo por almas piedosas: a penitência pressupõe o amor, e o amor pressupõe o conhecimento daquele que se ama.

Por isso, exorto-vos veementemente, meus caros, a conhecer mais profundamente nossa fé católica nesta Quaresma. Dediquem-se ao estudo assíduo da doutrina sagrada, do catecismo, dos escritos dos Santos Padres e Doutores. Santo Agostinho, em seu tratado sobre a Trindade, nos ensina com clareza: “Non potest diligi quod prorsus ignoratur” – “Não se pode amar o que se desconhece completamente”. Como amaremos verdadeiramente a Cristo se não conhecemos Sua doutrina, Seus mandamentos, Seus sacramentos, Sua Santa Igreja?

Quantos católicos hoje são incapazes de defender sua fé diante das objeções mais elementares dos incrédulos e hereges! Quantos, quando interrogados sobre as verdades mais básicas do Credo que professam, balbuciam respostas vagas ou, pior ainda, reproduzem erroneamente doutrinas estranhas à tradição católica! Quantos até percebem que algo está errado naquilo que é ensinado, até mesmo por membros da hierarquia, mas nada fazem? Nenhuma atitude tomam, mas somente reclamam e murmuram? Este desconhecimento da fé é uma das causas principais da apostasia que testemunhamos. Como resistirá aos ataques do mundo uma fé que não tem raízes profundas no conhecimento sobrenatural?

Esta quaresma seja, portanto, caríssimos, para cada um de nós, um tempo não apenas de mortificação corporal – necessária, sem dúvida – mas também e sobretudo de alimentação espiritual. Que cada dia esteja marcado pela meditação, pela leitura espiritual, pelo estudo do Catecismo, pela renovação do propósito de perseverar no catecismo de adultos como lhes exortou o padre Pasquotto. Pois o jejum corporal, como diz São Leão Magno ”sem o alimento da alma, de pouco aproveita. Quando o corpo se abstém, que a alma se sacie da Palavra divina; quando os sentidos se mortificam, que o espírito se eleve à contemplação das verdades eternas.”

Por fim, não esqueçam jamais, meus caros, que a verdadeira penitência é sempre acompanhada de alegria – não a alegria frívola e superficial do mundo, que mais parece uma máscara para esconder o desespero interior, mas a profunda e serena alegria de estar junto de Nosso Senhor. São Bernardo nos recorda: “A penitência sem amor é como uma lâmpada sem óleo – logo se apaga. É o amor que dá sentido ao sacrifício, é o amor que torna suave o jugo e leve o fardo.”

Se tivermos dificuldade em fazer penitência por nosso próprio bem – pois nossa natureza decaída resiste ao sacrifício – lembremo-mos desta verdade consoladora: na penitência, estamos unidos intimamente a Cristo sofredor. Quando jejuamos, estamos com Cristo nos quarenta dias do deserto, participando de sua vitória sobre as tentações. Quando mortificamos nossos sentidos, participamos de sua flagelação, oferecendo nosso pequeno sacrifício em união com seu sacrifício infinito. Quando nos privamos dos prazeres mesmo lícitos, compartilhamos em espírito da sua coroação de espinhos. E quando suportamos com paciência as contrariedades da vida, os sofrimentos físicos ou morais, as incompreensões e perseguições, carregamos com ele a cruz até o Calvário sob o escárnio de seus inimigos.

Esta perspectiva sobrenatural, caríssimos fiéis, transforma radicalmente o sentido da penitência quaresmal. Já não é um mero exercício de vontade, mas uma participação na paixão redentora. Já não é uma privação estéril, mas um ato de caridade. Como ensina São Leão Magno: “A penitência cristã é um movimento da alma em direção a Deus. Quanto mais nos afastamos das criaturas por amor a Ele, tanto mais nos aproximamos d’Ele”.

Diante de um mundo hedonista que idolatra o conforto, o prazer sensual, a satisfação imediata, sejamos, caríssimos fiéis, testemunhas do valor redentor do sacrifício. Diante de uma sociedade que ridiculariza a penitência, mostremos com nossa vida que a renúncia cristã não é negação da vida, mas ter a verdadeira vida em Cristo. Diante de um mundo que vive como se Deus não existisse, proclamemos com nossa penitência quaresmal que “só Deus basta”, como diz Santa Teresa d’Ávila.

Assim, que tenhamos recebido hoje as cinzas com humildade e fé. Que estas cinzas não sejam apenas um símbolo externo mas o sinal visível de um coração contrito e humilhado que, como diz o salmista, “Deus não desprezará”. No silêncio da penitência, encontrareis a voz de Deus que fala ao coração; na austeridade do jejum, descobrireis a doçura inefável do amor divino; e na renúncia aos prazeres mundanos, experimentareis a verdadeira liberdade dos filhos de Deus.

“Convertei-vos a mim de todo o vosso coração, com jejuns, lágrimas e gemidos”, clama o Senhor pelo profeta Joel. “Rasgai os vossos corações, e não as vossas vestes, e convertei-vos ao Senhor vosso Deus, porque ele é benigno e misericordioso, paciente e rico em misericórdia.” Atendamos a este chamado, meus caros, não com tristeza ou por mera obrigação exterior, mas com aquela santa alegria de quem sabe que, através do deserto quaresmal, caminha para a doçura da terra prometida que jorra leite e mel.

Que esta Quaresma seja para todos nós um verdadeiro “tempus acceptabile”, um “tempo favorável”, como diz São Paulo – tempo de purificação, de renovação, de conversão autêntica. Que cada um de nós possa repetir com o salmista, ao término destes quarenta dias: “Criastes em mim, ó Deus, um coração puro, e renovastes em meu peito um espírito reto.”

Que a Santíssima Virgem Maria, modelo perfeito de fidelidade, aquela que permaneceu de pé junto à Cruz, nos acompanhe maternalmente nesta jornada de conversão, e que todos possamos chegar à Páscoa renovados na fé, fortalecidos na esperança e ardentes na caridade.

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[Sermão] A lei do esforço e o fruto da caridade: o combate que santifica https://oantoniano.com/sermao-a-lei-do-esforco-e-o-fruto-da-caridade-o-combate-que-santifica/ https://oantoniano.com/sermao-a-lei-do-esforco-e-o-fruto-da-caridade-o-combate-que-santifica/#respond Sun, 23 Feb 2025 15:41:15 +0000 https://oantoniano.com/?p=81 Sermão para o Domingo da SexagésimaPe. Marcos Vinícius Mattke, IBPCapela Nossa Senhora das DoresBrasília/DF, 23 de fevereiro de 2025 A.D. Caríssimos fiéis, Eis que nossa Santa Madre Igreja coloca diante de nossos olhos na liturgia de hoje uma longa epístola de São Paulo na qual ele relata todos os seus esforços em pregar o evangelho […]

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Sermão para o Domingo da Sexagésima
Pe. Marcos Vinícius Mattke, IBP
Capela Nossa Senhora das Dores
Brasília/DF, 23 de fevereiro de 2025 A.D.

Caríssimos fiéis,

Eis que nossa Santa Madre Igreja coloca diante de nossos olhos na liturgia de hoje uma longa epístola de São Paulo na qual ele relata todos os seus esforços em pregar o evangelho para a maior glória de Deus e o bem das almas. A própria coleta da missa faz referência ao Apóstolo das Nações, para que ele nos dê a força para enfrentar todos os males. Por isso mesmo, reflitamos sobre um tema fundamental para nossa vida cristã: o esforço e a caridade. Em nosso mundo moderno, que busca cada vez mais conforto e facilidade, é crucial compreendermos o lugar e o valor do esforço em nossa jornada espiritual.

Observemos primeiramente, caríssimos, a criação ao nosso redor. Todo o universo nos ensina esta grande lei do esforço através de toda sua ordem harmônica. Consideremos a natureza: a força gravitacional que mantém as galáxias e o sistema solar coesos e em movimento; o poder instintivo do leão que salta sobre sua presa e da gazela que escapa com um salto leve e rápido; a força da onda que se quebra nos corais e a força das rochas que lhe resistem; a força nuclear forte que mantém os prótons e neutrons unidos no núcleo atômico de coesão do átomo e a força nuclear fraca que faz com que ocorra o decaimento dos núcleos atômicos. Tudo na criação nos mostra que a vida é esforço e que o esforço é vida.

A própria vida humana nos apresenta o mesmo quadro desde seus primeiros instantes. O recém-nascido deve fazer um esforço para respirar, para se proteger contra seu ambiente, e logo para se alimentar. É apenas gastando muita energia que, pelo uso razão, ele se libertará dos imperativos de sua sensibilidade e poderá dominá-la.

Esta lei universal aplica-se ainda mais intensamente à nossa vida espiritual. Nosso Senhor mesmo nos ensina em todas as páginas de seu santo Evangelho que a vida nova que Ele veio instaurar não é de modo algum repousante, ele próprio afirma que não veio trazer a paz do mundo mas a espada da verdade. O céu que devemos alcançar se conquista com grande luta, o céu pertence aos violentos.

Consideremos São Paulo, doutor das gentes. Em sua epístola que nossa Santa Romana igreja nos faz ouvir hoje, ele nos descreve os esforços extraordinários que teve que fazer pelo evangelho: “Cinco vezes recebi dos judeus quarenta açoites menos um; três vezes fui açoitado com varas; uma vez fui apedrejado; três vezes sofri naufrágio… Em viagens frequentes, em perigos de rios, em perigos de salteadores… em trabalhos e fadigas, em vigílias muitas vezes, em fome e sede, em jejuns muitas vezes, em frio e nudez.”

Mas por que o esforço é tão necessário? É porque nossa natureza humana, ferida pelo pecado original, carrega em si resistências ao bem e à verdade. Estas resistências são de duas ordens: internas e externas.

As causas internas estão inscritas em nossa própria carne: a concupiscência, a cobiça dos bens materiais, a tendência ao egoísmo. São Paulo o diz bem: “A carne tem desejos contrários aos do espírito, e o espírito tem desejos contrários aos da carne; são opostos entre si, de modo que não fazeis o que quereis.” É apenas ao preço de um esforço, realizado pela graça de Deus, que o homem pode restabelecer em si a ordem, a hierarquia de suas faculdades.

As causas externas vêm do mundo que nos cerca. O mundo, em seu estado atual, não é como Deus o desejaria. Tornou-se, infelizmente, uma máquina de guerra contra o espírito cristão. Para compreender porque o mundo é anormal, precisamos nos reportar ao paraíso terrestre. Deus havia colocado Adão e Eva num universo bem ordenado e benéfico. Adão foi estabelecido chefe da criação, deu nome a cada criatura, devia, por seu trabalho e autoridade, fazer o mundo servir à glória de Deus.

Mas o que aconteceu? Deslumbrados por sua própria excelência, Adão e Eva desobedeceram a Deus desejando fazerem-se semelhantes a Ele. E conhecemos a sequência. Adão tendo rompido por si mesmo o vínculo de caridade que o unia a Deus, perdeu a graça sobrenatural e os dons preternaturais. Sua própria natureza foi ferida. Nele, foram desde então: a fraqueza da vontade, a ignorância, a tirania das paixões, a inclinação ao mal e aos prazeres desordenados. No exterior: a hostilidade dos animais, a rudeza da terra, o rigor das estações e das intempéries.

Mas eis que o esforço não se opõe ao amor. Ao contrário, é sua expressão mais pura. Seria um erro crer que apenas os perfeitos em estado de paz vitoriosa dão amor a Deus. Não, nossa condição pecadora, nossos combates interiores, nossas tentações, mesmo nossas quedas, são um terreno favorável para manifestar nosso amor a Deus. Os esforços que eles nos impõem são outros tantos atos de caridade.

Quando nos esforçamos por Deus, meus caros conspícuos, provamos nosso amor de três maneiras:

Primeiro, o esforço é a prova de nossa fidelidade. Ninguém é perfeitamente vitorioso do mal nesta terra. A morte sozinha nos torna imutáveis no bem ou, infelizmente, no mal. Já que podemos sempre cair, nosso amor a Deus só será fiel se o provamos por nossos esforços.

Segundo, o esforço é nossa caminhada em direção a Deus. O amor não se contenta com um simples desejo do bem do outro. Ele põe tudo em obra para realizá-lo. Passa à ação. Como a semente que conhece três estados – primeiro adormecida, depois desperta sob a ação do calor e da umidade, e enfim, utiliza toda sua energia para fazer pressão sobre seu invólucro, para sair, crescer em haste, florescer e dar fruto – assim nossa vontade animada pela caridade fará todos os esforços para caminhar em direção a Deus e trabalhar para sua glória.

Terceiro, o esforço é uma imolação, um sacrifício de amor. Como vimos, o esforço é o combate que busca superar as resistências interiores que nos tornam o bem difícil. É, portanto, necessariamente a imolação de algum atrativo. É uma ruptura. Ora, esta renúncia generosa é bem uma marca de amor. É um sacrifício de agradável odor que sobe até Deus.

Mas, coragem, meus caros, não desanimemos! Pois quanto mais o amor é ardente em nós, mais as virtudes estão ancoradas em nossa alma, e mais o esforço tende a desaparecer. Se encontramos em nós reticências ao bem, é certamente a ocasião de manifestar a Deus nosso amor fazendo o esforço que superará esta dificuldade. Mas não seria também o sinal de que nossa vontade não está ainda suficientemente firme no bem, que nossa caridade está tíbia? Lembremo-nos também, caríssimos, que não estamos sozinhos neste combate. Como Deus disse a São Paulo: “Basta-te a minha graça, porque é na fraqueza que se revela perfeitamente a minha força.” Este esforço não tem nada de uma tensão estóica ou pelagiana que pretenderia atingir um estado sobre-humano por suas próprias forças. Sabemos que, cada vez que Nosso Senhor nos pede um esforço, Ele nos dá a graça para realizá-lo.

Por isso mesmo, recordemos a oração que faz Santa Igreja na coleta de hoje, onde pedimos a Deus que sejamos fortalecidos contra todos os males pela proteção de São Paulo Apóstolo das gentes. Sim, como ele, somos chamados ao esforço, mas um esforço que não é estéril, um esforço que produz o fruto delicioso da caridade.

Pois como nos ensina a bela história de Sansão: quando ele ia a Tamna para se casar, foi atacado por um leão rugindo. Sansão “despedaçou o leão como se despedaça um cabrito”. Passando pelo mesmo lugar alguns dias depois, viu no corpo do leão um enxame de abelhas de onde escorria mel. Durante um festim que se seguiu, Sansão propôs este enigma a seus convidados: “Do que come saiu o que se come, do forte saiu o doce.” Assim é na vida espiritual. O esforço, os esforços, como abelhas, destilam na alma o mel da paz e da suavidade divina. Que o Senhor nos dê a força de perseverar neste esforço de amor, até que alcancemos a plenitude da caridade em seu Reino.

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[Sermão] A escravidão da avareza e meios práticos de vencê-la https://oantoniano.com/sermao-a-escravidao-da-avareza-e-meios-praticos-de-vence-la/ https://oantoniano.com/sermao-a-escravidao-da-avareza-e-meios-praticos-de-vence-la/#respond Sun, 16 Feb 2025 15:44:07 +0000 https://oantoniano.com/?p=84 Sermão para o Domingo da SeptuagésimaPe. Marcos Vinícius Mattke, IBPCapela Nossa Senhora das DoresBrasília/DF, 16 de fevereiro de 2025 A.D. Caríssimos fiéis, Eis que nos deparamos novamente com o roxo da penitência. Já temos em vista com o cessar do aleluia a austeridade quaresmal. Nossa Santa Madre Igreja não quer que cheguemos abruptamente e de […]

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O sermão pregado não segue o texto abaixo ao pé da letra.

Sermão para o Domingo da Septuagésima
Pe. Marcos Vinícius Mattke, IBP
Capela Nossa Senhora das Dores
Brasília/DF, 16 de fevereiro de 2025 A.D.

Caríssimos fiéis,

Eis que nos deparamos novamente com o roxo da penitência. Já temos em vista com o cessar do aleluia a austeridade quaresmal. Nossa Santa Madre Igreja não quer que cheguemos abruptamente e de improviso ao tempo de penitência, por isso nesses domingos da septuagésima, sexagésima e quinqüagésima que precedem a Quarta-feira de cinzas a liturgia nos coloca diante do fato inquestionável que somos pecadores, que estamos afastados de Deus pelo pecado e que precisamos fazer algo. Ou seja, ela quer que consideremos e nos preparemos para a penitência.

Como São Paulo nos diz na epístola, chamando-nos ao sacrifício como fazem os atletas para alcançar os louros do mundo, e como nosso senhor nos diz na parábola dos trabalhadores da vinha apresentada no evangelho, devemos combater e fazer penitência para receber a recompensa da vida eterna. Devemos, lutar, não dando socos no ar, como afirma o Apóstolo das gentes, mas castigando e domando nossa carne. Precisamos, pois, meus caros conspícuos, saber o que combatemos, conhecer nosso inimigo, para pelejarmos com a devida disciplina e a devida força.

Hoje venho falar-lhes, meus caros, sobre um dos vícios mais insidiosos e perigosos que podem afetar a alma humana nos tempos atuais de consumismo desenfreado e austeridades possíveis: a avareza. Como nos ensina a sabedoria da Igreja, a avareza não é apenas o amor ao dinheiro – é um amor desordenado e imoderado por posses de qualquer natureza, que pode corromper até mesmo nossa vida espiritual.

Comecemos entendendo a natureza profunda deste vício. São Tomás de Aquino, seguindo Aristóteles, define a avareza como “um amor imoderado de possessões”. Observe atentamente: não é o simples ato de possuir que constitui o pecado, mas sim o amor desordenado ao ter. É quando transformamos o que deveria ser um bom servidor – os bens materiais – em um senhor tirânico que escraviza nossa alma.

A gravidade deste vício se manifesta em um terrível paradoxo espiritual: aquele que pensa possuir acaba sendo possuído. Como nos adverte São Paulo em sua primeira carta a Timóteo: “A raiz de todos os males é o amor ao dinheiro”. O avarento experimenta uma pobreza interior profunda, mesmo quando materialmente rico. São Basílio de Cesaréia expressa isto perfeitamente quando diz: “Tu és pobre, não possuis nenhum bem: és pobre de amor, pobre de bondade, pobre de fé em Deus, pobre de esperança eterna”.

Segundo São Tomás de Aquino, a cupidez em seu sentido geral compreende o desejo de qualquer bem. Porém, em seu sentido mais particular, ela é um desejo imoderado das riquezas (ou avareza), que se torna a raiz de todos os pecados. De fato, ela permite ao homem adquirir a capacidade de cometer qualquer pecado e de ter o desejo de pecar, uma vez que o dinheiro pode ajudar a obter todas as formas de bens. São Tomás sublinha sua gravidade e importância quando afirma que ela é, para o mal, primeira na ordem dos meios, assim como o orgulho é primeiro na ordem dos fins.

A avareza opera em nossa alma como uma força de atração devastadora – quanto mais absorve, mais insaciável se torna. O avarento nunca encontra satisfação, sempre deseja mais. É uma doença espiritual que nos faz perder a verdadeira dimensão da vida humana, que é, fundada na caridade, a dimensão da doação e da gratuidade. Esta enfermidade espiritual se manifesta de várias formas: pode ser a avareza material tradicional, mas também pode ser avareza de tempo, de talentos, ou mesmo de bens espirituais.

O que torna este vício particularmente perigoso é sua capacidade de se disfarçar de virtude. Podemos justificá-lo como “prudência”, “previdência” ou “boa administração”. Mas quando examinamos honestamente nosso coração, percebemos que frequentemente estas justificativas mascaram um apego desordenado aos bens materiais, uma busca incessante de seguranças humanas e uma profunda falta de confiança na Providência divina.

A avareza é um pecado capital porque gera muitos outros pecados. São Tomás de Aquino, seguindo o papa São Gregório, enumera seus frutos amargos: traição, fraude, falsidade, perjúrio, inquietação, violência e endurecimento do coração. O coração do avarento se torna gradualmente insensível às necessidades do próximo, mudo para o bem, cego para o sobrenatural e surdo aos apelos do Espírito Santo.

Mas quais são os remédios para este mal tão profundo e persistente?

O primeiro e mais fundamental remédio é compreender nossa verdadeira natureza como criaturas. Tudo o que temos é dom – “Que tens tu que não tenhas recebido?”, pergunta São Paulo. Nossa verdadeira riqueza não está no que acumulamos, mas em nossa relação filial com Deus. Somos administradores, não proprietários absolutos dos bens que possuímos.

O segundo remédio é a prática da liberalidade – a generosidade bem ordenada. Não se trata de um desapego irresponsável, mas de usar os bens segundo sua verdadeira finalidade: para nossa necessidade razoável e para o bem do próximo. Como nos ensina o Evangelho: “Gratuitamente recebestes, gratuitamente dai”.  A septuagésima nos leva a considerar e a quaresma nos impelirá em breve a este exercício indispensável para todo católico que é a prática da esmola.

O terceiro remédio é cultivar uma profunda confiança na Providência divina. O acúmulo obsessivo de bens frequentemente revela uma profunda ansiedade sobre o futuro e uma falta de confiança em Deus. Como nos ensina o Evangelho: “Buscai primeiro o Reino de Deus e sua justiça, e todo o mais ser-vos-á dado em acréscimo“. Esta confiança não é ingenuidade ou irresponsabilidade, mas a certeza fundamentada na fé de que Deus provê para seus filhos.

O quarto remédio é desenvolver um amor pelos bens verdadeiramente importantes – os bens espirituais que, ao contrário dos materiais, crescem quando são compartilhados. A fé, a esperança e a caridade são riquezas que aumentam quando as partilhamos. Como diz belamente Santa Teresa d’Ávila: “Quem a Deus tem, nada lhe falta. Só Deus basta”.

Finalmente, precisamos cultivar uma visão sobrenatural da vida; possuir uma fé viva e não meramente um acúmulo soberbo de conhecimentos. Devemos ver tudo do ponto de vista de Deus, a partir da eternidade. Viemos a este mundo sem nada e partiremos sem nada. O que verdadeiramente importa é o que fazemos com o que nos foi confiado no intervalo entre estes dois momentos. Cada bem material deve ser visto como uma oportunidade de exercer a caridade e crescer em santidade.

A libertação da avareza não é apenas uma questão de desprendimento exterior, mas uma profunda transformação interior. É um caminho de conversão que nos leva a redescobrir nossa verdadeira dignidade como filhos de Deus, chamados não a acumular tesouros na terra, mas a construir um tesouro no céu através do amor a Deus e ao próximo.

Todos esses princípios podem ser aplicados de forma simples e eficaz no nosso dia, se nos mantivermos fiéis a oração, sobretudo a meditação, e ao exame de consciência.

Donde, primeiro, façamos um exame regular de consciência sobre nossa relação com os bens materiais. Perguntemo-nos: Quanto tempo gasto pensando em dinheiro e posses? Essas preocupações vem mais à minha mente que pedido de ajuda a Deus? Minhas preocupações financeiras estão me impedindo de confiar na Providência Divina? Tenho dificuldade em doar ou compartilhar o que possuo? Estas perguntas simples podem revelar áreas onde a avareza pode estar se instalando em nosso coração.

Segundo, estabeleçamos práticas concretas de desprendimento. Por exemplo, sempre antes de fazer alguma compra fora do ordinário, aguardemos pelo um dia para refletir se realmente necessitamos daquele item. Desenvolvamos o hábito de doar regularmente, mesmo pequenas coisas e não apenas o que sobra, sabendo fazer pequenos sacrifícios para o bem do próximo. Isso exercita nossa capacidade de desprendimento, ou seja, nos faz crescer na liberdade cristã.

Terceiro, a ação de graças. Agradeçamos sinceramente a Deus por tudo aquilo que recebemos e temos. Pelos bens naturais e sobretudo pela vida da graça, que nos foi dada pelo sangue derramado de nosso Salvador. A gratidão é um antídoto poderoso contra a avareza, pois nos ajuda a perceber a riqueza infinita que nos é dada por Deus em todos as coisas.

Quarto, pratiquemos regularmente a esmola, e isso com um olhar cristão de diminuir o sofrimento do próximo por amor de Deus, não para resolver problemas sociais. Fugindo da perversidade dos erros de vê-la como redistribuição de renda ou condenando a prática por desencorajar o trabalho. Quem vê a esmola assim são os demônios de esquerda e de direita. Separemos uma quantia para ajudar os necessitados. Não esperemos ter “o suficiente” para começar a partilhar – comecemos com o que tem agora. A prática da caridade nos liberta do medo da escassez e fortalece nossa confiança em Deus.

Quinto, não fiquemos para tudo dependentes do dinheiro e dos bens e serviços mundanos. Saibamos cultivar interesses e alegrias naturais que não dependam de gastos materiais extraordinários. Não precisamos ficar comprando novas coisas, indo a eventos, pedindo comidas extraordinárias a toda hora. Aproveitemos o que temos ao nosso alcança, as nossas amizades, as nossas leituras, hobbies interessantes. Aprendamos a simplicidade das alegrias naturais que estão ao nosso alcance no dia a dia.

Por fim, pode parecer simplista, mas a verdade é que não pensamos nisso: façamos um inventário periódico de nossos bens. Perguntemo-nos: do que realmente precisamos? O que esperamos fazer com essas coisas que nem lembrávamos que possuíamos? O que podemos doar? O que estou guardando sem necessidade? Este exercício prático nos ajudará a ter uma relação de verdadeira liberdade espiritual e evangélica com os bens materiais.

Lembremos sempre: o objetivo claramente não é viver na miséria, mas usar os bens materiais como meios para nossa santificação e para o serviço ao próximo. Como nos ensina Santo Agostinho: ‘Use as coisas temporais, mas deseje as eternas.

Que o Espírito Santo nos conceda a graça de nos libertarmos das cadeias da avareza e vivermos na verdadeira liberdade dos filhos de Deus, usando os bens deste mundo com sabedoria e desprendimento, sempre atentos ao que podemos fazer concretamente em favor do próximo, e mantendo nosso coração fixo nos bens eternos.

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