O SOL SALÚTIS ÍNTIMIS
O Hino de Laudes no Tempo da Quaresma
Pe. Marcos Vinícius Mattke, IBP
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Dies venit, dies tua, in qua reflorent omnia.
Hino das Laudes, Tempo da Quaresma
O Canto que dá o tom da quaresma
Há na tradição litúrgica de nossa Santa Romana Igreja um tesouro freqüentemente ignorado: os hinos do Ofício Divino. Compostos ao longo dos séculos, muitos deles remontam à antigüidade cristã, e formam parte integrante da oração canônica que a Igreja eleva a Deus todos os dias. Entre esses hinos, o O sol salútis íntimis, prescrito para o ofício de Laudes no Tempo da Quaresma segundo o rito romano tradicional, ocupa um lugar de particular beleza e profundidade teológica. Trata-se de uma composição que, em apenas cinco estrofes de admirável concisão, consegue exprimir todo o espírito da penitência quaresmal: a austeridade temperada pela esperança, o pranto purificador que conduz à alegria pascal, a noite do pecado que cede lugar ao dia da graça.
Esta sensacional obra gregoriana dá o tom da Quaresma: austero, mas sereno. Não há nele o desespero que a penitência poderia sugerir a um olhar superficial, tampouco a leviandade de quem minimiza a gravidade do pecado. Há, antes, a serenidade profunda de quem sabe que a Cruz não é o fim, mas o caminho; que a mortificação quaresmal é a condição do reflorescimento pascal. Como nos recorda São Leão Magno em suas homilias para a quaresma, a penitência cristã não é uma aflição estéril, mas uma lavra fecunda que prepara a terra da alma para receber a semente da graça.
O hino das Laudes possui, pois, uma particular importância no Ofício Divino. As Laudes são a oração da manhã, a laus matutina, o louvor que se eleva a Deus ao nascer do sol. Há nisso um simbolismo fortíssimo: assim como o sol dissipa as trevas da noite, Cristo, o verdadeiro Sol, dissipa as trevas do pecado. Santo Ambrósio, o grande hinógrafo da Igreja latina, já explorava magistralmente esta correspondência em seus hinos matutinos. O O sol salutis inscreve-se nessa mesma tradição, dando-lhe, porém, a coloração penitencial própria do tempo quaresmal.
A primavera e a quaresma
As referências à luz do dia, ao renascimento da manhã, à alegria, ao reflorescimento de tudo não são fortuitas. Estamos falando aqui da chegada da primavera no hemisfério norte, e não esqueçamos que a nossa liturgia é romana! Se aqui no Brasil começa o outono, ou se temos calor o ano inteiro, ou as quatro estações no mesmo dia, na Europa as estações são bem definidas e marcam profundamente a vida e a piedade dos povos. Chegada a Quaresma, chega também a primavera. Lembremos, aliás, que a própria data da Páscoa está ligada ao ciclo natural: ela cai no primeiro domingo depois da primeira lua cheia após o equinócio da primavera. A liturgia e a natureza caminham juntas na pedagogia divina.
Já vemos nesse início de primavera as flores colorirem os bosques, furando mesmo o resto de neve que ainda se tem no solo. Surge então, tímida mas tenazes, a Pèrce-neige (Galanthus nivalis), a primeira flor da primavera, cujo próprio nome em francês já diz tudo: aquela que fura a neve. Pequena e branca, quase frágil na aparência, ela rompe a crosta gelada do inverno para anunciar que a vida não foi vencida pelo frio. É como uma parábola viva que a Providência inscreve na natureza para instrução dos fiéis: a graça, por mais tênue que pareça, é mais forte que o gelo do pecado. Que imagem mais eloqüente para a vida cristã na Quaresma! Pois assim como após o austero inverno vem a primavera e tudo renasce, também nós, pela penitência quaresmal, renasceremos para uma vida nova com a graça que nos dá Cristo, o Sol da Justiça.
Assim a nossa penitência deve ser, sim, austera, mas também serena e alegre, pois temos sempre em vista a vida nova que nos dá Nosso Senhor com o seu sacrifício. O Cristão deve ser alegre, mesmo na penitência, pois nós temos em Cristo o auxílio poderoso e certo para a nossa salvação. A Quaresma não é um tempo de tristeza mas um tempo de combate esperançoso, de labuta fecunda, de preparação jubilosa para o grande Dia. Não por acaso a própria palavra Quadragesima evoca os quarenta dias de Moisés no Sinai, de Elias caminhando ao Horeb, de Nosso Senhor no deserto; todos estes períodos de preparação que conduziram a manifestações luminosas da glória de Deus.
Texto e tradução do hino
Apresentamos a seguir o texto latino do hino com a tradução portuguesa, seguido de um breve comentário a cada estrofe.
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O sol salútis, íntimis,
Iesu, refúlge méntibus,
Dum, nocte pulsa, grátior
Orbi dies renáscitur.
Ó sol da salvação, Jesus,
brilhai nas profundezas das mentes,
enquanto, afastada a noite,
um dia mais gracioso renasce para o mundo.
A primeira estrofe abre o hino com uma invocação a Cristo como Sol salutis, o Sol da salvação. A imagem é profundamente bíblica e patrística. O profeta Malaquias (IV, 2) já anunciara: “Levantar-se-á para vós, os que temeis o meu Nome, o Sol da justiça, que traz a cura em suas asas.” Os Padres da Igreja viram nesta profecia uma referência inequívoca a Cristo, e a metáfora solar tornou-se um dos títulos cristológicos mais queridos da tradição latina. A oração da manhã convida-nos a contemplar o nascer do sol físico como sinal do Sol espiritual: Cristo que dissipa as trevas do pecado. Note-se o advérbio intimis: não se trata de uma iluminação exterior e superficial, mas de uma luz que penetra as profundezas da mente, lá onde se trava o verdadeiro combate espiritual. A expressão nocte pulsa, afastada a noite, ecoa tanto o fenômeno natural da aurora quanto a realidade sobrenatural da alma que, iluminada por Cristo, abandona as obras das trevas para revestir-se das armas da luz, segundo a exortação de São Paulo aos Romanos (XIII, 12).
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Dans tempus acceptábile,
Da lacrimárum rívulis
Laváre cordis víctimam,
Quam læta adúrat cáritas.
Concedendo o tempo favorável,
dai que com rios de lágrimas
lavemos a vítima do coração,
que a alegre caridade abrasa.
A segunda estrofe retoma a linguagem paulina do tempus acceptabile (II Cor. VI, 2): a Quaresma é o tempo favorável, o καιρος da graça divina. As lágrimas de que fala o hino não são as lágrimas do desespero, mas os lacrimárum rívulis, os rios de lágrimas da compunção, aquele dom precioso que os Padres do deserto tanto estimavam. A vítima do coração é o próprio coração oferecido como sacrifício a Deus, segundo a palavra do salmista (Sl. L, 19): “O sacrifício a Deus é um espírito contrito.” E essa vítima não é abrasada pelo fogo da ira divina, mas pela læta caritas, a caridade alegre, o amor que purifica sem destruir, que consome o pecado e vivifica a alma.
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Quo fonte manávit nefas,
Fluent perénnes lácrimæ,
Si virga pœniténtiæ
Cordis rigórem cónterat.
Da fonte donde manou o pecado,
fluam perenes lágrimas,
se a vara da penitência
quebrar a dureza do coração.
A terceira estrofe aprofunda o tema da compunção com uma lógica teológica admirável: da mesma fonte donde brotou o pecado, isto é, do coração humano, devem brotar também as lágrimas da penitência. Há aqui um princípio caro a Santo Agostinho: o remédio deve ser aplicado na mesma ferida. A imagem da virga pœnitentiæ, a vara da penitência, evoca Moisés ferindo a rocha no deserto para dela fazer brotar água (Ex. XVII, 6). Assim também o coração endurecido, ferido pela penitência, deixa fluir as águas vivificantes das lágrimas. A palavra rigorem, a dureza, a rigidez, descreve bem o estado do coração impenitente: petrificado como a rocha do deserto, incapaz de produzir fruto enquanto não for quebrantado.
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Dies venit, dies tua,
In qua reflórent ómnia:
Lætémur et nos in viam
Tua redúcti déxtera.
Vem o dia, o vosso dia,
no qual tudo reflorescerá:
alegremo-nos também nós,
reconduzidos para o caminho pela vossa mão direita.
Eis a estrofe luminosa do hino, o seu ápice, onde toda a austeridade quaresmal se abre para a alegria pascal. O dies tua é o dia do Senhor, a Páscoa que se aproxima, o dia em que tudo refloresce. E aqui retornamos à imagem da primavera: como os campos cobertos de neve se enchem de flores ao calor do sol primaveril, assim as almas purificadas pela penitência florescem na graça pascal. O verbo reflorent indica não um florescimento qualquer, mas um re-florescimento: algo que já floresceu, que foi ferido pelo inverno do pecado, e que agora renasce. É a imagem da graça restaurada, da inocência batismal reencontrada pela penitência. E tudo isso se dá porque somos reconduzidos pela mão direita de Deus, a dextera Dei, símbolo do poder e da misericórdia divina.
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Te prona mundi máchina,
Clemens, adóret, Trínitas,
Et nos novi per grátiam
Novum canámus cánticum.
A vós, prostrada, a máquina do mundo,
ó clemente Trindade, adore,
e nós, renovados pela graça,
cantemos um cântico novo.
A doxologia final dirige o louvor à Santíssima Trindade, como é próprio dos hinos do Ofício. A expressão mundi machina, a máquina do mundo, designa a totalidade da criação: toda ela prostrada (prona) em adoração diante do Criador. O adjetivo clemens, clemente, recorda-nos que o Deus a quem dirigimos a penitência não é um juiz impiedoso, mas um Pai misericordioso. E o hino encerra com uma referência ao Salmo XCV: Cantate Domino canticum novum, “Cantai ao Senhor um cântico novo.” Nós, renovados pela graça (novi per gratiam), cantamos um cântico novo, porque somos criaturas novas em Cristo. Há aqui uma belíssima correspondência entre o novi (renovados, feitos novos) e o novum canticum (cântico novo): a novidade interior da graça produz a novidade exterior do louvor. Quem é renovado por dentro não pode senão cantar de modo novo. É a experiência de toda alma que, purificada pela penitência quaresmal, alcança a alegria pascal.
Amen.
Na neve, as primeiras flores
No inverno das austeridades, lembremos que é na própria neve que surgem as primeiras flores, assim como é pela Cruz que temos a Salvação. A penitência não é o contrário da alegria, mas a sua condição. O inverno não é o inimigo da primavera, mas a sua preparação. E a Cruz não é a negação da vida, é o seu instrumento. Como ensina São Paulo: “Se com Ele morremos, com Ele viveremos” (II Tm. II, 11). Toda a lógica cristã é a lógica do grão de trigo que morre para dar fruto (Jo. XII, 24).
São Tomás de Aquino, tratando da virtude da penitência na Summa Theologiæ (III, q. LXXXV), ensina que a penitência verdadeira comporta uma dor da alma, mas que essa dor é sempre acompanhada pela esperança do perdão, de modo que o penitente não se entrega ao desespero, mas se eleva pela confiança na misericórdia divina. É precisamente esta a tonalidade do nosso caro hino de laudes: a dor purificadora das lágrimas, sim, mas sempre iluminada pela certeza de que o dia vem, o dia do Senhor, em que tudo reflorescerá.
Que este hino nos acompanhe ao longo da Quaresma como um farol de esperança no meio da penitência. Que as suas palavras, cantadas cada manhã na oração das Laudes, nos recordem que o Sol da salvação já brilha nas profundezas das nossas mentes, que o tempo favorável já nos foi concedido, que a vara da penitência não destrói mas faz brotar águas vivas, e que o grande Dia se aproxima: o dia em que tudo reflorescerá. Recordemos que a liturgia da Quaresma é toda ela permeada por esta tensão fecunda entre a austeridade penitencial e a esperança luminosa: os paramentos roxos convivem com os textos que anunciam a redenção; o jejum prepara o banquete pascal; as lágrimas da compunção são já as primeiras gotas da chuva primaveril que fará florescer a terra da alma. E assim, com o coração purificado e a alma renovada, cantamos com nossa Santa Madre Igreja:
Dies venit, dies tua,
In qua reflórent ómnia.
Lætémur et nos in viam
Tua redúcti déxtera.
Vem o dia, o vosso dia,
No qual tudo reflorescerá,
Alegremo-nos também nós,
Reconduzidos para o caminho pela vossa mão direita.
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