[Artigo] Exegese dos Montes Gelboé e de sua maldição pelo Rei Davi

Death of saul, and of his armour bearer

Pe. Marcos Vinícius Mattke, IBP
Brasília-DF, 13 de julho de 2025 A.D.
V Domingo depois de Pentecostes


Antífona ao Magnificat (I Vésperas do V Domingo depois de Pentecostes)

Montes de Gelboé, que nem orvalho nem chuva venham sobre vós: pois ali foi rejeitado o escudo dos fortes, o escudo de Saul, como se não fora ungido com óleo. Como caíram os fortes na batalha? Jônatas foi morto nas alturas: Saul e Jônatas, amáveis e muito graciosos em sua vida, nem na morte foram separados.

Montes Gelboë, nec ros nec plúvia véniant super vos: quia in te abiéctus est clýpeus fórtium, clýpeus Saul, quasi non esset unctus óleo. Quómodo cecidérunt fortes in bello? Iónathas in excélsis interféctus est: Saul et Iónathas, amábiles et decóri valde in vita sua, in morte quoque non sunt divísi.

Perícope escriturária (II Samuel I, 17-27)

E Davi fez este lamento sobre Saul e sobre Jônatas, seu filho, e ordenou que ensinassem aos filhos de Judá o cântico do arco, como está escrito no Livro do Justo:

“A glória de Israel foi morta sobre os teus altos! Como caíram os valentes! Não o anuncieis em Gate, nem o publiqueis nas ruas de Ascalon; para que não se alegrem as filhas dos filisteus, para que não saltem de contentamento as filhas dos incircuncisos.

Vós, montes de Gelboé, nem orvalho nem chuva caia sobre vós, nem haja campos de primícias, porque ali foi rejeitado o escudo dos valentes, o escudo de Saul, como se não fora ungido com óleo.

Sem sangue dos feridos, sem gordura dos valentes, nunca tornou atrás o arco de Jônatas, nem voltou vazia a espada de Saul.

Saul e Jônatas, tão amados e queridos na sua vida, tampouco na sua morte foram separados; eram mais ligeiros do que as águias, mais fortes do que os leões.

Vós, filhas de Israel, chorai por Saul, que vos vestia de escarlata em delícias, que vos fazia trazer ornamentos de ouro sobre os vossos vestidos.

Como caíram os valentes no meio da peleja! Jônatas nos teus altos foi ferido! Angustiado estou por ti, meu irmão Jônatas; quão amabilíssimo me eras! Mais maravilhoso me era o teu amor do que o amor das mulheres.

Como caíram os valentes, e pereceram as armas de guerra!”


A antífona ao Magnificat das primeiras vésperas do quinto domingo depois de Pentecostes apresenta-nos um dos mais comoventes lamentos da Sagrada Escritura: as palavras de Davi sobre a morte de Saul e Jônatas nos montes de Gelboé. Este cântico fúnebre, conhecido como קִינָה (qînāh) ou elegia de Davi, transcende o mero registro histórico para revelar-se como profunda meditação teológica sobre a unção divina, a amizade humana e o mistério da morte dos ungidos do Senhor. A tradição patrística, particularmente através de São Gregório Magno, descortina nesta passagem uma prefiguração velada da morte de Cristo e da esterilidade espiritual daqueles que rejeitam o Ungido de Deus.

O contexto histórico que emoldura este lamento encontra-se no momento crítico da transição dinástica em Israel. Após anos de perseguição movida por Saul contra Davi, o desfecho trágico sobrevém nas alturas de Gelboé, onde o primeiro rei de Israel e seu filho Jônatas encontram a morte em batalha contra os filisteus. O relato do segundo livro de Samuel apresenta-nos Davi recebendo a notícia através de um amalecita que, buscando favor, alega ter dado o golpe final em Saul a pedido do próprio rei moribundo. A reação de Davi surpreende pela ausência de qualquer traço de satisfação ou alívio diante da morte daquele que por tanto tempo o perseguira. Pelo contrário, o futuro rei de Israel rasga suas vestes em sinal de luto e entoa uma elegia que a tradição preservou como um dos mais sublimes exemplos de poesia hebraica.

“Montes Gelboé, que nem orvalho nem chuva venham sobre vós, pois ali foi rejeitado o escudo dos fortes, o escudo de Saul, como se não fora ungido com óleo”. Estas palavras inauguram uma maldição que, à primeira vista, pode parecer desconcertante. Por que amaldiçoar elementos inanimados da natureza pela morte de homens em batalha? A resposta a esta questão conduz-nos ao âmago da compreensão bíblica sobre a relação entre a criação e a história da salvação. Na mentalidade semítica, a natureza não é mero cenário neutro dos dramas humanos, mas participa intimamente do destino moral e espiritual do homem. Assim como a terra foi amaldiçoada por causa do pecado de Adão, os montes que testemunharam a queda do ungido do Senhor tornam-se indignos de receber as bênçãos celestes do orvalho e da chuva.

São Gregório Magno, em seus Moralia in Job, oferece-nos uma chave exegética fundamental para compreender o sentido espiritual desta passagem. O Doutor da Igreja interroga-se sobre o aparente paradoxo de Davi, modelo de mansidão que não retribuía mal por mal, proferindo maldições contra montanhas inanimadas. A resposta gregoriana desvela camadas profundas de significado através da análise etimológica: Gelboé, interpretado como “decursus” ou “fluxo”, “corrente”, simboliza o movimento descendente, a queda, o escoamento para baixo que caracteriza a alma dominada pelas paixões terrenas. O Papa São Gregório desenvolve esta interpretação observando que o nome hebraico גִּלְבֹּעַ (Gilbōa’) pode ser compreendido como “fonte borbulhante” ou “monte da efervescência”, sugerindo a agitação desordenada das paixões humanas que levam à ruína espiritual.

Nesta perspectiva, os montes de Gelboé representam alegoricamente os corações soberbos dos judeus que, deixando-se levar pelo fluxo dos desejos mundanos, participaram da morte do verdadeiro Ungido, Nosso Senhor Jesus Cristo. A interpretação cristológica de São Gregório vê em Saul, o ungido que morre, uma figura de Cristo, enquanto os montes simbolizam aqueles que, em sua soberba, tornaram-se cúmplices do pérfido deicídio. A privação do orvalho e da chuva significa, portanto, a esterilidade espiritual, a ausência da graça divina sobre aqueles que rejeitaram o Messias. Esta interpretação ganha ainda maior profundidade quando consideramos que no hebraico bíblico, טַל (ṭal – orvalho) e מָטָר (māṭār – chuva) são frequentemente utilizados como metáforas da bênção e da palavra divina.

Esta leitura tipológica, longe de ser arbitrária, insere-se na grande tradição patrística de interpretação das Escrituras, onde os eventos do Antigo Testamento prefiguram e iluminam os mistérios do Novo. Santo Agostinho, em seu comentário aos Salmos, já havia estabelecido o princípio hermenêutico fundamental: “Novum Testamentum in Vetere latet, Vetus in Novo patet” – o Novo Testamento está oculto no Antigo, o Antigo manifesta-se no Novo. Assim, a morte de Saul, o primeiro ungido de Israel, antecipa misteriosamente a morte de Cristo, o Ungido por excelência. O bispo de Hipona desenvolve ainda a noção de que toda a história de Israel deve ser lida como uma grande παιδαγωγία (paidagōgía) divina, uma pedagogia que prepara a humanidade para receber o mistério da Encarnação.

A profundidade teológica do lamento davídico revela-se ainda mais quando consideramos o significado da unção na economia salvífica. Saul fora ungido por Samuel por ordem divina, tornando-se assim o מָשִׁיחַ (māšîaḥ – messias) do Senhor, o χριστός (christós – ungido). Esta unção conferia-lhe um caráter sagrado que permanecia mesmo em meio às suas falhas morais e à sua rejeição por Deus. Davi, ele próprio já ungido secretamente por Samuel, reconhece e reverencia este mistério da unção, recusando-se repetidamente a levantar a mão contra o ungido do Senhor, mesmo quando teve oportunidades de fazê-lo nas cavernas de En-Gedi e no acampamento de Saul. A reverência de Davi pelo caráter sacramental da unção real antecipa a doutrina cristã do character indelebilis conferido pelos sacramentos, particularmente o batismo, a confirmação e a ordenação.

A expressão “como se não fora ungido com óleo” adquire assim uma densidade teológica particular. Não se trata de negar a realidade da unção de Saul, mas de lamentar que sua morte ignominiosa pareça contradizer a dignidade conferida pela unção sagrada. O escudo do rei ungido jaz abandonado no campo de batalha, manchado de sangue e poeira, como se a unção divina não tivesse poder para proteger seu portador. Este paradoxo antecipa o escândalo da cruz, onde o verdadeiro Ungido de Deus morrerá aparentemente abandonado, levando São Paulo a falar da μωρία τοῦ σταυροῦ (mōría toû stauroû – loucura da cruz) que confunde a sabedoria humana. O óleo da unção, שֶׁמֶן הַמִּשְׁחָה (šemen hammišḥāh), símbolo do Espírito Santo e da eleição divina, parece ter perdido sua eficácia protetora, prefigurando o aparente abandono de Cristo no Gólgota.

A dimensão moral da exegese patrística desta passagem é igualmente rica e relevante. São João Crisóstomo, em suas homilias, destaca a nobreza de caráter de Davi ao chorar sinceramente por seu perseguidor. Aqui encontramos um exemplo sublime do mandamento de Cristo de amar os inimigos e orar pelos que nos perseguem. A autenticidade do luto de Davi manifesta-se não apenas nas palavras, mas nas ações: ele manda executar o amalecita que alegava ter matado Saul, demonstrando seu horror genuíno diante do sacrilégio de levantar a mão contra o ungido do Senhor. O Crisóstomo observa que este comportamento de Davi exemplifica a verdadeira μεγαλοψυχία (megalopsychía – magnanimidade), virtude que transcende o mero perdão para alcançar uma genuína compaixão pelos que nos fazem mal.

Santo Ambrósio, em seu tratado De Officiis, apresenta Davi como modelo de magnanimidade e de superação do ressentimento. O bispo de Milão vê neste episódio uma lição fundamental sobre a natureza do verdadeiro poder e autoridade: não se fundamentam na força ou na vingança, mas no reconhecimento da ordem divina e no respeito pela dignidade conferida por Deus, mesmo quando esta se encontra em pessoas que nos são hostis. Esta interpretação moral possui implicações profundas para a compreensão cristã da autoridade civil e eclesiástica. Santo Ambrósio desenvolve o conceito de reverentia maiestatis, o respeito devido à majestade divina presente em toda autoridade legítima, independentemente dos defeitos pessoais daqueles que a exercem.

O lamento por Jônatas acrescenta outra dimensão à riqueza teológica e espiritual do texto. “Jônatas foi morto nas alturas; Saul e Jônatas, amáveis e graciosos em vida, nem na morte foram separados”. A amizade entre Davi e Jônatas, celebrada como paradigma de amor desinteressado e fiel, transcende até mesmo os laços de sangue e as rivalidades dinásticas. São Gregório de Nazianzo, em seu discurso sobre a amizade cristã, vê nesta amizade um modelo da φιλία (philía) evangélica, onde o amor ao próximo reflete e participa do amor divino. O Nazianzeno elabora sobre como esta amizade exemplifica o ideal aristotélico da amizade virtuosa, elevada e santificada pela graça divina.

A tradição rabínica, conforme registrada no Talmude, oferece cum grano salis uma percepção complementar sobre a amizade entre Davi e Jônatas. O conceito de אַהֲבָה שֶׁאֵינָהּ תְּלוּיָה בְדָבָר (ahavah she’einah teluyah bedavar – amor que não depende de nada) encontra sua expressão máxima nesta relação. Os comentadores veem nesta amizade um reflexo do amor divino, que é gratuito e incondicional. Esta perspectiva judaica enriquece a compreensão cristã do texto, mostrando como as escrituras oferecem fundamentos para uma teologia da amizade que transcende interesses pessoais e cálculos políticos.

A aplicação litúrgica desta passagem na antífona do Magnificat revela a sabedoria da Igreja em sua lectio divina das Escrituras. Ao colocar estas palavras no contexto do ofício vespertino, a liturgia convida-nos a meditar sobre os mistérios da providência divina que permite a queda dos poderosos e a exaltação dos humildes, tema central do cântico de Maria Santíssima. Como Nossa Senhora canta o Deus que “depôs os poderosos de seus tronos”, assim Davi lamenta a queda daqueles que, apesar de suas falhas, portavam a marca da eleição divina. A justaposição litúrgica cria um diálogo intertextual rico em significados teológicos.

A interpretação espiritual dos Padres do deserto acrescenta ainda outra camada de significado. Cassiano, nas suas Collationes, vê nos montes de Gelboé um símbolo das alturas da soberba espiritual que se tornam áridas quando servem de palco para a destruição dos ungidos de Deus. O monge deve vigiar para que seus progressos espirituais não se transformem em montes de orgulho onde pereça a unção do Espírito Santo. A ausência de orvalho e chuva representa a privação das consolações divinas que sobrevém àqueles que, em sua altivez, tornam-se ocasião de escândalo para os pequenos do Reino. Cassiano desenvolve o conceito de ἀκηδία (akēdía – acédia), a aridez espiritual que pode sobrevir mesmo àqueles que alcançaram grandes alturas na vida contemplativa.

Orígenes, em sua exegese alegórica, desenvolve o simbolismo do orvalho e da chuva como figuras da palavra de Deus e da graça santificante. Citando Deuteronômio 32,2 – “Que minha doutrina se derrame como a chuva, que minhas palavras desçam como o orvalho” – o alexandrino interpreta a maldição dos montes como profecia da rejeição da palavra divina por parte daqueles que se fecham à mensagem do Evangelho. Os montes estéreis tornam-se assim imagem da dureza de coração que impede a fecundidade espiritual. O método alegórico de Orígenes, conhecido como ἀναγωγή (anagōgḗ – elevação espiritual), busca elevar o sentido literal do texto ao seu significado místico e escatológico.

A tradição monástica oriental, particularmente através de São João Clímaco, oferece uma leitura ascética desta passagem. Em sua Κλῖμαξ τοῦ Παραδείσου (Klîmax toû Paradeísou – Escada do Paraíso), o santo vê nos montes amaldiçoados um aviso sobre os perigos do orgulho espiritual que pode levar à queda mesmo aqueles que alcançaram grandes alturas na vida espiritual. Como Saul caiu de sua dignidade real, assim o monge pode cair de suas conquistas espirituais se não cultivar a humildade e o temor de Deus. Clímaco elabora sobre os diferentes graus de ὑπερηφανία (hyperēphanía – soberba) que podem afligir o asceta em diferentes estágios de seu progresso espiritual.

A exegese medieval, sintetizada por São Tomás de Aquino em sua Catena Aurea, harmoniza as diversas interpretações patrísticas numa visão abrangente. O Doutor Angélico destaca como a maldição de Davi não procede de ódio ou vingança, mas de um zelo pela justiça divina e de dor pela profanação da dignidade real. A esterilidade imposta aos montes simboliza a justa retribuição divina sobre aqueles lugares que se tornaram cenário de sacrilégio e blasfêmia. O Aquinate introduz a distinção escolástica entre maledicere per se (amaldiçoar em si mesmo) e maledicere per accidens (amaldiçoar por acidente), mostrando como Davi não deseja o mal dos montes em si, mas lamenta sua associação com a tragédia.

São Bernardo de Claraval, em seus Sermones super Cantica Canticorum, estabelece um paralelo místico entre os montes amaldiçoados e a alma que perde a presença do Esposo divino por sua infidelidade. Como os montes de Gelboé foram privados do orvalho celestial, assim a alma infiel experimenta a aridez espiritual, a ausência das consolações divinas, o deserto interior que sobrevém quando nos afastamos da fonte da graça. O abade cisterciense desenvolve sua teologia nupcial, onde a alma é vista como sponsa Christi (esposa de Cristo), e sua infidelidade resulta em esterilidade espiritual comparável à dos montes amaldiçoados.

A interpretação escatológica desta passagem, desenvolvida por São Jerônimo em seu comentário a Isaías, vê nos montes estéreis uma prefiguração do destino final daqueles que rejeitam definitivamente a graça divina. A ausência perpétua de orvalho e chuva simboliza a condenação eterna, onde não há mais possibilidade de renovação ou fecundidade espiritual. Esta leitura severa é temperada, contudo, pela misericórdia infinita de Deus que sempre oferece o arrependimento enquanto dura a peregrinação terrena. São Jerônimo usa o termo hebraico שְׁאוֹל (še’ôl) para descrever o estado de separação definitiva de Deus, comparando-o à esterilidade perpétua dos montes amaldiçoados.

Hugo de São Vítor, em seu De Sacramentis, oferece uma interpretação sacramental única desta passagem. Os montes privados de orvalho e chuva representam aqueles que, por sua dureza de coração, tornam-se incapazes de receber a graça sacramental. Assim como a terra endurecida não pode absorver a água que lhe é oferecida, as almas obstinadas no pecado não podem beneficiar-se dos sacramentos, mesmo quando validamente administrados. Esta interpretação antecipa discussões teológicas posteriores sobre a disposição necessária para a recepção frutuosa dos sacramentos.

A mística renana, representada por Mestre Eckhart, oferece uma leitura apofática desta passagem. A esterilidade dos montes simboliza o necessário despojamento (Entbildung) que a alma deve experimentar antes de poder receber a plenitude divina. Paradoxalmente, a ausência de orvalho e chuva pode ser vista como preparação para uma irrigação mais profunda, assim como a noite escura da alma precede a união mística. Esta interpretação, embora ousada, mantém-se, neste ponto, dentro dos limites da ortodoxia ao enfatizar que o despojamento é sempre orientado para uma plenitude maior.

A relevância perene desta passagem bíblica manifesta-se em sua capacidade de iluminar realidades espirituais universais. A Igreja, ao incorporar estas palavras em sua liturgia, reconhece nelas um espelho onde cada geração pode contemplar os dramas sempre atuais da fidelidade e infidelidade, da eleição e rejeição, da grandeza e miséria da condição humana chamada a participar do desígnio salvífico de Deus. O conceito de καιρός (kairós – tempo oportuno) aplica-se aqui: cada época encontra nesta passagem uma palavra divina dirigida às suas circunstâncias particulares.

A síntese teológica que emerge desta rica tradição exegética aponta para o mistério central da fé cristã: a morte e ressurreição de Cristo, o verdadeiro Ungido, que transforma toda maldição em bênção, toda esterilidade em fecundidade. Se os montes de Gelboé permanecem como memorial da tragédia da rejeição do ungido, o monte Calvário torna-se fonte inesgotável de graça e salvação. O sangue do novo e eterno Ungido, derramado por amor, é mais eloquente que o de Abel e mais fecundo que todos os orvalhos e chuvas do céu. A εὐλογία (eulogía – bênção) de Cristo reverte a κατάρα (katára – maldição) de Gelboé, inaugurando uma nova criação onde a graça superabunda onde abundou o pecado.

Assim, encontramos nesta passagem elementos para uma teologia da esperança em meio ao aparente triunfo do mal. Os montes de Gelboé de nosso tempo, as diversas facetas de nossa sociedade apóstata que não somente rejeita a Deus, mas toma seu lugar, aguardam a transformação que somente Cristo pode operar. A Igreja, como novo Israel, é chamada a ser instrumento desta transformação, expandindo o Reinado Social de Cristo, levando o orvalho da misericórdia e a chuva da Verdade divina aos desertos espirituais de nossa época.

Contemplando o lamento de Davi através do prisma da tradição patrística e litúrgica, somos convidados a examinar nossa própria resposta ao mistério da unção divina presente em nossas vidas através do batismo e da confirmação. Como novos ungidos em Cristo, participamos de seu múnus sacerdotal, profético e real, mas também de sua κένωσις (kénōsis – esvaziamento), sua aparente derrota que é, na verdade, a suprema vitória do amor sobre o ódio, da vida sobre a morte. O caráter sacramental impresso em nossas almas pelo batismo nos constitui como χριστοφόροι (christophóroi – portadores de Cristo), chamados a levar sua presença salvífica ao mundo.

A dimensão eclesial desta exegese não pode ser negligenciada. A Igreja, como corpo místico de Cristo, experimenta em sua história momentos de “Gelboé” – períodos de aparente esterilidade, perseguição e abandono divino. Contudo, a promessa de Cristo de que as portas do inferno não prevalecerão contra ela garante que mesmo os mais áridos desertos eclesiais podem florescer novamente sob o orvalho do Espírito. A história da Igreja demonstra repetidamente como dos montes mais estéreis surgem os mais fecundos impulsos de pregação do evangelho.

A exegese dos montes de Gelboé permanece, assim, como perpétuo chamado à conversão e à vigilância espiritual. Que nossas almas não se tornem montes áridos onde perece a unção da graça santificante, mas vales férteis onde o orvalho da graça e a chuva da pregação evangélica produzam frutos de vida eterna para glória de Deus e salvação do mundo. A μετάνοια (metánoia – conversão) a que somos chamados implica uma transformação radical que nos faça passar da esterilidade de Gelboé à fecundidade do Calvário, onde o novo Adão triunfa sobre a morte e inaugura a nova criação operada pela rendenção.

Referências Bibliográficas

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O Antoniano