Pe. Marcos Vinicius Mattke, IBP
Saint Louis-MO, EUA
03 de dezembro de 2025 A.D.
O início do Advento
Com o primeiro domingo do Advento, nossa Santa Madre Igreja inaugura não apenas um novo ano litúrgico, mas convida-nos a uma profunda preparação espiritual através de símbolos e costumes que carregam verdades eternas. Entre estes símbolos, destaca-se a Coroa do Advento, cujo significado nos conduz ao mistério da dupla vinda de Cristo: sua natividade em Belém e seu retorno glorioso como Juiz dos vivos e dos mortos.
A origem desta devoção remonta às tradições germânicas cristianizadas, mas seu significado universal foi abraçado pela Igreja como poderoso meio de catequese visual. Cada elemento da coroa proclama verdades fundamentais da fé, tornando-se assim uma pregação silenciosa que acompanha os fiéis durante as quatro semanas de preparação.
A luz crescente
A Coroa do Advento apresenta-se como um círculo perfeito, ornamentado com folhagens que mantêm o seu verdor e adornado com quatro velas, três roxas e uma rósea. Este conjunto não é arbitrário, mas carrega profundo significado teológico e ascético.
As velas acesas progressivamente a cada domingo representam Cristo como Luz do mundo, conforme proclama São João no prólogo de seu Evangelho: “In ipso vita erat, et vita erat lux hominum: et lux in tenebris lucet, et tenebrae eam non comprehenderunt”, “N’Ele estava a vida, e a vida era a luz dos homens. E a luz resplandece nas trevas, e as trevas não a compreenderam” (Jo. I, 4-5). Quando contemplamos a chama crescente semana após semana, somos recordados de que Cristo é a verdadeira Luz que dissipa as trevas do pecado e da morte.
Esta progressão luminosa possui também uma dimensão pedagógica: assim como a luz aumenta gradualmente, nossa preparação espiritual deve intensificar-se à medida que nos aproximamos da festa do Natal. A escuridão do inverno no hemisfério norte, onde nasceu esta tradição, acentua ainda mais o contraste entre as trevas do mundo sem Cristo e a luz salvadora que Ele traz.
O círculo da eternidade
A forma circular da coroa, construída com folhagens que permanecem sempre verdes, tradicionalmente pinheiro, azevinho ou outras coníferas que mantêm seu verdor mesmo no inverno, simboliza a eternidade divina. O círculo, sem princípio nem fim, representa Aquele que é o mesmo ontem, hoje e para sempre. As folhas verdes proclamam silenciosamente que Cristo, o Verbo eterno, não conhece mudança nem sombra de variação.
Esta imutabilidade divina contrasta profundamente com a mutabilidade de nossa existência temporal. Enquanto o mundo físico caminha para sua consumação final, quando “o céu e a terra passarão”, as palavras do Senhor e seu julgamento permanecerão eternamente (Lc. XXI, 33). A coroa verde nos recorda que, em meio às vicissitudes da vida temporal, ancoramos nossa esperança naquele que é eterno e imutável.
O verde perene também evoca a vida divina que não conhece morte. Mesmo no inverno espiritual da humanidade decaída, a vida de Deus permanece viçosa e fecunda, pronta a comunicar-se às almas que se abrem à graça. Esta vida divina, que será plenamente manifestada no Natal, já está presente e operante no mundo, aguardando ser acolhida.
As quatro dimensões de Cristo nas velas
A tradição atribui significados específicos a cada vela da coroa, cada uma revelando aspectos fundamentais do mistério de Cristo que o Advento nos impele a contemplar em ordem progressiva:
A primeira vela roxa representa Cristo como Juiz soberano. Sua luz nos recorda as palavras do Evangelho: “Et tunc videbunt Filium hominis venientem in nube cum potestate magna et maiestate”, “E então verão o Filho do homem vir sobre uma nuvem com grande poder e majestade” (Lc. XXI, 27). Esta primeira semana confronta-nos com uma realidade esquecida por tantos: que Cristo retornará para julgar os vivos e os mortos, e que este julgamento será definitivo e irrevogável. É significativo que a Santa Romana Igreja comece o ano litúrgico não com consolações, mas com este solene aviso, despertando-nos do sono espiritual.
A segunda vela roxa simboliza Cristo Rei. Aquele que nasceu em Belém não veio apenas como uma criança indefesa, mas como o Rei dos reis, cujo reino não terá fim. A realeza de Cristo não é deste mundo, mas transcende toda autoridade temporal, estabelecendo seu domínio sobre todas as criaturas. Esta semana leva-nos a reconhecer o absoluto domínio de Cristo sobre nossas vidas, submetendo nossa vontade à sua soberana autoridade.
A terceira vela, de cor rósea, acesa no domingo Gaudete, proclama a alegria da proximidade do Senhor. “Gaudete in Domino semper: iterum dico, gaudete”, “Alegrai-vos sempre no Senhor, digo novamente, alegrai-vos!” (Filip. IV, 4-5). Alegrai-vos pois ele se encontra próximo. Esta alegria não é superficial, mas brota da consciência de que Aquele que vem é simultaneamente Juiz justo, Rei soberano e Salvador misericordioso. O róseo, cor litúrgica mais suave que o roxo penitencial, indica que nossa penitência está dando frutos e que a alegria do encontro com Cristo já desponta no horizonte.
A quarta vela roxa representa Cristo Salvador, quando já estamos às portas do Natal. É o Salvador que vem ao nosso encontro, não para condenar, mas para oferecer a salvação àqueles que O acolhem com fé e arrependimento. Esta última semana intensifica nossa preparação, recordando-nos de que o Menino que nascerá é o Redentor do mundo, que veio buscar e salvar o que estava perdido.
A dupla preparação do Advento
A sabedoria litúrgica de nossa Santa Madre Igreja estabelece uma conexão profunda entre as duas vindas de Cristo. Ao preparar-nos para celebrar o nascimento do Salvador, somos simultaneamente preparados para sua vinda gloriosa. Esta dupla dimensão do Advento manifesta-se claramente na liturgia do primeiro domingo, que não nos apresenta a cena bucólica de Belém, mas a imagem majestosa do Filho do Homem vindo sobre as nuvens.
Esta aparente contradição revela profunda verdade teológica: não podemos compreender adequadamente o mistério do Natal sem contemplar sua finalidade última. O Menino que nasce em Belém é o mesmo que virá como Juiz universal. A manjedoura e o trono de glória são dois momentos do único mistério salvífico. A humildade da primeira vinda prepara e anuncia a glória da segunda; a misericórdia oferecida no presépio será o critério do julgamento final.
Esta dupla perspectiva protege-nos de um sentimentalismo natalino que reduziria o mistério da Encarnação a uma mera celebração familiar fraterna. O Advento recorda-nos que o tempo é linear e caminha para sua consumação, que nossa vida presente é decisiva para nosso destino eterno, e que cada Natal é um passo a mais em direção ao encontro definitivo com Cristo.
O fogo purificador e renovador
As chamas das velas carregam ainda outro simbolismo: o fogo do juízo que purificará a criação. Como ensina São Pedro: “Virá, pois, o dia do Senhor como ladrão: n’aquele dia os céus passarão com grande estrondo, e os elementos, abrasados, se dissolverão, e a terra será consumida com todas as obras que n’ela há” (II Pe. III, 10). Este fogo, porém, não é apenas destruidor, mas purificador e renovador.
A comparação com o dilúvio é verdadeiramente oportuna: assim como as águas purificaram a terra da maldade dos homens nos tempos de Noé, o fogo do juízo final eliminará definitivamente todo vestígio de pecado da criação. Os pecados dos homens contaminaram a terra, desfiguraram a beleza original da obra de Deus. Por isso, até os céus serão purificados, pois, como diz Jó, nem mesmo eles são puros aos olhos do Senhor, manchados que foram pela rebelião humana que se eleva até o firmamento: “Eis que entre os seus santos nenhum é imutável, e os céus não são puros na sua presença” (Jó XV, 15).
Esta destruição da ordem física presente não deve causar-nos desespero, mas esperança. Deus não permitirá que sua criação permaneça para sempre desfigurada pelo pecado. O fogo do juízo é expressão do zelo divino pela santidade e beleza de sua obra.
A nova criação
Santo Anselmo, Doutor da Igreja, contempla com esperança esta renovação: a terra que sustentou o corpo santo do Senhor tornar-se-á um paraíso, eternamente adornada com flores incorruptíveis, numa primavera perpétua que recordará o Éden perdido. Esta visão não é meramente figurativa, mas consequência teológica da Encarnação: porque o Verbo se fez carne e habitou entre nós, a própria criação material participará do mistério da redenção.
O Doutor da Igreja especifica que esta terra “será lavada com o sangue dos mártires” e “eternamente ornamentada com flores perfumadas, violetas e rosas que não murcharão”. Após a destruição pelo fogo, surgirá uma criação renovada, com “novas espécies sempre verdejantes” e “uma primavera e beleza perpétuas”, como no paraíso original. As palavras do salmista confirmam esta esperança: “Emittes spiritum tuum, et creabuntur: et renovabis faciem terrae”, “Enviarás o teu espírito, e serão criados: e renovarás a face da terra” (Sl. CIII, 30).
Esta renovação universal da criação está intimamente ligada ao mistério do Natal. Foi porque o Menino Jesus nasceu nesta terra, porque seus pés sagrados caminharam sobre ela, porque seu sangue precioso a regou, que ela pode merecer e receberá esta glorificação final. A Encarnação dignificou para sempre a criação, prometendo-lhe participação na glória da ressurreição.
O fruto espiritual da devoção
A contemplação da Coroa do Advento deve suscitar em nós duplo movimento espiritual: um santo temor e uma firme esperança. Temor, ao recordar-nos que seremos julgados e que nossas obras serão examinadas pelo Juiz que conhece os segredos dos corações. Esperança, porque este Juiz é também nosso Salvador, que nasceu, morreu e ressuscitou para nos dar as graças necessárias à salvação.
Durante estas quatro semanas, cada vez que nosso olhar pousar sobre a Coroa do Advento, que sejamos movidos a examinar nossas consciências, arrepender-nos de nossos pecados e renovar nosso propósito de conversão. A luz crescente das velas convida-nos a crescer também na caridade, na oração e nas boas obras, preparando dignamente nossos corações para receber o Senhor.
O erro moderno e a verdade católica do advento
É muito oportuno também rechaçar a tendência moderna que reduz Nosso Senhor Jesus Cristo a mero “assistente social” celestial, esquecendo sua dimensão de Juiz soberano. Muitos são os católicos hoje que falam apenas do Jesus misericordioso, do Jesus que perdoa, do Jesus que acolhe, omitindo convenientemente que esse mesmo Jesus que virá “com grande poder e majestade” para julgar os vivos e os mortos.
A Coroa do Advento, com sua primeira vela dedicada a Cristo nosso Justo Juiz, corrige este desequilíbrio. Ela nos recorda que a misericórdia divina não anula a justiça, que o perdão pressupõe arrependimento, e que o amor de Deus inclui o ódio ao pecado. Preparar-se para o Natal sem considerar o próprio Juízo é tão ilógico quanto querer crescer no amor a Deus sem crescer no ódio ao pecado.
A síntese do mistério
A Coroa do Advento, longe de ser mero enfeite natalino, constitui uma verdadeira e tradicional catequese do Natal do Senhor. Ela nos recorda que o tempo não é infinito, mas caminha para sua consumação; que Cristo é simultaneamente Juiz, Rei e Salvador; que a criação geme aguardando sua glorificação definitiva no fim dos tempos ; e que nossa vida presente é preparação para a eternidade.
Cada elemento da coroa, o círculo eterno, o verde perene, as chamas progressivas, as cores litúrgicas, forma uma sinfonia visual que eleva nossa mente e coração às realidades eternas. Não é por acaso que a tradição da Igreja, nossa mãe e mestra, oferece-nos este símbolo no início do ano litúrgico: ele contém, em forma condensada, todo o mistério cristão.
Que neste Advento, guiados pela luz crescente da coroa sagrada, preparemo-nos não apenas para celebrar piedosamente o Natal, mas para comparecer dignamente diante do tribunal de Cristo. Que cada vela acesa seja ocasião de renovação espiritual, cada contemplação da coroa nos recorde nosso destino eterno, e cada vislumbre do verde perene fortaleça nossa esperança na vida eterna.
Pois bem-aventurados serão aqueles que, quando o Senhor vier, forem encontrados vigilantes e preparados, com suas lâmpadas acesas, aguardando a vinda do Esposo divino. A Coroa do Advento, em sua simplicidade profunda, é um convite e um auxílio para esta vigilância e para a contemplação das verdades eternas.


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